terça-feira, 15 de abril de 2014

Lembras-te, Pai?

Da coletânea de textos de Alda Rosa, ficção e autobiografia, que vão figurar no próximo livro das nossas oficinas, destacamos este testemunho pungente. Uma muito bela e muito tocante homenagem ao seu pai. MG
 

Lembras-te paizinho, do triciclo que me compraste quando eu tinha dois anos e que eu parti naquela aventura de querer andar de marcha atrás? Tu, habilmente, reconstruíste a minha máquina e eu pude continuar a brincar com ela. E recordas-te de quando íamos de férias para a aldeia e corrias comigo pelo campo, ensinando-me a conhecer, pelo nome, todas as árvores e arbustos? Transmitias-me tanta confiança, que aprendi contigo a não ter medo de alguns animais, como cobras, ratos e lagartos... Depois, quando dei as primeiras braçadas na água gélida das piscinas naturais do Agroal, tão pequenina que perdia facilmente o pé, não sentia receio, porque estavas sempre ao meu lado.
 
À noite, chegavas a casa com o Diário de Notícias e eu pegava nele, acocorava-me a um canto da cozinha, e colocava-o no chão para o ler de trás para diante. Este é um hábito que mantenho até aos dias de hoje, com jornais e revistas.
 
Como eu gostava do escritório onde trabalhavas, na rua da Glória! Desde os dez anos, sempre que não tinha aulas, levavas-me para lá, contigo. Recordo aquela casa enorme, com uma sala que era o centro da minha fantasia. Nesse espaço, colocavas as colecções de roupa feminina que recebias da fábrica do Porto e separavas as peças que posteriormente eram distribuídas pelas boutiques de Lisboa. Em cada mudança de estação, lá estava eu a experimentar vestidos, saias, blusas. Tu até deixavas que eu usasse alfinetes para os ajustar ao meu corpo. Depois, fazia um desfile. Eras o único espectador, e eu a única modelo, mas divertíamo-nos muito. Um dia, ensinaste-me a dactilografar, e eu sentia-me tão orgulhosa por escrever as minhas redacções naquela máquina preta, que produzia música de cada vez que se teclava numa letra.
 
Continuas tão presente na minha vida… Recordas-te das nossas idas à Ervanária Rosil, na rua da Madalena, plena de uma enorme variedade de perfumes que vinham de todas as ervas medicinais lá existentes, que serviam para as mais variadas mezinhas? Eras um grande apologista da utilização de infusões ou pomadas para tratar algumas das nossas maleitas. Só me faziam impressão as sanguessugas, (que também tínhamos em casa), porque receava que um pedaço do meu corpo fosse sugado para dentro daqueles frascos.
 
Sabes?, as nossas conversas ainda hoje me alimentam. Apesar de só teres concluído o curso comercial, sempre foste um homem ávido pelo conhecimento. Quanto tempo passámos a falar de livros! Foi contigo que conheci autores como Miguel Torga, Soeiro Pereira Gomes, Eça de Queiroz, Júlio Verne, Vítor Hugo e tantos outros. Então, foi aquela noite de 29 de Novembro de 1978, em que eu estava muito feliz, pois tinha acabado de saber que tinha vaga no curso de Medicina. Mostraste-te satisfeito, mas também preocupado, referindo que não sabias se ias ter força para me ajudar a alcançar este meu desejo. Fiquei desapontada e incrédula. Porque não havias de ter força? Tu eras o meu super-homem, nada de mal te poderia acontecer! Como poderias estar a adivinhar a catástrofe que caiu sobre nós, três dias depois?
 
Lembras-te, Pai?

 
Alda Rosa, Lisboa, 30 de Março de 2014