sábado, 21 de setembro de 2013

"As manas catatuas, quem leva uma leva as duas”.

Universos mágicos e memórias avassaladoras.

Por Maria Teresa Figueiredo
Nunca pensei que fosse tão difícil escrever sobre mim. Deixar preto no branco, sem floreados e personagens, a minha origem, a complexidade das minhas memórias de infância, a base do que sou hoje. Não me darei a conhecer na totalidade e nem mesmo todas as minhas memórias de infância porque nem todas estão devidamente relembradas e trabalhadas no meu íntimo ao ponto de as transpor e escrever. Nem darei a conhecer as outras, não por vergonha, mas pelo medo de não as conseguir dignificar e homenagear como pretendo. E como as recordo.

Irei sim, dar a conhecer o que tanto procuro amarrar e colar no coração todos os dias, com medo que se perca. As memórias da minha infância até aos cinco anos. A recordação dos que me trouxeram a este mundo até ao dia que um deles optou por mos retirar!

Ticas! Alcunha que resultou da dificuldade de minha irmã mais velha apenas um ano e meio, em dizer o meu nome, Maria Teresa. Depois, fui-me apercebendo da existência do nome de família “Graciosa”, pelas vezes em que tias me agarravam as bochechas sardentas e me diziam que só podia ser Graciosa! E assim fiquei até hoje, a Ticas Graciosa para os amigos. Haverá outra razão que me ajudou a acentuar o Ticas e desligar do Teresa, mas serão outros contos de memórias mais avançadas.


Adrião - Escadaria de acesso ao castelo de Belver, no concelho de Gavião, em Portugal
Os meus pais morreram quando eu tinha apenas cinco anos. Nessa altura, vi-me obrigada a trocar o ar seco e a paisagem vasta e agreste da Beira Baixa em tons amarelados, recheada de magníficos penedos e imponentes sobreiros, pelo clima ameno e menos campestre da Beira Litoral, onde fui viver para um palácio cujos muros nem sempre conseguiam esconder outras casas mais pequenas, mas também com a sua beleza, embora distinta. Aí, vivíamos num casarão onde podia correr para ir à casa de banho e esconder da minha avó todos os pães que não conseguia comer, até ao dia em que era apanhada e tinha de os comer a todos em sopas de leite, como castigo. Tive a graça de nascer e crescer no seio de uma família enorme, dez filhos (os nossos tios), vinte cinco primos e já bastantes bisnetos que, entre quintas e cavalos, cães e touros, bicicletas e cavalgadas, nos fomos conhecendo, entendendo e entrelaçando!

Perdi os meus pais mas ganhei uma ligação especial com os avós, tios e primos. Cada um acabou por ter no meu coração um lugar especial. Ainda relembro com prazer quando nos chamavam a mim e à minha irmã, por nesse tempo sermos unha com carne, as “Ticas” ou “As manas catatuas, quem leva uma leva as duas”. 

Da minha infância e sem grande esforço de memória, facilmente recordo o Natal em que recebi a minha bicicleta azul e branca com rodinhas atrás. Lembro-me de estar no Páteo grande da quinta envolvido pelas casas, picadeiro, boxes para os cavalos e com larga vista para as pastagens repletas de sobreiros com o cabeço em segundo plano recheado de penedos. Foi neste Páteo, onde ainda se conseguia avistar uma das barragens, a mais pequena, que, empurrada e ajudada pelo meu pai dei as primeiras pedaladas na bicicleta que tanto me acompanhará nos anos seguintes. Mais tarde, e já na nova vida, mesmo sem travões desbravava caminhos e acelerava nas corridas entre primos. Rio-me e volto a ter a mesma sensação de medo e borboletas na barriga quando recordo a brincadeira que fazíamos com os primos mais velhos, de correr atrás de um pónei no meio do descampado, até este se zangar e cavalgar atrás de nós para nos morder. Tinha o seu feitio muito especial... E a sensação de ser puxada pela minha prima Maria – mais velha que eu, com a peculiaridade de ter um olho azul e outro verde –, ainda hoje se faz sentir.

Sentia-me livre naquele ambiente. Os dias passavam-se entre bezerros, passeios a cavalo na Toma, égua do meu pai, que era tão mansa que nos deixava montar para sermos passeadas à trela. Os cães eram nossos amigos, sempre cheios de paciência, e com eles partilhava outras brincadeiras. Agarrava-os, trocava os chupa-chupas, punha-lhe óculos de sol, tirava-lhe os óculos de sol. Não tinha problemas com a roupa, se sujava ou não sujava. Lembro-me apenas que brincava. Recordo com carinho e saudade o aconchego de me enroscar à noite no sofá, entre os meus pais, e a vontade que ainda hoje sinto de voltar atrás para voltar a ser a intrusa entre os dois, naqueles momentos mágicos. Recordo ainda as viagens no Citroen encarnado, com os meus pais e a minha irmã, e de adormeceremos a ouvir as músicas dos Gipsy Kings que ainda hoje me emocionam porque me trazem um bocadinho deles,  e porque sei que em tempos as ouvimos todos juntos!

Depois, havia os piqueniques entre os sobreiros e a pastagens, com os meus pais e amigos. As correrias e brincadeiras e mais uma vez a sensação de liberdade! Os jantares nas mesas circulares de pedra unidas entre si que, em conjunto fazem uma mesa enorme. Num deles e já depois de escurecer, ao tentar ir buscar fio dental para limpar os dentes, inclinei o armário fino e alto da casa de banho, sem me aperceber que no topo deste estava um autoclismo de loiça e que foi directo à minha cabeça. Chorei e chorei e, nessa altura, o pátio ainda me pareceu maior, pois de repente o meu lugar seguro deixou de o ser até conseguir reencontrar, entre a pouca luz e os muitos convidados, o colo, o conforto, os braços da minha mãe! Evidentemente, fui para o hospital, levei muitos pontos e chorei imenso. Ao meu lado, estava um rapaz também com os seus cinco anos que enfiara um amendoim numa das narinas e não conseguia retirá-lo! Aquela visão ainda me fez chorar mais e, de barriga para baixo com uma mão dada ao meu pai e a outra à minha mãe, chorei e chorei. A cicatriz ainda continua e quando a sinto é bom relembrar aquelas mãos comigo.

O que gostei da noite em que, suponho devido ao calor que se faz sentir naquela zona da Beira Baixa no verão, 40ºC, secos e sem qualquer aragem de ar fresco, fui com os meus pais, irmã e mais alguém que não me recordo, colar placards de uma tourada pelas paredes da vila. O cheiro da tinta, a adrenalina de estarmos ali de noite, o vento que apanhávamos na carrinha de caixa aberta, o delírio e o encanto daqueles momentos, devem ser outros tantos motivos para ter retido esta memória. E outras, como as noites em que o meu primo José Maria, depois de caçar aparecia em nossa casa. E eu, que já estava na cama, levantava-me para ir espreitar aquele “homem” sentado no nosso sofá com uma faca à cintura. Na altura tinha medo daquela figura e o medo criava-me a curiosidade suficiente para arriscar sair da cama e levar um castigo. Uma outra recordação carinhosa traz-me de volta as vezes em que os meus avós iam passar uns dias à Beira Baixa. Nessas alturas, a avó, sempre prática e despachada, contornava-nos os pés sobre numa folha branca com uma caneta, para, da próxima vez que voltasse, nos trazer sapatos. Mal sabíamos então que poucos anos depois o destino aproximaria muito mais ainda os nossos corações para que nos amássemos como mãe e filha.

Estas e outras lembranças, mais penosas e ainda por aprimorar até poderem ser registadas com a dignidade que merecem, são algumas das muitas que a criança que eu fui, até ao dia 13 de Dezembro de 1991, guarda a sete chaves no segredo do coração. Por agora, deixo aqui algumas.

Haverá outras, tantas e tantas, das várias fases da minha vida, que irão serão registadas, talvez em forma de romance, talvez fantasiadas. Para poder introduzir-lhes as presenças maravilhosas das fadas e dos duendes do mundo mágica a que todas, ou pelo menos quase todas, as crianças têm acesso.

Lisboa, Setembro 2013