sábado, 21 de setembro de 2013

Aprender a ler, a escrever e a contar

A infância tropical, numa escrita envolvente, cheia de imagens que cativam, pequenas ironias, e de leitura irresistível...
por José Saraiva

Entrávamos em 1971 e, em Portugal, a imprensa do mês Janeiro dava nota da falta de vacinas para o sarampo e do reforço de mais 500 táxis para a cidade de Lisboa. O ano correu célere e o verão não terminaria sem que eu iniciasse mais uma etapa de renome. Com efeito, alguns dias antes de cumprir os sete anos de idade, dei os primeiros passos na senda dos estudos e do conhecimento. O ano lectivo de 1971 - 72, marcava, assim, o início da minha actividade académica, registando-se como o meu primeiro dia de aulas, a segunda-feira, de 13 de Setembro de 1971.

Ao mando da voz paterna, apresentei-me na escola primária, em Luanda, junto ao Quartel-General [onde costumava assistir à circunspecta cerimónia do içar da bandeira nacional], aos olhos vivos e pequeninos da «senhora professora D. Isilda», a «mãe educadora» que, provavelmente pelo facto de nunca ter tido filhos, pela falta de paciência e pela idade avançada, adoptou, para «civilizar os ignorantes e a mestiçagem», uma eloquência de pendor maioritariamente castrense, autopromovendo-se, por distinção, nas atitudes e na retórica – a sargento. Dei, portanto, por mim consagrado à indústria das ideias e – à recruta. Nas aulas, exigia-se, para bem do espírito e do corpo, silêncio, cabeça aprumada e atenção ao quadro.

 
Assim, submisso, de bata branca de gola deitada, calções azuis pelo joelho e unhas cortadas pelo sabugo, depois de cantado o hino nacional e inscrito no mapa escolar, comecei, «a toque de caixa», a aprender a ler, a escrever e a contar.

Entrava-se na escola depois de passar pelos ferrolhos austeros de um pesado portão de ferro, cujas setas pontiagudas lhe acentuavam a sinusóide da sua linha superior, a que se sucedia uma passagem longitudinal até às escadas, que, subindo, afunilavam até à porta principal. Para a direita, as secretarias, as arrecadações, a sala de professores, a biblioteca e os gabinetes da Direcção. Para a esquerda, as salas de aula. A minha, caiada e limpa, ornava-se com um grande quadro de loisa cinza, sobre o qual a professora fazia deslizar, ciciosamente, os coloridos paus de giz, fazendo aparecer e desaparecer desenhos e alfabetos. Dois enormes mapas rectangulares, um de Portugal e outro do esqueleto humano, atapetavam equidistantes a parede oposta à das duas largas janelas, por onde se arremessavam copiosamente os reflexos do sol, as vozes da rua e os ruídos do trânsito. As cadeiras perfiladas com as mesas de estudo de tampo inclinado, as enormes molduras de massa, a imitar madeira entalhada, com as fotografias de Salazar e de Américo Tomás, ladeando o crucifixo ao alto da parede, centrado com o quadro de loisa, e o estrado elevado, que reforçava a autoridade da cátedra, e onde se estabeleciam a secretária e a cadeira, o ponteiro e a régua, completavam o resto da fisionomia daquela austera «casa da ciência».

O recreio, às traseiras, com um acesso central e outros dois pelas duas largas portas, nascidas, cada uma, do seu respectivo corredor interior, era constituído por um espaçoso recinto de cimento, vedado lateralmente por uma rede de arame grosso, terminando, abruptamente, ao topo, num muro de tijolo caiado, com cerca de 2 metros de altura e que servia, ao mesmo tempo, de encosto para os pés e de meta para as corridas. Contíguo à área das salas de aula, um telheiro estendia-se a todo o comprimento do alçado, abrigando uma correnteza de bancos de madeira castanha, com espaldas de ferro, que serviam ao alívio dos cansaços, à protecção da canícula e à sentinela das contínuas.

No segundo dia de aulas, quando se tratou da distribuição dos lugares para o ano inteiro, por uma insondável inclinação natural, disputei acerrimamente com o Osvaldo, já «companheiro e amigo», a última carteira, da última fila, junto à última janela – perdi, calhando-me ficar sentado à sua direita. Fixados os assentos, iniciámos, para preencher o fastio das lições, outra actividade, particularmente indicada para o desenvolvimento da visão e dos reflexos – apanhar moscas. Ganharia quem apresentasse mais insectos antes do almoço, apurando-se o vencedor antes de ir para casa, depois de acumuladas as quantidades, cuidando cada contendor de se certificar de que o adversário não fazia transitar as mesmas moscas, da manhã para a tarde. As varejeiras, os tavões e os moscardos valiam por duas. No entanto, a avidez dos gestos para abater alguns dípteros, cujas imprevistas e caprichosas evoluções implicavam um maior ímpeto capturador, traiu-nos, e a professora Isilda, de sobrancelha circunflexa e dedo inquisidor, quis saber o que se passava «lá atrás». Acabou o «campeonato» e nós, quais vendilhões do Templo, expulsos da sala de aula. Começávamos bem.
 
Uns dias depois, a festa de anos do meu sétimo aniversário, a 22 de Setembro de 1971, ficou marcada por uma actividade inesperada. A minha mãe organizava sempre um lanche recheado de apetites variados, com sumos de fruta naturais, folhados, bolos sortidos, salames, mousses e outras iguarias, que, numa mesa rectangular, colocada no quintal à sombra da palmeira, permitia que nos divertíssemos de barriga cheia. Seríamos, ao todo, uns vinte, constituindo os matraquilhos uma das principais atracções do evento, com vários campeonatos a decorrer em simultâneo, com os vencidos a produzirem várias acções de protesto. A tarde esvaía-se, assim, pela sua morna calidez, quando, de súbito, o meu irmão dá o alarme:

O Jacó desapareceu!

Confirmada a sua deserção do poleiro e de casa, saímos todos, em préstito, para a rua, à procura do papagaio, acompanhando o movimento colectivo de busca por um sem número de assobios, chamamentos e outras onomatopeias, destinadas a cativar a ave desertora. Naturalmente, o desusado ajuntamento de crianças e o frenesim dos sons, fizeram acudir vários vizinhos à porta, que, depois de saberem do sucedido, também se foram juntando ao grupo de voluntários. Cerca de hora e meia depois, foi o ingrato encontrado a depenicar zelosamente bagos de arroz cozido, num quintal próximo. Reconduzido à origem, ficou, nessa noite, preso ao poleiro e no dia seguinte a minha mãe tratou de lhe cortar um pouco mais as asas. Para compensar o empenho de todos, ficou agendada uma 2.ª edição da festa de anos, e do lanche, a realizar no sábado seguinte, dia 25 de Setembro.
 
Entretanto, na escola, enquanto progredia nas letras e nos números, o meu comportamento arredio e a imaginação incontida para a traquinada, chegavam-me, quase dia sim, dia não, à palmatória educativa da professora Isilda e ao bofetão admoestador da D. Lucinda e da D. Conceição, contínuas vigilantes do recreio. Supostamente, a acção directa destinava-se a refrear a minha solta impudência da mocidade e o apego fervoroso às cenas de pontapé e pedrada certeira com que presenteava, no recreio, os filhos do capitão Samuel, militar em comissão de serviço. Do acto ao boato, sucedeu o esperado: em fins de Novembro [de 1971], a Direcção da escola convocou formalmente os meus pais para um «encontro». À altura, os pais acompanhavam os filhos no primeiro dia de aulas e ao exame da 4.ª classe. Fora destas ocasiões, apenas situações excepcionais ou problemas graves os faria lá comparecer. Assim, confundindo os meus elevados dotes de espírito e sobra de energia, com a condenável propensão para a diabrura, declararam-me, sem direito a contraditório, «indomável e terrível», cuja irreverência díscola reclamava urgentemente «mais educação». Presumo que não seja difícil adivinhar o que aí vem. De imediato, fui severamente prometido ao castigo inflexível e à sova rigorosa, se voltasse a repetir, – uma única vez que fosse!, qualquer uma das insolências e zaragatas de que tinha sido acusado. O meu pai, apopléctico, explodia,

– Uma vergonha! Um meliante! Um malandro! Onde já se viu termos um selvagem cá em casa!

Fiquei capaz de esganar aquela súcia de miseráveis esbirros delatores e de os enrolar em papel de mortalha, mas pareceu-me mais razoável levar a sério a advertência paterna, mormente no que dizia respeito ao articulado da sua segunda parte, onde claramente se referida «sova rigorosa», pelo que a minha índole de alegado rufia cedeu bruscamente a um comportamento mais prudente e subtil, presumivelmente para meu bem e, de certeza, para descanso dos imbecis descendentes do capitão Samuel. Embainhei, portanto, a espada.
[continua...]

Luanda, Setembro, 2013