terça-feira, 29 de outubro de 2013

O fantasma de Laika

Há uns tempos um artista plástico resolveu usar o meu rosto numa das suas composições. Fê-lo em segredo e depois enviou-me a fotografia do quadro
- Reconheces? – perguntou.
Fiquei perplexa, não tanto por ver o meu rosto naquela obra sua, mas pelo significado que ela me transmitia. «Como pode ele saber?» pensei. No meio daquela composição e talvez imperceptível a muita gente, eu não conseguia tirar os olhos de um olho que me fitava. Ei-lo! Só me aparecia em sonhos, ou melhor, em pesadelos, mas agora estava ali, acusatório e perdido. Aquele olhar que me perseguia desde sempre e fazia tão parte do meu ser que já não imaginava a minha vida sem ele.

Não sei bem como veio ali parar, possivelmente alguém a abandonou, ou então, perdeu-se de casa. Rondava a rua para baixo e para cima, e dormia à entrada das portas dos prédios. Era preta e branca, ou branca e preta, pois tinha umas manchas pretas que lhe adornavam o corpo. Tinha também os olhos mais meigos que alguma vez me tinham olhado. Um dia fiz-lhe uma festa, e aquele ser aninhou se aos meus pés de criança. Já não devia ser muito nova mas também duvido que fosse muito velha, devia portanto estar na meia-idade dos cães. Segundo a minha avó, notava-se que tinha sido mãe, o peito saliente e descaído era sinal disso mesmo, e, pobrezinha, estava sozinha.
– Oh pudemos ficar com ela? Perguntei eu ansiosa.-
– Não! – responderam me. – Está fora de questão, vamos mudar de casa e os novos senhorios não querem animais.
Não ficaram com ela, mas baptizaram-na de Laika.
– Laika! – chamava o meu pai quando a noite saia.

Alimentava-a e depois ela seguia-o até ao café. Ficava cá fora, à espera, enquanto ele lia o jornal e depois seguia-o até casa. Ele subia a escada e ela ficava em baixo aninhada, a dormir. Ele achava-lhe piada creio. Dizia:
– Parece uma pessoa, de tão esperta!
Mas nada fez para lhe procurar dono, ou pelo menos foi essa a ideia com que fiquei.
Estávamos de mudança. Eu, da varanda de um segundo andar, observava os homens que faziam todo aquele ritual de ir e vir carregando caixas e móveis. Carregavam as nossas coisas para a carrinha que me parecia enorme e estava estacionada à porta de casa. Não me apetecia nada mudar de casa e de cidade, mas lá teria de ser. Laika também observava.
Já era noite quando entramos todos no carro. E o animal também queria vir.
– Oh não! Ela vai correr atrás do carro – disse o meu pai.
Então, Laika entrou e aninhou-se aos meus pés, no banco de trás.
– Por que a deixas-te entrar se não a vamos levar? – perguntou a mãe.

Eu devia de ter uns cinco anos, pois sei que foi com essa idade que mudamos daquela casa, e o meu coração batia muito forte de nervosismo e antecipação, como se houvesse uma luz de esperança que Laika ficasse connosco. Não me lembro o que o meu pai respondeu, só me recordo que uns metros a frente o carro parou e ele convidou-a a sair.
– Porquê, papá? Onde é que ela vai?
– Está ali um amigo meu que vai ficar com ela. Nós não pudemos, ela é muito querida e tal e eu também queria muito... mas a vida... ahh a vida nem sempre é como queremos, tu não entendes ainda, mas um dia vais entender.
Laika saiu então do carro e eu olhei em redor aflita.
– Mas eu não estou a ver ninguém a chamá-la, as pessoas passam e ninguém a chama! Papá! Oh não! Laika! Laika! – e desatei a chorar!
O carro começou a andar e Laika ficou para traz.
– Sónia, não chores, assim como eu gostei dela alguém mais irá gostar, esta cadela parece uma pessoa de tão esperta... mas nós... nós não podemos ficar com ela.
Laika ficou para trás, os seus olhos meigos e perdidos olhando o carro. Eu olhava-a a chorar enquanto o carro se afastava. Sentia-me mal, muito mal. Como podia eu admitir uma coisa daquelas?

 


– Chama se Laika em memória da primeira cadela que foi à Lua! – explicou-me.
– Foi à Lua papá? Sozinha? Deixaram a cadelinha sozinha ir à lua?
– Deixaram claro, em nome da ciência! Era a primeira vez, não podiam ainda enviar um homem ou uma mulher, pois não havia garantias que regressassem a Terra!
– E a Laika voltou? – perguntei ansiosa.
Fez-se um silêncio, como se ele estivesse talvez a ponderar se havia ou não de poupar a criança àquela verdade.
– Não! – respondeu o meu pai. – A Laika ficou em órbitra no espaço, nunca mais voltou!
Tal e qual a da minha infância. Que nome tão maldito fora escolhido para o animal. Eu ansiava que alguém mais tarde lhe tivesse dado outro nome que não Laika, algum com melhor presságio. Ainda hoje, quando conheço um animal com esse nome sinto um misto de arrepio e ternura, mas na verdade esta recordação perdeu-se e só há uns quatro anos irrompeu pelas brumas, qual D Sebastião numa eternidade de nevoeiro que um dia reaparece, trazendo as Laikas da minha infância à deriva no espaço da minha memória

Sónia Alves, Estocolmo, Setembro/Outubro 2013