sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Todos os sapatos servem

O texto, de uma grande intensidade poética, onde Alice Maravilhas traduz, palavra a palavra, imagens, sons, cheiros, emoções vindas do fundo da memória. MG.





 
I
Porque ando descalça a sentir o toque
Em toque toques, devagar para sentir o mundo
Pé ante pé, sem o mundo parar, giro em torno do dia-a-dia com canseiras. Descalça.
Todos os sapatos servem para conhecer o desconhecido que espreita nas minhas aventuras, no querer estar com o sentir
Os sapatos são os dias, uns são leves, ou com cor, ou apertam, ou escorregam. São os sapatos
Às vezes calço-me sem saber o que não interessa porque é preciso lá estar e vai-se caminhando com o desleixo do dia.
Às vezes calço-me e sei que o sol está, a luz brilha nos meus sapatos e sou vaidosa.
Também dançam em bicos de pé solto, e sinto-me voar.
Os meus sapatos também voam
 
II
Marcaste sim, desenhaste-me a vida com cheiros e histórias, rasgaste os dias em tons suaves, minha irmã.
Tiraste-me do desassossego dos dias que escureciam e deste-me formas da alegria.
Nos dias de solidão, frios dos maus tratos, tu com conversas desmontavas e resolvias.
Ouvindo as tuas histórias sem nexo construía uma realidade, a minha realidade, com a vida onde o desejo se soltava, onde o mundo era doce, onde todos sorriam e brincavam com liberdade
Depois lá vinham as zangas e os gritos. Ou se a raiva se instalava sem sentido, era mais físico. Então, tu chegavas, e nas tuas histórias e nos segredos se apaziguavam as raivas.
Hoje tudo ficou para trás e sem querer as recordações voltam, com outras formas, outras histórias de já sou mulher, com outras vidas.
 
III
Lembro-me dela na infância, talvez pelos meus quatro anos, na Beira Baixa, terras secas de frio e calor. Assim conheci a minha avó, não doce ou talvez escondesse essa doçura no olhar, mas uma verdadeira mulher que me acolhia com amor
Uma avó gorducha, de faces rosadas, andar lento de dignidade e força, braços abertos para o mundo onde todos se recolhiam. Assim construiu uma casa de emoções, na freguesia do concelho de Idanha-a-Nova numa aldeia de construção de granito e sombria. Uma casa com divisões escondidas por cortinas pesadas que abrigavam na sua textura o inverno e onde facilmente se perdia a solidão aquecida pelas braseiras espalhadas pelos quartos e salas. Uma casa com vida própria, onde as tarefas com prazer apaziguavam a solidão da distância dos meus pais e irmãos.
Imagens soltas: na Páscoa, as visitas do padre de casa em casa levando o cruxifixo que todos a beijavam; e os rebuçados atirados ao ar para que cada um apanhasse e depressa para mais ter.
Da escola primária onde a minha avó ensinava. Todos sentados no quintal da casa a aprender a ler, mesmo com os livros de pernas para o ar, desenhávamos as letras visualmente.
Da matança do porco. Eu, proibida de assistir ao ritual, ouvia os grunhidos e de longe sentia a agonia do animal.
Da Bica de Azeite, um pão achatado típico da Beira Baixa à base de azeite sem fermento. Os biscoitos em S também à base de azeite, elemento fundamental da agricultura da zona
Cresci … sentindo sempre a presença da minha avó em minha defesa, a acolher-me de forma diferente dos meus irmãos
Quando visito a aldeia, passo pela casa que outrora era enorme e num sentimento de rever todas as imagens ligadas à minha avó, vejo uma casa pequena que outrora fora enorme pelo amor .
Hoje percebo esta ligação de amor, avó e neta, numa memória importantíssima que me ajuda em momento menos fáceis. O meu nome, Alice, o mesmo da minha bisavó que faleceu cedo, ainda a minha avó era adolescente.
Recordo com prazer os dias da minha infância passados com a minha avó, quando, e de mão dada cantarolávamos as duas “A Mimi é da vovó e a vovó é da Mimi”, e num sorriso trocávamos beijinhos ainda hoje sinto marcados na minha pele
 
Hoje calço outros sapatos e lembro-me que existem pessoas no nosso lado melhor da vida.
 
 
 
Alice Maravilhas, Lisboa, Outubro, Novembro de 2013