sábado, 14 de setembro de 2013

Van Gogh, Marie Curie, Napoleão Bonaparte

Mais um textos, brilhante!, de um dos nossos «oficinantes». Três biografias. Ele explica a razão desta escolha. MG

Por José Saraiva
Em 1867, quando em Varsóvia se acolhiam os primeiros choros de Maria Sklodowska [Marie Curie, por matrimónio], Vincent van Gogh representava quase 15 primaveras, idade com que, assobiando, deixou os estudos e foi trabalhar na loja de um tio, em Haia. Trinta e dois anos antes, na ilha de Santa Helena, supostamente envenenado por arsénio, morria Napoleão Bonaparte. Não será de estranhar que o leitor acidental, aqui considerado sem distinção de género, ao ler o parágrafo anterior sem qualquer exórdio que o clareie, legitimamente se interrogue sobre a relação existente entre aqueles três personagens, díspares na índole, nas carreiras e na vida. Um militar visionário, uma cientista abnegada e um pintor alucinado, excluindo-se o facto de todos os seus nomes se iniciarem por consoantes, aparentemente não terão muito em comum. Todavia, o mistério da trindade revelar-se-á insuficiente quando se esclarecer que van Gogh se equivale à última biografia lida pelo autor destas palavras, e que os dois restantes correspondem a duas vidas que substantivamente impressionaram – o mesmo autor.

Napoleão Bonaparte, Vincent van Gogh e Marie Curie, nasceram a 15 de Agosto de 1769, a 30 de Março de 1853 e a 7 de Novembro de 1867, por esta sequência. As mortes, pela mesma ordem, sobrevieram-lhes a 5 de Maio de 1821, a 29 de Julho de 1890 e a 4 de Julho de 1934. Nutrida a cronologia, passemos ao propósito.

Foi sensivelmente pela idade dos 17 anos que o autor «encontra» Napoleão Bonaparte, por oca-
sião de uma das primeiras aulas sobre Armamento, cadeira do 1.º ano da Academia Militar, instituição onde havia ingressado recentemente. As impetuosas campanhas militares do imperador, conduziram a França, durante a primeira década do século XIX, a deter uma clara hegemonia sobre a maior parte da Europa. As conquistas e o indómito arrebatamento do «pequeno general», pareciam enlevá-lo com a auréola dos heróis predestinados, cujas estratégias venciam continuamente os mais afoitos capitães inimigos e que ainda hoje, com o denodo dos jovens cadetes, se estudam nas escolas militares de todo o mundo. No entanto, a valentia não o poupou à humilhação dos reveses vindouros. A campanha da Rússia, em 1812, e a batalha de Waterloo, três anos depois, marcaram o prólogo dos seis últimos anos da sua existência, vividos na clausura britânica da ilha de Santa Helena, na costa de África. O livro contendo a sua biografia, com cerca de 500 páginas, repousa discretamente na estante de um quarto reconduzido a biblioteca, cuja capa ilustra o «pequeno grande homem» montado num cavalo alazão, garbosamente rebuçado num manto esvoaçante, no meio de um esfumado cenário de guerra e mortandade. À perspectiva viril de que dos fracos, provavelmente, não rezará a História, importa emparelhar tempos desiguais e olhares diferentes.

Marie Curie alcançou o feito extraordinário de ganhar dois prémios Nobel no espaço de 8 anos [Física, 1903, e Química, 1911]. Uma das mais brilhantes cientistas de todos os tempos, cujo valor académico e mérito científico foram amplamente reconhecidos pelos seus pares e pelo mundo, morreu com leucemia, seguramente, devido à exposição massiva às radiações que decorriam do seu trabalho. Ironicamente, a descoberta da sua vida – matou-a. Dentre os valiosíssimos contributos do seu trabalho, particularmente a descoberta do «rádio», constituiu um avanço fundamental nas terapias de combate ao cancro e à sua contenção degenerativa.
O seu livro Radioactivité, escrito ao longo de vários anos, foi publicado a título póstumo, sendo considerado um dos documentos fundadores dos estudos relacionados com a radioatividade clássica.
Em 1995, os seus restos mortais foram transladados para o Panteão de Paris, tornando-se a primeira mulher a ser sepultada neste local. Marie Curie, «apareceu» ao autor incluída num conjunto de biografias editadas pelas Publicações Europa-América, numa famosa coleção designada por «Livros de Bolso». Pequeno livro, mas prenhe de ideais.

Doze girassóis numa jarra é considerada uma das melhores e mais famosas obras de van Gogh. Todavia, não obstante o seu excepcional talento, não se distará sobremaneira da realidade se se o descrever como um lunático alucinadamente perturbado, cuja incrível genialidade apenas lhe foi reconhecida após a sua morte. Este pintor holandês, da segunda metade do século XIX, é a imagem viva do sucesso vertiginoso – post mortem. Nos 37 anos da sua curta vida, apenas logrou vender um
quadro e, no entanto, o fastio desse magro património de então, faz hoje farto alarido à sua gordura, com algumas das suas obras a atingirem preços fabulosos de dezenas de milhões de dólares. Com uma vida recheada de peripécias rocambolescas, conta-se que, numa desavença, cresceu sanguinário para Gauguin em programa de frases persuasivas – à navalhada. Porém, atormentado com o fracasso da investida, van Gogh, transtornado, amputa, com a arma do feroz assalto, o lóbulo da orelha esquerda – do próprio. Embrulha-o e entrega-o a uma prostituta. Já se vê a cara da mulher.
Na fase final da sua vida, pintou freneticamente e num passeio improvisado, na cidade de Auvers-sur-Oise, em França, decide suicidar-se com um tiro no tórax. A vida durou-lhe mais 3 dias. Com efeito, o talento extraordinário e a loucura insidiosa, geram uma estranha união que, não raras vezes, é capaz de produzir obras de elevada intensidade artística e humana. Van Gogh, ou o «ruivo louco», por antonomásia, foi a última biografia que, há cerca de dois anos, bracejou à cabeceira do autor. O livro, já dobrado nas pontas e de capa amarelecida, chegou-lhe casualmente às mãos, durante os desbragados trabalhos de encaixotamento de infindáveis tralhas e haveres, por ocasião de uma mudança de casa de um amigo próximo.

Aqui chegados, importa dizer que estas três vidas invulgares se cruzam apenas pelo facto de se terem constituído em estacas literárias do autor. No entanto, terão em comum o facto de terem marcado indelevelmente o mundo em que viveram e, certamente, o do que lhes sucedeu.
 
JOSÉ SARAIVA
Luanda, 11-09-2013

Créditos das imagens: Napoleão Bonaparte, Marie Curie, van Gogh - seguir os links.
Obrigada Wikipédia por estas ligações com denominação de origem.