terça-feira, 10 de setembro de 2013

Como escrever um livro?

Como escrever um livro, dois livros, muitos livros?

Lendo. Lendo muito. Lendo todos os dias. Lendo como quem precisa de ler para respirar. Lendo como quem precisa de ler para estar vivo.

Isso, e escrever. Escrever todos os dias, como um oficio. Ter um caderno à mão, uma folha solta, ou um artefacto electrónico qualquer que conserve as nossas palavras. Depois, e de puro exercício sem esperar retorno, reuni-las em frases, em pequenos contos, a partir dos diálogos soltos que apanhamos no ar e na espuma dos dias para construir através deles uma história que já não é de ninguém, nem sequer nossa, porque nos foge do pensamento e temos de correr para a capturar com a rede das nossas palavras.

Um escritor faz-se disto e de muito mais. Da atenção plena e amorosa ao que nos rodeia. De instantes que se carregam no saco sem fundo das nossas erráticas recordações. Do oficio de escrever por obrigação de vida. Da paixão intoxicante pela palavra. Da dor que nos autoinfligimos quando, por inépcia, não a conseguimos moldar. Da caminhada sem descanso pelos mais recônditos lugares do pensamento.

Escrever é estar acordado mesmo quando se dorme. É recordar o que mais quisemos esquecer. É voltar à infância para  soltar pássaros aflitos que esvoaçam nas gaiolas escuras no interior da montanha onde garimpamos o ouro da palavra. É enfrentar monstros. Monstros de verdade, as nossas assombrações, as nossa feridas, as nossas vergonhas, os nossos medos.

 

Escrever  até às entranhas, é, muitas vezes, ir ao encontro do nosso inimigo maior. Aquele de quem fugimos desde o princípio dos tempos. E depois, deitar-mo-nos com ele, abraçando-o e beijando-o na boca, para além de todo o horror, até vermos que o seu rosto informe e o seu corpo de pesadelo são o nosso próprio reflexo no espelho da vida a dissolver-se num jorro de luz.


Créditos da imagem: Gustave Doré, lithographie de Barbe Bleue (1862), Contos de Pérrault,
retirado de http://commons.wikimedia.org/wiki/File%3ABarbebleue.jpg