domingo, 6 de outubro de 2013

«A infância dura mais que a vida inteira»

Numa colagem de memórias, Sónia Alves evoca o passado e vai à raiz do nome, em textos corajosos, de uma grande e comovedora sensibilidade.




As partidas da memória

Tive alguma relutância em escrever sobre mim e isto por vários factores. Um deles é certamente o facto de, ao escrevermos sobre nós ou melhor acerca daquilo que se passou no decorrer das nossas vidas, envolvermos outras pessoas. Quer queiramos quer não, faz parte do processo. Uma vez, quando estava na biblioteca de Estocolmo para devolver alguns livros, assisti por mero acaso a uma entrevista com a escritora Rebecca Walker. Eu nunca tinha ouvido falar nela, mas sim na sua mãe, Alice Walker, pelo que a presença de Rebecca, que viajava a dar cursos de escrita após o lançamento do seu livro autobiográfico, despertou-me a atenção. De acordo com a escritora, a mãe tinha deixado de lhe falar por uns tempos porque ficou bastante perturbada quando a sua autobiografia foi publicada, bem como outros membros da família que acabaram por acusá-la, entre outras coisas, de injusta e mentirosa.
 
Creio que isso deve acontecer com certa regularidade.

Outro dos motivos da minha renitência prende-se com o facto de a memória nos pregar rasteiras. Nos seus recantos, as recordações assumem outros contornos e cores que, uma vez invocados e transcritos, parecem perder a forca que antes tinham aos nossos olhos.

Finalmente, e até há bem pouco tempo, julgava que não tinha quase nenhumas memórias de infância, pois só me recordava de pequenas imagens fragmentadas e incoerentes como nos sonhos. Depois, quando comecei a pegar nas poucas fotografias e objectos antigos que restaram – mudámos muitas vezes de casa e a minha mãe tinha por hábito desfazer se das coisas –, elas foram voltando de mansinho.
 

O meu nome é Sónia

O meu nome é Sónia e nasci em Lisboa. Sou filha de pais Portugueses. Foi a minha mãe que o escolheu, inspirada numa das personagens de um livro que leu quando estava gravida de mim, Crime e Castigo de Fyodor Dostoyevsky. Creio que estava mesmo destinada a ter um nome russo, pois mais tarde, ela disse-me que também se chamava Sónia a mulher de Tosltoy que deu igualmente esse nome a uma das personagens do seu Guerra e Paz. A minha mãe também me contou que, quando estava grávida de mim, teve alguns problemas políticos. Afinal, eu ainda nasci em ditadura, um ano antes da chamada Revolução dos cravos.

Uma vez, no jardim do Príncipe Real, chorou tanto que disse ao vento:

– A minha filha há-de nascer com a bandeira vermelha.

Nunca lhe fiz perguntas acerca deste episódio talvez porque soubesse qual era, na época, a sua ideologia. Mais tarde, ela própria admitiu a sua desilusão com algumas políticas soviéticas, ou pelo menos pelo modo como foram, e nas suas próprias palavras, «usadas, aplicadas, confundidas, alteradas». A ironia disto tudo é que, no decorrer da minha vida já viajei sozinha para vários destinos, mas sempre senti a maior relutância em aventurar-me sozinha pela Rússia, para não falar pelas antigas Republicas Soviéticas. Porquê? Não consigo explicar isto, racionalmente. Contudo, na minha cabeça, imagino-me com alguma frequência a viajar no comboio transiberiano, a embarcar em São Petersburgo, a parar varias vezes no decorrer do percurso, a sentar-me junto de um lago algures na Mongólia, de termo de chá na mão e a sair uns dias depois em Pequim.

 

A infância dura mais que a vida inteira

Há uns meses, aconselhada por uma amiga, fui a uma reunião dos alcoólicos anónimos para familiares e amigos de pessoas que sofrem ou sofreram de alcoolismo. «Não importa que já tenha passado», disse-me ela. «O que tu viveste, pensaste e sentiste na infância molda mais e condiciona mais o teu presente e futuro do que possas imaginar». Foi então que me lembrei também de uma frase da escritora espanhola Ana Maria Matute durante uma entrevista:

– A infância dura mais que a vida inteira.

Então, agarrei na minha vergonha, coloquei a numa gaveta imaginaria e lá fui com a minha amiga ao tal primeiro encontro. No grupo, estava uma rapariga de cabelo escuro como o meu.Senti que o rosto dela me era familiar e pensei, «talvez seja portuguesa ou espanhola»:

– Olá, o meu nome é Sónia – disse ela –, sou de São Petersburgo e estou aqui porque o meu pai é alcoólico.

Já tínhamos duas coisas em comum, além do cabelo escuro.
 

Ai Mouraria!

Nasci no bairro da Mouraria. Fui lá só para nascer, pois nunca ali vivi, mas mudei tantas vezes de casa que dei por mim a pensar, no Verão passado, que não conseguia imaginar nenhum outro bairro em Lisboa onde pudesse ter nascido. Não por pensar que viver na Mouraria é fácil. As casas são pequenas e há falta de privacidade, coisas, para mim, difíceis de suportar. Mas há algo neste bairro que tem a ver comigo, pelo que, no último Verão quando estive em Portugal, visitei demoradamente a Mouraria que eu conhecia tão mal. Numa dessas visitas, num final de tarde, sentei-me nas escadas de pedra de uma daquelas ruas tão antigas, e senti as lágrimas correrem-me pela cara abaixo. Percebi então e finalmente, que tudo na minha vida tem a ver com sobrevivência. Nao a duríssima sobrevivência que alguns sobreviventes referem, mas a minha tentativa de resistir num espaço fisico que considero agreste e bárbaro, o mundo, tentando ao mesmo tempo tentar manter uma certa dignidade, e conservar os princípios que considero essenciais, sem os quais nem eu própria me suportaria.

Sónia Alves, Setembro 2013, Estocolmo