terça-feira, 17 de setembro de 2013

Clarinha vai para a escola


Por Clara F.
 

Entrei com quatro anos para “O Mundo Infantil”. Era um colégio até à 4ª classe. Ficava numa moradia na avenida Gago Coutinho, muito perto de casa dos meus pais.

O meu irmão mais velho – já era tão grande! andava ali na 4ª classe; o meu outro irmão entrou ao mesmo tempo que eu, mas foi para a infantil dos cinco anos, a dos crescidos.... E eu sentia-me razoavelmente segura pois os meus dois irmãos andavam no mesmo colégio. No entanto fomos logo separados por turmas e salas, e assim sendo, não tinha grande contacto com eles. Nas aulas não nos víamos e como o recreio era relativamente pequeno, os horários dos intervalos eram escalonados por classes.

Foi logo algo que não me agradou.... Qual era o problema de estar com os meus irmãos? Como é que algo que me parecia tão natural, se tornava proibido? Infelizmente, do alto dos meus quatro aninhos anos, nada pude fazer...

Por outro lado, achei desde logo que as minhas colegas me eram impostas e como tal olhava-as como umas estranhas e não lhes dava grande confiança, preferindo manter o meu ar de “orgulhosamente só”. Não havia o direito de me impedirem de estar com o meu irmão, só porque era mais velho. Como tinha de mostrar o meu descontentamento e já que não podia fazer mais nada, pelo menos não colaborava.
 
Então, as minhas pequenas condiscípulas começaram a fazer grupos entre si, enquanto eu ia sendo posta de parte, e pondo-me de parte também, aferrada à minha teimosia. Um dia, porém, resolvi ir brincar com elas, pois estavam a saltar à corda e também me apeteceu muito brincar. Mas como sempre me exclui do seu convívio, responderam-me prontamente que não. Zangada, agarrei na corda com as duas mãos e não as deixei saltar. Se eu não saltava, elas também não! Depois, sentei-me triunfante no muro do recreio com a corda nas mãos em ar de desafio.

 
Espantadas, nem estavam a acreditar no que se passara, e visto que não havia forma de me demoverem sem briga, foram chamar a autoridade. Neste caso, a vigilante. Mas a vigilante não teve mais sucesso do que as minhas pequenas companheiras porque eu continuei a insistir que não largava a corda pois achava que elas teriam de ser penalizadas por não me terem deixado brincar com elas. Desesperada, a vigilante foi chamar uma autoridade superior, a tia Lurdes que era a minha professora. Com esta tive de ceder. Até porque ela se aproximou de mim e amarrou-me as mãos com a mesma corda que tanta agitação estava a provocar. E assim fiquei de mãos amarradas durante o recreio inteiro.

Para as outras meninas o meu castigo foi o delírio, mas no meu íntimo sentia que, apesar delas estarem tão vitoriosas, a vencedora tinha sido eu. Afinal, elas também não tinham podido brincar!
 
Cheguei a casa e remeti-me ao silêncio, consciente de que se os meus pais soubessem o que se passara, seria alvo de novo castigo e para mim já chegava de castigos para um dia só. E como das outras vezes, fui para o meu quarto onde mergulhei num mundo só meu, onde me sentia protegida, compreendida e amada. Nunca questionei a atitude da professora. Acreditava que, sendo ela mais velha agia correctamente, de acordo com os padrões do mundo em que eu vivia e no qual me sentia profundamente desajustada.
 
Cerca de um ano mais tarde, no decorrer de uma feia briga com o meu irmão do meio, ele foi contar o que acontecera aos pais, na esperança de estar a revelar algo de muito grave que me custaria o castigo da vida afectando também gravemente a minha reputação perante os nossos progenitores. Dessa forma, julgava ele, seria exemplarmente vingado. Fiquei muito sentida, pois tínhamos feito um pacto de silêncio sobre esse triste episódio que ele tinha quebrado. Eu nunca ousaria contar o segredo dele. Foi um golpe muito baixo!!!
 
Mas então, surpresa das surpresas!!!!, a minha mãe, quando ouviu a história, reagiu de uma forma completamente surpreendente. Profundamente indignada com o que se tinha passado, foi ao colégio e exigiu falar com a professora. Que coisa mais estranha, pensei. Afinal não estava sozinha no meu mundo. Afinal, tinha uma aliada na minha mãe, que até aí nunca a tinha sentido como tal! E assim, pela mão dela entrei na escola,  sentindo-me segura e invencível. Ia finalmente poder explicar as minhas razões. Nesta altura, já tinha feito algumas amizades, mesmo entre as minhas colegas a quem eu tinha tirado a corda, por isso o meu confronto direcionava-se quase em exclusivo à professora que me castigara de forma tão cruel. Tudo o que queria era enfrentá-la. Aflita, ela tentou desculpar-se, procurando desvalorizar o sucedido, mas quando sentiu a minha força passou a tratar-me com mais respeito, não fosse eu voltar a queixar-me aos meus pais ... amigos da directora do colégio.
 
A minha entrada para a escola não representa, portanto, um marco feliz. Passar um dia inteiro fechada numa sala, sujeita a horários rígidos para entrar e para sair, era para mim um verdadeiro suplício. Para reforçar estes sentimentos, os muros e as grades apresentavam-se como outras tantas barreiras a condicionar enormemente a minha liberdade provocando-me um sentimentos de asfixia. Não foram poucas as vezes em que atirei os sapatos para fora dos muros, alegando com o ar mais inocente, que me tinham caído, apenas para poder sair do colégio sozinha e acenar, do lado de fora, às minhas condiscípulas que me olhavam com um olhar de admiração que eu simplesmente adorava. Era o êxtase!
 
Sentindo-me diferente pois OUSAVA, comecei a ser admirada pelos meus colegas, rapazes e raparigas, já que fazia coisas que, para eles, eram impensáveis. Comecei assim a ter muitos amigos rapazes, que alinhavam comigo nas brincadeiras mais radicais, como trepar às árvores, dar cambalhotas nos baloiços andar simplesmente de baloiço não tinha graça nenhuma e muitas outras diabruras. Se havia alguma cena de pancadaria, lá estava eu a demarcar a minha posição. Chegava a bater em rapazes, (embora escolhesse sempre os mais fraquinhos) o que me dava um estatuto de durona e fazia com que os meus pequenos companheiros me olhassem como uma deles.

Isto dava-me uma extasiante sensação de poder...


Créditos de imagem: "MENINAS PULANDO CORDA", Óleo sobre telaAtelier de Orlando, Rogério e Luciana Teruz