segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A luz da liberdade

O primeiro texto que me foi entregue - na sequência de uma nova Oficina de Escrita, justamente intitulada Liberdade Incondicional (lema da minha candidatura às Presidenciais 2016), é assinado por Frederico Cotta. É um conto muito belo, que vos convido a ler com muita atenção. Merece
Manuela Gonzaga

Anã branca, reconstituição gráfica
crédito: Casey Reed/NASA

Acordo e não sei onde estou. Olho à minha volta e nada reconheço. Que faço aqui? 

Numa das paredes há um espelho. Levanto-me, e lentamente aproximo-me. Mas não me conheço a imagem  refletida. Afinal, quem sou? Há quanto tempo estou aqui?

Escrevo. Passo o tempo entre papel e caneta. E a espreitar o céu por um minúsculo quadrado gradeado que me permite ver o mundo lá fora e me faz sonhar com a liberdade dos pássaros, que passam diante de mim, a voar. O meu melhor amigo é a solidão, sendo ao mesmo tempo o meu maior inimigo. A solidão enche o meu espírito de liberdade, pois estando só, aqui, nada desejo, de nada preciso. Mas ao mesmo tempo, e reconheço a minha contradição!, a falta de contato com a natureza, os animais e outros humanos como eu, deixa-me vazio e desoladamente só. Tão só que temo por perder o que me resta, a minha sanidade, a minha humanidade.

A imaginação, porém, é a minha grande aliada. Leva-me aos confins do universo. Permite-me observar estrelas nascerem e morrerem. Contemplo a explosão de energia e matéria, os seus elementos a espalharem-se pelo tecido do espaço e do tempo. Pelo universo.

A mesma matéria de que são feitas as estrelas, é a que compõe o meu corpo. Os mesmos elementos que me permitem existir e pensar, estão presentes nestas quatro paredes que me confinam. São os tijolos do próprio universo. A matéria-prima de astros e galáxias. Sinto-me minúsculo, igual em composição a todos os seres com quem partilho esta existência. E se sou igual, não posso ser superior, a humanos ou não humanos. Porém, esta mesma imaginação é minha inimiga, reduzindo-me, aliciando-me, dando-me vontades e, pior ainda, anseios e desejos.

É neste momento que o meu espírito se deixa, novamente, prender! O desejo torna-se a minha prisão, aprisionando-me a esta realidade, com correntes tão pesadas que até conseguem amarrar o meu espírito.

Olho de novo ao espelho. Uma vez mais, não reconheço a imagem que vejo, mas agora, deixo que o papel e a caneta me definam e desenhem de modo a que me possa reconhecer. E, por fim, consigo ver refletido na superfície espelhada um brilho que reconheço.

Aquele brilho nos olhos, eu conheço. É a luz da liberdade.

Frederico Cotta
Porto, 14 Novembro, 2014