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domingo, 15 de fevereiro de 2015

Retratos de família

Se mergulharmos no baú das memórias, procurando entre aquelas histórias de família que sempre ouvimos contar, fotografias, cartas esquecidas, objectos pessoais, e outros retalhos de quotidianos passados que lhe componham o desenho, emergem histórias fabulosas com heróis e heroínas ou anti-heróis e anti heroínas  a caminho do esquecimento total.
 
Maude Fealy, USA, (1897-1971), uma das mais belas actrizes do cinema mudo
Vintage Photography
 
O desafio desta oficina é por aí. Vamos ressuscitar aquela bisavó muito louca, que fugiu de casa para seguir o seu sonho, provavelmente personificado por um aventureiro qualquer, desses capazes de tudo; mães-coragem e pais-heróis; o tio que se alistou na Legião Francesa para fugir de uma legião de amantes enfurecidas e de um sem fim de dívidas de jogo. Vamos procurar saber da tia que acabou na miséria com uma fortuna cifrada em papéis de doação de propriedades que não se sabe onde ficam. E da outra que, no desgosto da morte do marido, se sentou numa cadeira, muda, inerte e em lágrimas duramente meses, até os pais aparecerem ameaçando que lhe levavam os filhos pequenos - que cresciam â solta pela casa, entregues a uma velha empregada -, se ela persistisse em ignorar que a vida continuava.
 
 
 
 
 
Pessoas cujo sangue nos corre nas veias, ou gente que fez parte da vida de gente que está na nossa vida. Crescemos a ouvir as suas histórias, muitas vezes por meias palavras. Sem lhes darmos o devido valor, pois  só os anos e as grandes ausências permitem que, nalguns casos, justiça lhes seja feita. Prazerosamente, é bom de ver. Porque contar histórias, nossas ou dos outros, inventadas ou recontadas à nossa maneira de quem conta um conto acrescenta todos os pontos que lhe apetecer, é uma actividade mágica. Uma adição sem contra-indicações. Um voar sem limites. Uma paixão.
 
Como:
Ao longo de quatro aulas semanais, de hora e meia cada, vamos desenterrar lendas, intrigas, pequenas grandes tragédias, glórias, amores escondidos, mortes a destempo, ódios e paixões e saudades cujo prazo de validade já terminou.
Quando:
25 de Fevereiro; 4 de Março; 11 de Março; 18 de Março - com início às 18.30.
Onde:
Livraria Alêtheia, Rua do Século, nº13 - 1200-433 Lisboa (Estacionamento no silo da Calçada do Combro); Telefone (+ 351) 210939748 * Email: aletheia@aletheia.PT
 
Mais informações: Manuela Gonzaga, manuelagonzaga@gmail.com





 





quinta-feira, 15 de maio de 2014

A graça de ser Maria

A Ana, ou a Maria Ana, passou rapidamente a «Anita» durante as oficinas. Mas a sua esplêndida juventude não lhe retira um átimo à força das suas narrativas. Foi lindo ver como os seus textos cresciam, encantando-nos pela intensidade, emoção e frescura. Aqui fica uma amostra. MG



A graça de ser Maria

O meu pai conta em jeito de brincadeira que sou tão teimosa que troquei as voltas a toda a gente. Diz que fez as contas de forma a eu nascer no seu dia de aniversário e queria muito que fosse um «Zé». Eu não fiz a vontade a ninguém, nascendo Maria e quinze dias antes, sendo a rainha da teimosia desde que fui gerada.

A escolha do meu nome não foi um processo linear. À medida que a gravidez ia avançado, as incertezas não davam lugar às decisões e não havia maneira de ter um nome. Primeiro pensaram em Ana Luísa, nome com tradição familiar, mas depois diziam que fazia lembrar a tia chata e que não podia ser. Depois Anísabel, um rasgo de criatividade dos meus pais que agradeço por não ter sido levado avante. Joana também foi opção, mas a semelhança com o nome do meu irmão eram demasiado evidente e não queriam que carregasse esse peso.

Mas no meio de tantas dúvidas, o meu nome foi escolhido da forma mais engraçada que poderia haver. Após terminar a escritura de uma sociedade, a minha mãe e a sua sócia caminhavam lado a lado e esta pergunta-lhe:

Já têm nome para a bebé?

Não… disse a minha mãe, revelando que a escolha não estava a ser fácil.

Gostava muito de ser a madrinha.

A minha mãe sorriu e disse:

Mas eu não vou batizar a menina. O pai quer muito que esta possa escolher a sua orientação religiosa quando for mais crescida.

Não faz mal, serei uma madrinha de Registo – respondeu a sócia, continuando – Maria Ana é um nome lindo, não acha?

Com 20 anos pergunto-me: imaginar-me-ia com outro nome? De todo! Adoro-o e acho que nenhum seria tão perfeito para mim. Dá-me o privilégio de me adaptar às circunstâncias. Como costumo dizer, tenho quatro nomes: Maria para a maioria das pessoas que me conhecem; Ana para quando a minha mãe me chama à atenção; Maria Ana para situações mais formais e nome sonante numa vida profissional e por último mas não menos importante Anita, diminutivo criado pelo meu pai quando ainda era muito pequena, pelas semelhanças com a menina das histórias.
O nome é aquilo que nos distingue e nos caracteriza. Maria Ana não é um nome muito comum e isso faz-me gostar dele. Sempre o associei às princesas e rainhas, lembrando-me da Maria Ana da Áustria, casada com D. João V, Rei de Portugal. A minha mãe reforça a ideia que o nome me encaixa na perfeição porque sou um «narizinho empinado» que nasceu para dar ordens e não para obedecer!
Muita gente me pergunta: porque não Mariana ou Ana Maria? Não era mais fácil de lembrar ou pronunciar? Possivelmente até seria. Mas a graça das coisas da vida está na irreverência, na ausência de comparação e na singularidade e é sempre tão bom quando achamos que nosso nome tem graça.
 

 

domingo, 20 de abril de 2014

Uma menina chamada Alda

Extracto de um dos textos de Alda Rosa, que se junta às outras narrativas que compõem o 2º livro das nossas Oficinas de Escrita. Delicioso! MG



[...]
 
Sete anos. Vamos fazer uma luta de índios e cowboys. Dividimo-nos em dois grupos. Cada um de nós tem vários bonecos de plástico que escondemos nos canteiros e vasos dos quintais das redondezas, para grande fúria das porteiras, pois deixamos sempre algumas flores destruídas. Ganha o grupo que encontrar mais bonecos do inimigo. É sempre muito divertido.

Oito anos. Encontrámos um novo divertimento. Subir um candeeiro de electricidade junto a um muro que tem cerca de três metros de altura, depois fazemos uma corrida ao longo do muro, que tem um rebordo com alguns centímetros e depois descemos pelo candeeiro que se encontra na outra ponta. É uma brincadeira um pouco arriscada, mas nós divertimo-nos imenso. Eu sou a única menina, mas fico sempre entre os primeiros.
[...]
 
Alda Rosa, Lisboa, Março, 2014

terça-feira, 15 de abril de 2014

Lembras-te, Pai?

Da coletânea de textos de Alda Rosa, ficção e autobiografia, que vão figurar no próximo livro das nossas oficinas, destacamos este testemunho pungente. Uma muito bela e muito tocante homenagem ao seu pai. MG
 

Lembras-te paizinho, do triciclo que me compraste quando eu tinha dois anos e que eu parti naquela aventura de querer andar de marcha atrás? Tu, habilmente, reconstruíste a minha máquina e eu pude continuar a brincar com ela. E recordas-te de quando íamos de férias para a aldeia e corrias comigo pelo campo, ensinando-me a conhecer, pelo nome, todas as árvores e arbustos? Transmitias-me tanta confiança, que aprendi contigo a não ter medo de alguns animais, como cobras, ratos e lagartos... Depois, quando dei as primeiras braçadas na água gélida das piscinas naturais do Agroal, tão pequenina que perdia facilmente o pé, não sentia receio, porque estavas sempre ao meu lado.
 
À noite, chegavas a casa com o Diário de Notícias e eu pegava nele, acocorava-me a um canto da cozinha, e colocava-o no chão para o ler de trás para diante. Este é um hábito que mantenho até aos dias de hoje, com jornais e revistas.
 
Como eu gostava do escritório onde trabalhavas, na rua da Glória! Desde os dez anos, sempre que não tinha aulas, levavas-me para lá, contigo. Recordo aquela casa enorme, com uma sala que era o centro da minha fantasia. Nesse espaço, colocavas as colecções de roupa feminina que recebias da fábrica do Porto e separavas as peças que posteriormente eram distribuídas pelas boutiques de Lisboa. Em cada mudança de estação, lá estava eu a experimentar vestidos, saias, blusas. Tu até deixavas que eu usasse alfinetes para os ajustar ao meu corpo. Depois, fazia um desfile. Eras o único espectador, e eu a única modelo, mas divertíamo-nos muito. Um dia, ensinaste-me a dactilografar, e eu sentia-me tão orgulhosa por escrever as minhas redacções naquela máquina preta, que produzia música de cada vez que se teclava numa letra.
 
Continuas tão presente na minha vida… Recordas-te das nossas idas à Ervanária Rosil, na rua da Madalena, plena de uma enorme variedade de perfumes que vinham de todas as ervas medicinais lá existentes, que serviam para as mais variadas mezinhas? Eras um grande apologista da utilização de infusões ou pomadas para tratar algumas das nossas maleitas. Só me faziam impressão as sanguessugas, (que também tínhamos em casa), porque receava que um pedaço do meu corpo fosse sugado para dentro daqueles frascos.
 
Sabes?, as nossas conversas ainda hoje me alimentam. Apesar de só teres concluído o curso comercial, sempre foste um homem ávido pelo conhecimento. Quanto tempo passámos a falar de livros! Foi contigo que conheci autores como Miguel Torga, Soeiro Pereira Gomes, Eça de Queiroz, Júlio Verne, Vítor Hugo e tantos outros. Então, foi aquela noite de 29 de Novembro de 1978, em que eu estava muito feliz, pois tinha acabado de saber que tinha vaga no curso de Medicina. Mostraste-te satisfeito, mas também preocupado, referindo que não sabias se ias ter força para me ajudar a alcançar este meu desejo. Fiquei desapontada e incrédula. Porque não havias de ter força? Tu eras o meu super-homem, nada de mal te poderia acontecer! Como poderias estar a adivinhar a catástrofe que caiu sobre nós, três dias depois?
 
Lembras-te, Pai?

 
Alda Rosa, Lisboa, 30 de Março de 2014

 
 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

E isso é que é sedutor

Na última aula, pedi: «apresentem-se de uma forma sedutora», no arranque da escrita de uma pequena história de vida para «a minha vida dá um livro». A M. Eugénia manifestou a sua perplexidade e fundamentou-a. Estava cheia, coberta de razão.


Charles Dickens, Oliver Twist (1837)

Mas em escrita, quando falo de 'sedução' invoco outros patamares. Não são os nossos pseudo-triunfos, as nossas medalhas de bom comportamento social, ou forma mais ou menos adequada como nos inserimos, desde muito pequenos, no espaço emocional e afectivo que nos coube em destino: nada disso, se for só isso,suscitará empatias, mas sim as nossas perplexidades, falhas, medos, anseios e sonhos, e quedas. Tudo, o que nos torna realmente humanos e que é tudo o que todos temos em comum.

Isso é que é sedutor.

Não se trata de fazer o apelo à «desgraça», hoje em dia tão banalizada ao serviço da comunicação de entretenimento fácil. É o modo com enfrentamos o caminho, as pedras em que tropeçamos e os montes que subimos, e o que vamos fazendo até conseguir ir ver o Mar. É o caminho e a forma como caminhamos, corremos, caímos, levantando-nos uma vez e outra, voando por vezes, que importa. E o caminho é sempre irregular e assombroso, no segredo das nossas vivências. Conseguirmos partilhá-lo, em primeiro lugar, é arranjarmos muita iluminação extra para nós próprios. Inevitavelmente, a luz espalha-se.

E isso é que é sedutor. 

 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Biografia e ficção - novas oficinas de escrita

As oficinas de escrita vão recomeçar com duas propostas independentes: autobiografia e ficção. A partir de 8 de Fevereiro (Sábados) e 13 de Fevereiro (Quintas). Horários detalhados abaixo.

 
A minha vida dá um livro

"Começar pelo registo biográfico é uma forma segura de iniciar o hábito da escrita. Trata-se de um exercício à boa maneira do diário de bordo, ou do diário da adolescência, com a exigência, a paixão, o labor minucioso da oficina. No fim, leva-se um livro impresso para casa. E vontade de continuar a escrever." MG.
 

Conceito
Palavra e memória na reconstrução da identidade

Partindo da história pessoal para o registo literário, uma reflexão sobre a própria identidade, desenvolvida ao longo de quatro módulos:
I – Quem sou eu? Ou «Bilhete de Identidade».
II – Que pessoas ao meu redor me marcaram? Ou «memórias de infância».
III – Momento fundador da narrativa. Ou «Era uma vez eu».
            IV – O desenrolar da história. Ou «A minha vida dá um livro».
 

 
Onde: Rua de O Século 13, 1200-433 Lisboa, Portugal ‎   +351 21 096 4826 · aletheia.pt
Como: Quatro módulos, de duas aulas cada.
Quando: Aulas semanais, todos os sábados, de 8 de Fevereiro a 29 de Março, das 15.30 às 17 horas.
Mais informações: manuelagonzaga@gmail.com  

 
e ainda:

Vamos escrever ficção
Escrever consolida o nosso livre pensamento, estrutura as nossas ideias, acrescenta-nos em todos os sentidos e faz-nos viver muitas vidas. Vamos escrever ficção. Aulas semanais, às quintas-feiras, de 13 de Fevereiro a 20 de Março, das 18.30 às 20 horas. MG


UNIVERSOS PARALELOS


Viagem ao outro lado do espelho

Estrutura e conceito do curso
O espelho é um portal. Fica onde quisermos coloca-lo. Aguardando que cruzemos os seus umbrais para o outro lado. Ali, onde a aventura começa.
I – Eu sou eu? Ou «Deste lado do espelho».
II – Para onde vou? Ou «Cruzando os portais do tempo e do espaço».
III – Momento fundador da narrativa. Ou «Universos paralelos».

Onde: Rua de O Século 13, 1200-433 Lisboa, Portugal ‎   +351 21 096 4826 · aletheia.pt
Como: Quatro módulos, de duas aulas cada.
Quando: Aulas semanais, todas as Quintas-feiras, de 13 de Fevereiro a 20 de Março, das 15.30 às 17 horas.
Mais informações: manuelagonzaga@gmail.com  

 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A vida dele e delas já é um livro!!

Uma maravilhosa celebração. Com duas ausências de peso: o nosso querido José Saraiva, que está noutro continente na vizinhança dos trópicos, e a nossa querida Sónia Alves que está noutro país nas proximidades do Pólo Norte.
Foram recordados com todo o carinho. E estiveram assim connosco à distância, porque como dizia alguém 'não é preciso estar-se junto para ser-se perto'.
Quem terá sido?
Aqui ficam imagens da festa!! E da sala cheia!!!  
 















para ver o álbum completo no facebook : Oficinas de Escrita/A minha vida dá um livro

sábado, 14 de dezembro de 2013

«Querida Mãe»

A belíssima carta de A.R. a culminar  a nossa intensa oficina de escrita : Elegias do Amor e do Ódio.

De A.R., s/título, técnica mista..

Querida mãe:

Há cerca de três anos que não nos encontramos. Temos, pontualmente, uns breves contactos telefónicos em que nos limitamos a falar de banalidades. Mas nestes últimos tempos tenho reflectido bastante sobre a nossa relação ao longo da vida e decidi escrever-te esta carta.

Para surpresa minha, é a primeira vez que te chamo querida. Pode parecer-te um fingimento meu, mas já vais perceber que não o é, de forma alguma. Como muito bem sabes, o nosso relacionamento sempre foi conturbado. Tu não desejavas ter filhos e eu vim roubar-te a liberdade a que tanto aspiravas. Sofremos as duas, ao longo dos anos: tu, revoltada com a vida que te tinha proporcionado o “ empecilho” (como te referias a mim de forma recorrente). E eu, na minha solidão e perplexidade, fechada em casa a crescer sozinha.

Mas é aqui que está o ponto principal da minha reflexão. Esta vivência permitiu-me explorar o mundo à minha volta, de início dentro de casa e, posteriormente no exterior, quando aprendi a saltar a janela (sei que estou a revelar-te algo que nunca imaginaste!).

Assim, toda a fantasia que esta vida me proporcionou, e que eu desenvolvi no meu solitário processo de crescer, tornou-me uma pessoa destemida, com alguma capacidade para enfrentar as adversidades e, em simultâneo, a poder percepcionar o mundo à minha volta! Gosto de pensar que, se a minha vida tivesse sido mais facilitada, talvez tivesse crescido devidamente “normalizada”, muito passivamente inserida nesta sociedade tão adversa à diferença e à imaginação. Assim, sinto que sobrevivi guardando inteira a minha singularidade!

Por tudo isto, quero agradecer-te tudo o que, directa ou indirectamente, me proporcionaste.

Um beijo, profundamente sentido.

 A.R.

sábado, 7 de dezembro de 2013

A vida deles já deu um livro

Um punhado de novos autores revelou-se ao longo das nossas últimas oficinas de escrita. Muito empenho, alegria e generosidade, algum sobressalto, um pouco de receio mas.. o trabalho sério e apaixonado de todos deu frutos. O livro A minha vida dá um livro. A capa e a introdução desta obra antológica são testemunho. O lançamento da obra, na presença de amigos e familiares vai ser anunciado nos próximos dias e irá decorrer nas instalações da livraria Alêtheia, à rua do Século. Muito a propósito, uma antiga padaria pois... nem só de pão vive o homem.

 
 
 
 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Querida avó

A bela carta que Alice Maravilhas nos deixa como fecho de abóbada das suas Elegias do amor e do ódio. Tocante. MG
 
 
Querida avó
 
Escrevo esta carta como forma de me chegar a ti, estar perto e de mão dada a lembrar-me quanto foste importante.
Tenho percorrido momentos felizes que me estruturam no dia a dia porque sei que estás a ajudar-me a transmutar as raivas, e de nó na garganta solto-me, e volto a sentir os momentos passados, das minhas vestes de amor e ódio.
Querida avó hoje senti-me longe, alguém me deu a tristeza no coração e ele chorou. Deixei-me levar pela insegurança dos meus sentimentos, esbanjei o amor no medo e rezingona instaurei as palavras do ódio. Culpei-me e culpei as instruções da cabeça
Viro e reviro as pregas do espaço e do tempo e situo-me nos vários pontos cardeais, no amor e no ódio em que me consumo.
Avó apetece-me encostar a minha cabeça no teu peito e soletrar o que sinto, limpar-me ao som de música e vontades e acolho a tua mão na minha face sedenta.
Aperto-me num nó que demora a soltar-se, minha querida avó, corro para o véu que esconde a fragilidade do coração.
Levanto-me e é no amor que me encontro. Avó, explica-me como me encontro e como me posso entregar sem medo, sem o receio de ser, de me expor e despojar dos desencontros da alma, aqueles que me levam a sentir bem, livre do medo da rejeição. Entorno-me em desalinhos de pele desidratada pelo cansaço de ser, pela vida que esculpe o amor e quando dói, porque dói, então agarro a tua mão e o mundo fica cheio e volto a sentir que sou.
 
Avó ainda me sinto perdida no amor, na lentidão de calçar os sapatos sem medo de caminhar.
 
Alice Maravilhas, Lisboa, Novembro de 2013 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Histórias de uma menina que nasceu de pé

Mais um texto de AR, cheio de fogo e, paradoxalmente, de alegria. É sempre reconfortante confirmarmos como a infância é tão mágica e poderosa que sobrevive às bruxas, aos ogres, e a tantos monstros que se ocultam nos quartos escuros da memória. A ilustração, colagem sobre papel, é da autora. MG
 
Nunca conseguimos falar sobre o meu nascimento e o início da minha infância. Soube apenas que o nascimento de um filho já não era esperado, nem desejado. Soube também que a gravidez foi problemática e que, para agravar a situação, eu decidi vir ao mundo aos oito meses de gestação, situação que, para a época, era tida como de grande risco. Para além desta “precocidade”, nasci de pé e com uma incompatibilidade sanguínea, que implicou risco de vida, vários dias de internamento hospitalar, uma transfusão de sangue e a decisão da mãe de ter alta contra parecer médico.

Todos estes acontecimentos foram-me sempre relatados como algo de catastrófico, que impediram a minha mãe de ter uma vida livre. Para mim, porém, tamanha amargura era ininteligível.

Constantemente ouvia frases que me magoavam demais. A pior de todas era a de que eu tinha «sangue do Diabo», porque me fazia sentir como um ser impuro, desprezível, diferente das outras crianças. Pior, com esta frase, caía sobre mim a culpa de ter causado tanto sofrimento à minha própria mãe. Na verdade, ao longo da minha infância a nossa relação não melhorou. No plano material as necessidades foram supridas, mas afectivamente ia-se criando um fosso, no qual eu tentava a todo o custo sobreviver. Houve sempre uma incompatibilidade entre nós, muito mais profunda do que a do sangue.

O meu pai trabalhava demasiadamente, mas quando estava presente era tão apaziguador, tão bom ouvinte, que a sua presença iluminava e aquecia todos os momentos que passávamos juntos. Foi com ele que partilhei as questões relativas ao crescimento, à sexualidade, à vida. E mesmo na hora de morrer, as suas últimas palavras foram para me dar força, e para me pedir que cuidasse de mim!

E o que fazia uma criança de cinco anos sozinha em casa durante várias horas por dia? Descobria o seu Mundo, que supostamente estava limitado àquele apartamento, mas que tinha inúmeros lugares para explorar! Não eram os brinquedos que me entusiasmavam, mas sim os objectos dos adultos, com os quais eu construía as minhas histórias de encantar!

E, quando mais tarde pude descobrir o acesso à rua, através da janela que aprendi a abrir, foi o êxtase. Por fim, estava ao meu alcance o vasto e excitante território por explorar nas traseiras dos prédios, com novos amigos e novas brincadeiras, por vezes arriscadas, que me transportavam para um mundo paralelo, onde eu era feliz!


Colagem sobre papel, ilustração da autora

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Todos os sapatos servem

O texto, de uma grande intensidade poética, onde Alice Maravilhas traduz, palavra a palavra, imagens, sons, cheiros, emoções vindas do fundo da memória. MG.





 
I
Porque ando descalça a sentir o toque
Em toque toques, devagar para sentir o mundo
Pé ante pé, sem o mundo parar, giro em torno do dia-a-dia com canseiras. Descalça.
Todos os sapatos servem para conhecer o desconhecido que espreita nas minhas aventuras, no querer estar com o sentir
Os sapatos são os dias, uns são leves, ou com cor, ou apertam, ou escorregam. São os sapatos
Às vezes calço-me sem saber o que não interessa porque é preciso lá estar e vai-se caminhando com o desleixo do dia.
Às vezes calço-me e sei que o sol está, a luz brilha nos meus sapatos e sou vaidosa.
Também dançam em bicos de pé solto, e sinto-me voar.
Os meus sapatos também voam
 
II
Marcaste sim, desenhaste-me a vida com cheiros e histórias, rasgaste os dias em tons suaves, minha irmã.
Tiraste-me do desassossego dos dias que escureciam e deste-me formas da alegria.
Nos dias de solidão, frios dos maus tratos, tu com conversas desmontavas e resolvias.
Ouvindo as tuas histórias sem nexo construía uma realidade, a minha realidade, com a vida onde o desejo se soltava, onde o mundo era doce, onde todos sorriam e brincavam com liberdade
Depois lá vinham as zangas e os gritos. Ou se a raiva se instalava sem sentido, era mais físico. Então, tu chegavas, e nas tuas histórias e nos segredos se apaziguavam as raivas.
Hoje tudo ficou para trás e sem querer as recordações voltam, com outras formas, outras histórias de já sou mulher, com outras vidas.
 
III
Lembro-me dela na infância, talvez pelos meus quatro anos, na Beira Baixa, terras secas de frio e calor. Assim conheci a minha avó, não doce ou talvez escondesse essa doçura no olhar, mas uma verdadeira mulher que me acolhia com amor
Uma avó gorducha, de faces rosadas, andar lento de dignidade e força, braços abertos para o mundo onde todos se recolhiam. Assim construiu uma casa de emoções, na freguesia do concelho de Idanha-a-Nova numa aldeia de construção de granito e sombria. Uma casa com divisões escondidas por cortinas pesadas que abrigavam na sua textura o inverno e onde facilmente se perdia a solidão aquecida pelas braseiras espalhadas pelos quartos e salas. Uma casa com vida própria, onde as tarefas com prazer apaziguavam a solidão da distância dos meus pais e irmãos.
Imagens soltas: na Páscoa, as visitas do padre de casa em casa levando o cruxifixo que todos a beijavam; e os rebuçados atirados ao ar para que cada um apanhasse e depressa para mais ter.
Da escola primária onde a minha avó ensinava. Todos sentados no quintal da casa a aprender a ler, mesmo com os livros de pernas para o ar, desenhávamos as letras visualmente.
Da matança do porco. Eu, proibida de assistir ao ritual, ouvia os grunhidos e de longe sentia a agonia do animal.
Da Bica de Azeite, um pão achatado típico da Beira Baixa à base de azeite sem fermento. Os biscoitos em S também à base de azeite, elemento fundamental da agricultura da zona
Cresci … sentindo sempre a presença da minha avó em minha defesa, a acolher-me de forma diferente dos meus irmãos
Quando visito a aldeia, passo pela casa que outrora era enorme e num sentimento de rever todas as imagens ligadas à minha avó, vejo uma casa pequena que outrora fora enorme pelo amor .
Hoje percebo esta ligação de amor, avó e neta, numa memória importantíssima que me ajuda em momento menos fáceis. O meu nome, Alice, o mesmo da minha bisavó que faleceu cedo, ainda a minha avó era adolescente.
Recordo com prazer os dias da minha infância passados com a minha avó, quando, e de mão dada cantarolávamos as duas “A Mimi é da vovó e a vovó é da Mimi”, e num sorriso trocávamos beijinhos ainda hoje sinto marcados na minha pele
 
Hoje calço outros sapatos e lembro-me que existem pessoas no nosso lado melhor da vida.
 
 
 
Alice Maravilhas, Lisboa, Outubro, Novembro de 2013

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Menina pisando a linha

O belo texto de AR, que foi escrito ao longo destas Elegias do Amor e do Ódio. Um mergulho de alma e coração no coração de uma menina. Comovente e delicioso. MG


Menina pisando a linha, pintura de autor do texto


Quando nos conhecemos, tinhas trinta e cinco anos. Eras uma mulher bonita, de estatura média, magra, de cabelos pretos, olhos castanhos e uns lábios finos e bem desenhados. Vestias de forma impecável, embora com alguma rigidez, sempre de fato, saia e casaco, de tons escuros e blusas ou camisolas claras. E, quando ias à rua, o cabelo apresentava-se imaculadamente penteado, sem um único fio desalinhado!

Eras uma mulher austera, rígida, criando uma distância abissal entre ti e os outros, fossem os outros os vizinhos, ou a própria família. Não te conheci amigos.

Quando eu era muito pequena, não sabia onde trabalhavas. Só sabia que saías de casa, logo após o pai, regressando à hora do almoço. Por vezes, voltavas a sair à tarde. E eu ficava sozinha. Anos depois, sei que trabalhaste algumas horas com o pai. Eras, ou tornaste-te a pessoa solitária que recordo, que apreciava vangloriar-se de fazer tudo na perfeição, mas a quem, dificilmente, alguém via sorrir?! Raramente concordavas com as opiniões dos outros. E a minha então, não contava de todo. De cada vez que emitia uma opinião, dizias:

– Vais ter de comer muitas colheres de sal para pensares como um adulto.

E claro que eu cumpria na perfeição o conselho, pois, quando estava sozinha, e deixaste-me sozinha desde muito, muito pequena, uma das minhas ocupações era comer sal às colheres, para me poder tornar adulta mais depressa!

O pai, sete anos mais velho do que tu, era um homem alto, de cabelo grisalho, olhos castanho-esverdeados, afável e sempre disponível para ajudar. No entanto, trabalhava excessivamente, era empregado de escritório  numa grande firma de têxteis, pelo que, saía pelas 8h e só chegava à hora de jantar, que era impreterivelmente às 20h.

Vivíamos numa cave num bairro de Lisboa. Era uma casa pequena, com pouca luz. O meu quarto e a sala não tinham janelas. A cozinha era grande, sendo uma das minhas divisões preferidas, quer pela quantidade de utensílios que eu podia explorar, quer pela janela, que se tornou na minha porta para o Mundo exterior, quando aprendi a abri-la!

Havia um quintal em que os muros que o delimitavam continham floreiras, que serviam de esconderijos para os índios e os cowboys, nas brincadeiras com os meus amigos. E un pátio enorme, onde corria, andava de bicicleta ou de carrinho de rolamentos. Também fazia corridas de caricas na berma do passeio, subia e descia candeeiros de iluminação pública, alheia a qualquer perigo que pudesse correr, tornando-me destemida.

Mas esta diversão tinha de ser controlada, pois tinha de terminar antes de regressares a casa. Então, voltava a entrar pela janela, fechava-a e afivelava a minha máscara de menina bem comportada! A menina que, numa docilidade aparente, suportava o tempo infindável que passavas a fazer-me canudos, obrigando-me a ficar sentada num banco, na cozinha!
 
Desde muito cedo que me obrigaste a arrumar o meu quarto, mas o que poderia parecer um castigo, para mim constituiu uma vitória, pois pude dominar naquele pequenino espaço, onde só cabia a cama, uma mesa-de-cabeceira e uma estante. Tudo se passava debaixo da cama; era um óptimo esconderijo para tudo o que era proibido. Os brinquedos estragados, os bichos de seda, o hamster que esteve lá uma semana, emprestado por uma colega e, mais tarde, as caixas de ovos que coleccionei e que depois forrei com papel celofane e colei no tecto do meu quarto, deixando-te furiosa.
 
Era assim.

domingo, 3 de novembro de 2013

Que carta tão difícil de escrever

«Girl reading a Letter at an Open Window» (1657)
do pintor holandês Johannes Vermeer
Que carta tão difícil de escrever. Ou, que carta tão importante para mandar? Palavras de amor? Ou de ódio? Mistura de ambos os sentimentos, conflito de emoções, caleidoscópio de memórias e perplexidades, luzes, sombras, risos e lágrimas?

Foi tudo há tanto tempo, e parece que acabou de acontecer.

Tenho de dizer isto. Tenho de escrever isto. Se não esqueço-me. Ou então, nunca mais me esqueço. Tenho de largar este peso, soltar esta amarra, libertar o meu barco parado no cais do tempo.

Há uma criança à espera de mim. Essa criança sou eu.

Elegias do amor e do ódio em plena floração...



 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O fantasma de Laika

Há uns tempos um artista plástico resolveu usar o meu rosto numa das suas composições. Fê-lo em segredo e depois enviou-me a fotografia do quadro
- Reconheces? – perguntou.
Fiquei perplexa, não tanto por ver o meu rosto naquela obra sua, mas pelo significado que ela me transmitia. «Como pode ele saber?» pensei. No meio daquela composição e talvez imperceptível a muita gente, eu não conseguia tirar os olhos de um olho que me fitava. Ei-lo! Só me aparecia em sonhos, ou melhor, em pesadelos, mas agora estava ali, acusatório e perdido. Aquele olhar que me perseguia desde sempre e fazia tão parte do meu ser que já não imaginava a minha vida sem ele.

Não sei bem como veio ali parar, possivelmente alguém a abandonou, ou então, perdeu-se de casa. Rondava a rua para baixo e para cima, e dormia à entrada das portas dos prédios. Era preta e branca, ou branca e preta, pois tinha umas manchas pretas que lhe adornavam o corpo. Tinha também os olhos mais meigos que alguma vez me tinham olhado. Um dia fiz-lhe uma festa, e aquele ser aninhou se aos meus pés de criança. Já não devia ser muito nova mas também duvido que fosse muito velha, devia portanto estar na meia-idade dos cães. Segundo a minha avó, notava-se que tinha sido mãe, o peito saliente e descaído era sinal disso mesmo, e, pobrezinha, estava sozinha.
– Oh pudemos ficar com ela? Perguntei eu ansiosa.-
– Não! – responderam me. – Está fora de questão, vamos mudar de casa e os novos senhorios não querem animais.
Não ficaram com ela, mas baptizaram-na de Laika.
– Laika! – chamava o meu pai quando a noite saia.

Alimentava-a e depois ela seguia-o até ao café. Ficava cá fora, à espera, enquanto ele lia o jornal e depois seguia-o até casa. Ele subia a escada e ela ficava em baixo aninhada, a dormir. Ele achava-lhe piada creio. Dizia:
– Parece uma pessoa, de tão esperta!
Mas nada fez para lhe procurar dono, ou pelo menos foi essa a ideia com que fiquei.
Estávamos de mudança. Eu, da varanda de um segundo andar, observava os homens que faziam todo aquele ritual de ir e vir carregando caixas e móveis. Carregavam as nossas coisas para a carrinha que me parecia enorme e estava estacionada à porta de casa. Não me apetecia nada mudar de casa e de cidade, mas lá teria de ser. Laika também observava.
Já era noite quando entramos todos no carro. E o animal também queria vir.
– Oh não! Ela vai correr atrás do carro – disse o meu pai.
Então, Laika entrou e aninhou-se aos meus pés, no banco de trás.
– Por que a deixas-te entrar se não a vamos levar? – perguntou a mãe.

Eu devia de ter uns cinco anos, pois sei que foi com essa idade que mudamos daquela casa, e o meu coração batia muito forte de nervosismo e antecipação, como se houvesse uma luz de esperança que Laika ficasse connosco. Não me lembro o que o meu pai respondeu, só me recordo que uns metros a frente o carro parou e ele convidou-a a sair.
– Porquê, papá? Onde é que ela vai?
– Está ali um amigo meu que vai ficar com ela. Nós não pudemos, ela é muito querida e tal e eu também queria muito... mas a vida... ahh a vida nem sempre é como queremos, tu não entendes ainda, mas um dia vais entender.
Laika saiu então do carro e eu olhei em redor aflita.
– Mas eu não estou a ver ninguém a chamá-la, as pessoas passam e ninguém a chama! Papá! Oh não! Laika! Laika! – e desatei a chorar!
O carro começou a andar e Laika ficou para traz.
– Sónia, não chores, assim como eu gostei dela alguém mais irá gostar, esta cadela parece uma pessoa de tão esperta... mas nós... nós não podemos ficar com ela.
Laika ficou para trás, os seus olhos meigos e perdidos olhando o carro. Eu olhava-a a chorar enquanto o carro se afastava. Sentia-me mal, muito mal. Como podia eu admitir uma coisa daquelas?

 


– Chama se Laika em memória da primeira cadela que foi à Lua! – explicou-me.
– Foi à Lua papá? Sozinha? Deixaram a cadelinha sozinha ir à lua?
– Deixaram claro, em nome da ciência! Era a primeira vez, não podiam ainda enviar um homem ou uma mulher, pois não havia garantias que regressassem a Terra!
– E a Laika voltou? – perguntei ansiosa.
Fez-se um silêncio, como se ele estivesse talvez a ponderar se havia ou não de poupar a criança àquela verdade.
– Não! – respondeu o meu pai. – A Laika ficou em órbitra no espaço, nunca mais voltou!
Tal e qual a da minha infância. Que nome tão maldito fora escolhido para o animal. Eu ansiava que alguém mais tarde lhe tivesse dado outro nome que não Laika, algum com melhor presságio. Ainda hoje, quando conheço um animal com esse nome sinto um misto de arrepio e ternura, mas na verdade esta recordação perdeu-se e só há uns quatro anos irrompeu pelas brumas, qual D Sebastião numa eternidade de nevoeiro que um dia reaparece, trazendo as Laikas da minha infância à deriva no espaço da minha memória

Sónia Alves, Estocolmo, Setembro/Outubro 2013