quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Menina pisando a linha

O belo texto de AR, que foi escrito ao longo destas Elegias do Amor e do Ódio. Um mergulho de alma e coração no coração de uma menina. Comovente e delicioso. MG


Menina pisando a linha, pintura de autor do texto


Quando nos conhecemos, tinhas trinta e cinco anos. Eras uma mulher bonita, de estatura média, magra, de cabelos pretos, olhos castanhos e uns lábios finos e bem desenhados. Vestias de forma impecável, embora com alguma rigidez, sempre de fato, saia e casaco, de tons escuros e blusas ou camisolas claras. E, quando ias à rua, o cabelo apresentava-se imaculadamente penteado, sem um único fio desalinhado!

Eras uma mulher austera, rígida, criando uma distância abissal entre ti e os outros, fossem os outros os vizinhos, ou a própria família. Não te conheci amigos.

Quando eu era muito pequena, não sabia onde trabalhavas. Só sabia que saías de casa, logo após o pai, regressando à hora do almoço. Por vezes, voltavas a sair à tarde. E eu ficava sozinha. Anos depois, sei que trabalhaste algumas horas com o pai. Eras, ou tornaste-te a pessoa solitária que recordo, que apreciava vangloriar-se de fazer tudo na perfeição, mas a quem, dificilmente, alguém via sorrir?! Raramente concordavas com as opiniões dos outros. E a minha então, não contava de todo. De cada vez que emitia uma opinião, dizias:

– Vais ter de comer muitas colheres de sal para pensares como um adulto.

E claro que eu cumpria na perfeição o conselho, pois, quando estava sozinha, e deixaste-me sozinha desde muito, muito pequena, uma das minhas ocupações era comer sal às colheres, para me poder tornar adulta mais depressa!

O pai, sete anos mais velho do que tu, era um homem alto, de cabelo grisalho, olhos castanho-esverdeados, afável e sempre disponível para ajudar. No entanto, trabalhava excessivamente, era empregado de escritório  numa grande firma de têxteis, pelo que, saía pelas 8h e só chegava à hora de jantar, que era impreterivelmente às 20h.

Vivíamos numa cave num bairro de Lisboa. Era uma casa pequena, com pouca luz. O meu quarto e a sala não tinham janelas. A cozinha era grande, sendo uma das minhas divisões preferidas, quer pela quantidade de utensílios que eu podia explorar, quer pela janela, que se tornou na minha porta para o Mundo exterior, quando aprendi a abri-la!

Havia um quintal em que os muros que o delimitavam continham floreiras, que serviam de esconderijos para os índios e os cowboys, nas brincadeiras com os meus amigos. E un pátio enorme, onde corria, andava de bicicleta ou de carrinho de rolamentos. Também fazia corridas de caricas na berma do passeio, subia e descia candeeiros de iluminação pública, alheia a qualquer perigo que pudesse correr, tornando-me destemida.

Mas esta diversão tinha de ser controlada, pois tinha de terminar antes de regressares a casa. Então, voltava a entrar pela janela, fechava-a e afivelava a minha máscara de menina bem comportada! A menina que, numa docilidade aparente, suportava o tempo infindável que passavas a fazer-me canudos, obrigando-me a ficar sentada num banco, na cozinha!
 
Desde muito cedo que me obrigaste a arrumar o meu quarto, mas o que poderia parecer um castigo, para mim constituiu uma vitória, pois pude dominar naquele pequenino espaço, onde só cabia a cama, uma mesa-de-cabeceira e uma estante. Tudo se passava debaixo da cama; era um óptimo esconderijo para tudo o que era proibido. Os brinquedos estragados, os bichos de seda, o hamster que esteve lá uma semana, emprestado por uma colega e, mais tarde, as caixas de ovos que coleccionei e que depois forrei com papel celofane e colei no tecto do meu quarto, deixando-te furiosa.
 
Era assim.