sábado, 14 de dezembro de 2013

«Querida Mãe»

A belíssima carta de A.R. a culminar  a nossa intensa oficina de escrita : Elegias do Amor e do Ódio.

De A.R., s/título, técnica mista..

Querida mãe:

Há cerca de três anos que não nos encontramos. Temos, pontualmente, uns breves contactos telefónicos em que nos limitamos a falar de banalidades. Mas nestes últimos tempos tenho reflectido bastante sobre a nossa relação ao longo da vida e decidi escrever-te esta carta.

Para surpresa minha, é a primeira vez que te chamo querida. Pode parecer-te um fingimento meu, mas já vais perceber que não o é, de forma alguma. Como muito bem sabes, o nosso relacionamento sempre foi conturbado. Tu não desejavas ter filhos e eu vim roubar-te a liberdade a que tanto aspiravas. Sofremos as duas, ao longo dos anos: tu, revoltada com a vida que te tinha proporcionado o “ empecilho” (como te referias a mim de forma recorrente). E eu, na minha solidão e perplexidade, fechada em casa a crescer sozinha.

Mas é aqui que está o ponto principal da minha reflexão. Esta vivência permitiu-me explorar o mundo à minha volta, de início dentro de casa e, posteriormente no exterior, quando aprendi a saltar a janela (sei que estou a revelar-te algo que nunca imaginaste!).

Assim, toda a fantasia que esta vida me proporcionou, e que eu desenvolvi no meu solitário processo de crescer, tornou-me uma pessoa destemida, com alguma capacidade para enfrentar as adversidades e, em simultâneo, a poder percepcionar o mundo à minha volta! Gosto de pensar que, se a minha vida tivesse sido mais facilitada, talvez tivesse crescido devidamente “normalizada”, muito passivamente inserida nesta sociedade tão adversa à diferença e à imaginação. Assim, sinto que sobrevivi guardando inteira a minha singularidade!

Por tudo isto, quero agradecer-te tudo o que, directa ou indirectamente, me proporcionaste.

Um beijo, profundamente sentido.

 A.R.