quarta-feira, 9 de abril de 2014

O Homem sem nome e a Mulher sem rosto

É com a maior alegria que publicamos um extracto do texto soberbo de Ricardo Estevens, cuja evolução em dois seminários de escrita foi surpreendente, confirmando o enorme talento do jovem escritor. É um, entre vários excelentes contos que integra a próxima antologia das Oficinas de Escrita. Daí, e por opção dos autores, ainda não os publicarmos aqui integralmente. MG.

Ilustração de Bernardo Pacheco


«Podia ter acontecido a qualquer ser em qualquer altura sem razão alguma, ou a ser algum e em nenhuma altura. Mas foi àquele corvo, empoleirado naquele sobreiro, que aconteceu. Aquando de se banhar e matar a sede na água fonte da vida, que a sua não cessou mas perto, salva só pela lei de Lavoisier, isto é certo. Cai a pena das asas de voar, as articulações começam a partir e a formar ângulos opostos aos de antes, mais ossos nas “antes-asas”, agora ligamentos, músculos e por cima nova carne em retalhos – mãos. Lentamente o bico entra em decomposição até ficarem só dois pedaços de carne – lábios. A boca prenha de dentes torna-se pequena para a língua inchada e em sangue, consequência da luta por espaço com os novos inquilinos. Os ossos começam a pesar. Vê com os novos olhos o velho chão distanciar-se, estranhamente agora que não voa. O negro das patas clareia até ser o moreno das pernas, excepto na esquerda onde, como se fosse tinta, o escarlate escorre na mesma direcção e forma um grosso aro abraçando o gémeo e a canela. O seu reflexo no lago é estranho, não se reconhece. É um estranho e na sua agora estranha mente tudo é branco. Branco de quem nasce novamente e deixa de lhe ser estranho, porque se tudo é novo é de esperar que também seja nova a mente. O branco imaculado começa então a ganhar outras cores que o preenchem. Cor-de-conhecimento e tons de razão garridos. Começa a absorver as cores em seu redor, e pinta numa tela igual à tela que deveria ser a de Adão antes da Eva, antes até do Criador; à de um recém-nascido antes de cometer o crime de perder a inocência; à de um homem. Depois das cores, palavras. De alguma forma, o seu pensamento é encriptado agora com símbolos que reconhece, como se tivessem sido seus desde sempre: a palavra ler; escrever; raciocínio.»
[...]

Ricardo Miguel Mota Estevens
Lisboa, 04/04/2014