sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Cleópatra, Joana a Louca, Maria Adelaide Coelho

Começamos a publicar alguns dos textos produzidos nesta Oficina de Escrita biográfica que ainda está a decorrer. O tema proposto foi «biografias» de forma abrangente, aqui se incluindo obras que deixaram marcas, sem preocupação pela ficha técnica do livro evocado. MG

Por Clara Ferrão

Elizabeth Taylor em Cleopatra
Gosto muito de biografias, pois através de uma história de vida dão-nos acesso a um outro lado que afinal mal conhecemos, numa autêntica viagem ao avesso da História, quase sempre recheada de muitas surpresas…. Além disso, não deixa de ser curioso descobrir grandezas ou misérias de personagens que nos ensinaram a respeitar e até a amar e que nem sempre estão à altura da lenda criada em seu redor.

A última biografia que tive o prazer de ler foi a da Cleópatra. E aqui, o que mais me marcou foi perceber que, apesar de nascermos aparentemente livres, sobretudo quando estamos a falar de elites, toda a nossa existência está à partida determinada e condicionada pelo espaço e pelo tempo em que nascemos, pela nossa posição na pirâmide social e pelas pessoas que nos rodeiam e que nos impõem a representação de um papel do qual muito dificilmente conseguimos desviar-nos.

 Nesta caso, a vida de Cleópatra é um registo de deslumbramento, poder e traição, que neste livro é relatada sob um clima de mistério que remete para um verdadeiro thriler. Sem deixar de ser um retrato da condição humana, com os seus afectos, os seus medos e os seus anseios, o que se nos desenha é uma espécie de tragédia, onde cada passo conduz, não à desejada felicidade, mas a uma inevitável “perdição”. E foi assim, por um caminho extremamente solitário, sem poder verdadeiramente confiar em ninguém, numa sociedade amoral onde viver e sobreviver é uma corrida de obstáculos por entre atropelos e intrigas, que reinou aquela mulher cuja beleza ficou na História, e cujos amores entraram para a lenda. Mas Cleópatra foi também uma mulher fascinante, uma jogadora exímia, de uma inteligência ímpar, que deixou a sua marca.

Neste registo de histórias verídicas que tanto aprecio, quero referir a biografia de Joana A Louca que também me marcou profundamente, pela intensidade do drama. Mais uma vez, a liberdade pessoal da personagem foi aqui cruelmente submetida à vontade do poder maior, que ceifa cegamente quem se lhe atravessa, transformando as existências num exílio de agonias, suplícios e de uma insuportável solidão.

Francisco Pradilla y Ortiz (1848-1921), Joana a louca velando o cadáver de Filipe o Belo, Museu do Prado, Madrid.
 

Uma outra biografia que também me tocou muito foi a de Maria Adelaide Coelho da Cunha, uma mulher que teve a coragem de enfrentar uma sociedade em peso, para lutar pela sua verdade contra tudo e contra todos. Nos começos do século XX, e em Portugal, Maria Adelaide, senhora da alta sociedade de então, reescreveu a sua história de vida, arcando com o ónus da loucura por assumir o amor por um homem muito mais novo e de condição social ‘inferior’ à sua. Por este 'crime', Adelaide Coelho perdeu fortuna, situação social e apoios familiares, vindo a ser internada num hospício, de que se libertou em condições extraordinárias graças à força do seu carácter e à coerência dos seus sentimentos.