quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Bom dia Vida… Bom dia Amor

É um texto de Fátima Gabriel, fruto da Oficina de Escrita que realizámos no Porto. É um conto muito denso, muito forte, que resulta numa viagem interior de alguém que, na sua perplexidade e solidão, procura e encontra a resposta que tanto buscava. Orientei esta Oficina sob o lema  da minha campanha: «Liberdade Incondicional. Manuela Gonzaga.


Estou presa, confinada a quatro paredes, Este espaço deixa-me em pânico. Sou claustrofóbica. Parece que acordei de um sonho. Sinto-me abafar. Sinto que vou morrer, e não quero. Amo a vida e vou lutar por ela. Porque estou aqui?! Há quanto tempo e quanto mais estarei? Nem me sinto só, tal é o turbilhão de sentimentos e pensamentos. Penso: «E agora?» Olho pela janela pequena, acima da cama estreita e vejo o sol. Paro, admirando esta liberdade que ele tem e me transmite. Percebendi que a vida está fora, à minha espera. Vou reencontrá-la.

No pequeno espaço da cela há um espelho. Desvio o olhar, porque não quero confundir o que sou fora, com o que sou no meu interior. Percebo que tenho dois livros à mão, mas não me apetece ler. Deixo-os para depois, para momentos de solidão. Vou buscar papel e uma caneta e escrevo as frases que me vêm à cabeça. A minha roupa é malcheirosa e fria, quase húmida. Não gosto do cheiro do espaço, e cheiro o meu corpo que ainda tem o aroma da liberdade.

De repente, entram na cela duas pessoas que desconheço. Apresentam-se como guardas prisionais. Não gosto do seu aspecto. Mantenho-me em silêncio e respondo apenas ao essencial. Um deles parece-me transparente, o outro rude e falso. Entretanto, juntam-se-nos mais duas pessoas. São os novos companheiros de cela. Mal-humorados, vociferam e rogam pragas. Eu, sempre em silêncio, aguardo que a minha mente me abençoe com augúrios de luz e serenidade para saber como continuar sem me machucar mais. A alma sofre. O corpo sente esse sofrimento.

Depois, um dos guardas fez uma série de ameaças. Percebi que se destinavam a quem acabara de entrar. Senti que estava a proteger-me dos novos companheiros de cela. Um deles abeirou-se e fez-me perguntas. Não me apeteceu responder. Apenas lhe disse que me deixasse em paz. O outro pressionou-o para que não se metesse na vida de cada um. Se estávamos ali, por algum motivo seria, e certamente nenhum era bom.

Mas, e por mais que me esforçasse, não entendia o porquê de estar ali. Enfim, um dia saberia as razões. Um dia havia de sair. O importante era manter a lucidez como aliada da minha sobrevivência. Tranquilizei-me.

De novo o espelho. Agora já pude ver-me e observar a minha postura, rectilínea e firme. Respirei melhor. Precisava encontrar quem me pudesse dizer porque me encontrava naquele lugar. Anoitecera. Deitei-me, e de cansaço, adormeci. Sonhei que tinha lutado e que, nessa luta, feri alguém. Portanto, era culpada. Afinal a minha prisão estava dentro de mim própria. Era prisioneira das emoções, que aprisionavam o meu livre arbítrio e acorrentavam o meu ego.

Ao acordar, agradeci ao companheiro de cela. Ele sorriu. O guarda prisional veio buscar-me. Conduziu-me junto de alguém que me aguardava numa sala. Sorriu também. Eu respondi-lhe do mesmo modo. Esperei. O visitante entrou. Abraçámo-nos. Era a minha consciência, iluminada pelo sol, que entrava pela janela da prisão que eu, naquele momento, abandonava. Afinal, tinha sido vítima de um engano. Fui liberta. Acordei a minha sensação de estar no interior do meu ser onde posso sempre voltar, acompanhada pelos amigos da minha vida: o coração e a razão.

Ninguém me condenou. Então, não vou condenar-me também. Bom dia Vida… Bom dia Amor, na companhia de todos os seres. Afinal não foi preciso ler os livros. Hoje, li na própria vida e voltei a apreciar o cheiro do meu corpo, que afinal é um templo onde a não matéria vem orar. O motivo da minha auto-prisão encontrava-se na minha mente.

Fátima Gabriel
14-11-2015 (Espaço PAN Porto)