quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Histórias de uma menina que nasceu de pé

Mais um texto de AR, cheio de fogo e, paradoxalmente, de alegria. É sempre reconfortante confirmarmos como a infância é tão mágica e poderosa que sobrevive às bruxas, aos ogres, e a tantos monstros que se ocultam nos quartos escuros da memória. A ilustração, colagem sobre papel, é da autora. MG
 
Nunca conseguimos falar sobre o meu nascimento e o início da minha infância. Soube apenas que o nascimento de um filho já não era esperado, nem desejado. Soube também que a gravidez foi problemática e que, para agravar a situação, eu decidi vir ao mundo aos oito meses de gestação, situação que, para a época, era tida como de grande risco. Para além desta “precocidade”, nasci de pé e com uma incompatibilidade sanguínea, que implicou risco de vida, vários dias de internamento hospitalar, uma transfusão de sangue e a decisão da mãe de ter alta contra parecer médico.

Todos estes acontecimentos foram-me sempre relatados como algo de catastrófico, que impediram a minha mãe de ter uma vida livre. Para mim, porém, tamanha amargura era ininteligível.

Constantemente ouvia frases que me magoavam demais. A pior de todas era a de que eu tinha «sangue do Diabo», porque me fazia sentir como um ser impuro, desprezível, diferente das outras crianças. Pior, com esta frase, caía sobre mim a culpa de ter causado tanto sofrimento à minha própria mãe. Na verdade, ao longo da minha infância a nossa relação não melhorou. No plano material as necessidades foram supridas, mas afectivamente ia-se criando um fosso, no qual eu tentava a todo o custo sobreviver. Houve sempre uma incompatibilidade entre nós, muito mais profunda do que a do sangue.

O meu pai trabalhava demasiadamente, mas quando estava presente era tão apaziguador, tão bom ouvinte, que a sua presença iluminava e aquecia todos os momentos que passávamos juntos. Foi com ele que partilhei as questões relativas ao crescimento, à sexualidade, à vida. E mesmo na hora de morrer, as suas últimas palavras foram para me dar força, e para me pedir que cuidasse de mim!

E o que fazia uma criança de cinco anos sozinha em casa durante várias horas por dia? Descobria o seu Mundo, que supostamente estava limitado àquele apartamento, mas que tinha inúmeros lugares para explorar! Não eram os brinquedos que me entusiasmavam, mas sim os objectos dos adultos, com os quais eu construía as minhas histórias de encantar!

E, quando mais tarde pude descobrir o acesso à rua, através da janela que aprendi a abrir, foi o êxtase. Por fim, estava ao meu alcance o vasto e excitante território por explorar nas traseiras dos prédios, com novos amigos e novas brincadeiras, por vezes arriscadas, que me transportavam para um mundo paralelo, onde eu era feliz!


Colagem sobre papel, ilustração da autora