quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Chamo-me Clara mas queria ter sido Teresa

O 'Bilhete de identidade' da Clara, num registo encantador. Continuamos assim a publicar textos da anterior oficina, e a preparar o livro antológico dos participantes.
 

Nasci no dia 24 de abril há muitos anos atrás, no seio de uma família que sempre acreditei não ser a minha. Chamo-me Clara, mas sempre achei que o meu nome deveria ser Teresa, motivo pelo qual, nas minhas brincadeiras de faz de conta com as minhas amiguinhas, as obrigava a chamarem-me como tal. Sou a mais nova de três irmãos e sou a única rapariga. Os meus pais, pessoas maravilhosas, nunca foram dados a grandes manifestações de afectos. O seu amor por nós, de que não tenho dúvidas, era assim ocultado por uma teia de gestos convencionais e muita secura.  

O meu irmão mais velho era um rapaz muito acertadinho, excelente aluno, sempre no quadro de honra, o que fazia o meu pai, professor catedrático de agronomia, exultar de orgulho. Cresceu assim, sempre muito estudioso, tímido e bem comportado. O meu outro irmão, também era muito bem comportado, e, apesar de não ser tão dotado para os estudos como o meu irmão mais velho, teve o mérito de se esforçar homericamente para estar à altura dos elogios do meu pai. Nunca gostou de ficar em segundo lugar e fazia de tudo para poder sobressair.

Tínhamos uma relação muito cúmplice, devido à proximidade de idades, (14 meses de diferença), mas a realidade é que eu era de facto o rapaz da casa e queria sempre mandar nos meus irmãos, principalmente neste. E como sentia um enorme desgosto por não ter uma irmã, cheguei a obrigá-lo a vestir as minhas roupas para o fazer passar por menina. É óbvio que só o consegui fazer enquanto éramos muito pequenos. Depois ele começou a insurgir-se violentamente contra as minhas tentativas, recusando vestidos, folhos, e outros adornos indignos do rapazinho que ele era, pelo que a partir de certa altura já não consegui mais transformá-lo na irmã com que tanto sonhava.

Mas apesar da nossa cumplicidade, ele irritava-me pois era muito mariquinhas e queixinhas. Nunca queria alinhar comigo nas propostas de fazer malandrices e chegava mesmo a ir ter com os pais, para denunciar os meus planos, ficando eu de castigo vezes sem fim. É que, e ao contrário dos meus irmãos, eu não era nenhum exemplo de filha, nem sequer uma brilhante como aluna, poi fui sempre mediana, recusando-me a ceder um segundo que fosse do meu tempo de brincadeira para o estudo. Nunca chumbei nenhum ano, mas as minhas notas raramente subiam acima de um 15. Normalmente andavam entre o 12 e o 13, para grande desgosto do meu pai.

Nesta matéria, a minha mãe era mais benevolente. Mas quando o tema era religião e quando o assunto era o catecismo, aí é que eram elas!!!! A sua benevolência desaparecia e dava lugar a uma severa vigilante da fé, cheia de tabus, onde por exemplo, falar de pernas, só por motivos de doença, e grave!!!

Sentia, naquela família, que todos me eram estranhos e não eram raras as vezes em que imaginava que a minha verdadeira família iria entrar porta dentro a reclamar-me como a filha extraviada. Isso nunca veio a acontecer e o sentimento de desadequação foi uma constante no meu percurso. É sempre difícil crescermos e movermo-nos numa realidade com a qual não nos identificamos e foi isso que me aconteceu... Tinha de seguir regras e padrões de comportamento que nada tinham a ver com a minha verdade. Vivia espartilhada por uma educação que não me fazia qualquer sentido. Os valores morais e sociais sobrepunham-se aos afectos e isso era algo que não conseguia compreender. Tive de aceitar, mas fui crescendo coxa, com um sentimento de que um dia mais tarde iria encontrar o meu verdadeiro lugar no mundo.  Como não podia fazer nada par mudar esta realidade, refugiava-me no meu próprio mundo paralelo, onde era eu que ditava as regras e podia ser quem eu de facto me sentia.


 
Os jardins onde vivemos

Os jardins tiveram um papel fundamental neste meu mundo. Em casa dos meu pais tinha um jardim relativamente pequeno, onde existia uma zona de horta e outra de jardim, mas onde eu arranjava recantos que representavam estradas, casas, lugares, espaços à minha escala. Havia uma garagem, separada da casa, onde eu trepava ao telhado, proeza homérica para uma criança de cinco, seis anos, pois sentia-me no topo do mundo, tendo desafiado o medo de cair dali abaixo. Isso dava-me poder!

Adorava fazer  papas com lama e flores, (as queridas flores dos meus pais, ambos agrónomos), o que me custou vários dias de castigo fechada à chave no meu quarto.  Mas nem assim deixei de fazer as papas com as flores dos meus pais. Em vez de arranjar alternativa para as papas, arranjei alternativa para sair do castigo; ou seja, do quarto. Não teria mais que quatro ou cinco anos, mas resolvi arriscar e descer pela janela abaixo, apoiando-me num alpendre que ficava logo em baixo da minha janela e aí então já podia de novo viver a minha liberdade. Claro que logo que era descoberta, voltava para o quarto, mas entretanto fugir passou a ser uma rotina… O importante é que eu conseguia impor a minha vontade.

Outro jardim muito importante para mim foi o jardim de casa dos meus avós em Braga. É um jardim francês muito grande, cheio de canteiros de bucho e flores. Como eu era muito pequena, os canteiros representavam para mim caminhos, recantos mágicos onde e aí, sim, eu sentia-me protegida. Aquele era o meu mundo, onde existiam fadas e gnomos e todo um imaginário que me deleitava. Ainda hoje recordo os cheiros intensos desse jardim onde, profunda e intensamente podia expressar a minha liberdade e soltar a minha imaginação porque aquele mundo era só meu! Esta sensação era tão poderosa que, desde que me lembro de ser gente, os meus desenhos reproduziam invariavelmente fadas e casas em forma de cogumelos como as dos gnomos.

Um dia, quando descobri a maravilhosa aventura dos livros, a par dos tradicionais conto de encantar, devorava avidamente os Tio Patinhas, onde as histórias que mais me fascinavam eram as da Madame Min e da Maga Patalógica. Tudo em mim me encaminhava para o mundo das fadas e das florestas nem que fosse pelo trilho das «histórias de quadradinhos».

Até a realidade mais banal me remetia para esse mundo.

Clara Ferrão, Lisboa, Outubro de 2013

[créditos da imagem: http://juliedillon.deviantart.com/art/Forest-City-38174791