quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Entre o riso e o choro

O belo texto poético de Carla Lemos


I - DEZASSETE
 
Sou adolescente.

Adulta pelas contas da natureza humana.

Espero que alguém perceba a razão pela qual o meu corpo adoeceu em pouco tempo e rapidamente me atirou para uma cama, sem força para viver a vida que me pertence.

Um instante mudou a minha vida, e com ele a possibilidade de não sobreviver.

Aproveito esse momento de solidão para rever dezassete anos de vida.

Curiosamente parece-me uma eternidade de vida, o que me deixa feliz por perceber que foi de alguma forma bem vivida.

É impressionante a lucidez com que revejo cada dia.

E de repente sinto uma enorme necessidade de analisar a vida e todo o seu sentido, e chegam-me os “porquês”  que não tive em criança.

Começo a perder uma certa identidade física, aquela que há tão pouco julgava ter criado.

Por outro lado revela-se uma percepção de tudo o que me rodeia, da integridade do ser que sou, e do que faço parte, que brilha dentro de mim como eu nunca tinha imaginado possível.

E aqui estou, um nada de mão em mão, entregue a todas as possibilidades, à espera de mais vida.

Sobrevivo.

À última chamada, eventualmente...

Talvez sobreviva à importância da vida.

Àquela vida que não sei o que seria por não a ter vivido, restando-me a outra à qual resisto desde então, que me mostrou o plano que eu nem sequer tinha traçado.

Que plano é esse que nos pergunta a toda a hora se escolho entre o riso e o choro?

Ah que pergunta...

O riso, claro!



II - ODEMIRA

Odemira é o Alentejo para onde já muito pouca gente vai.

Terra bonita, arranjada, que me recorda aventurosas viagens de juventude, quando os transportes não eram  muitos, mas esperávamos pelo que havia e lá íamos vivendo a vida, sem grandes exigências, sem carros, nem comboios de alta velocidade, e as viagens para a Europa não tinham valores low-cost.

A vida era para ir passando e ir vivendo e ir sonhando.

Então saí de Carcavelos em bicicleta.

Com um mapa e um caderno de apontamentos, duas bolsas laterais de mantimentos e pouca roupa, parti convicta.

O caminho foi sendo percorrido à beira-mar, num esforço descomunal, apenas seduzida pela aventura e pelo entusiasmo daquela liberdade que sentia bater-me na cara em forma de brisa.

Toda aquela natureza verdejante da serra de S. Luís, e um silêncio apenas quebrado pela corrente da bicicleta e algumas pedaladas, me levavam para uma viagem interior palpitante, e deixava-me um sorriso preso na cara.

Era uma altura em que dar parte fraca era desistir, era arranjar uma cabina telefónica e chamar a pagar no destino para pedir que me viessem buscar porque não aguentava mais

E parte fraca nunca foi o meu forte, por isso seguia em direcção ao esgotamento mais gostoso do mundo.

Sentia-me perfeitamente fundida neste espaço físico e psicológico que me acompanhou por muitas milhas percorridas.

A liberdade só é boa quando conseguimos integrá-la.

Assim seja sempre.

Carla Lemos, Lisboa, Setembro 2013



Créditos de imagem: Rota Vicentina, Serra do Cercal/São Luís.