segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Memórias de infância: os matraquilhos e o psitacídeo.



Por José Saraiva Augusto
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Aos meus 5 anos, depois de a bola de futebol a troco de reiterado e solene juramento de nunca mais jogar dentro de casa, ter sido resgatada, ao mofo e à escuridão húmida, da arrecadação que habitava solitária ao fundo do quintal , recebi de prenda uma envernizada mesa de matraquilhos, onde o Sporting e o Benfica, emblemas maiores da portugalidade desportiva, se digladiavam sem tréguas, com viço renovado a cada jogo. Foi um sucesso inaudito de fama e popularidade – os frenéticos matraquilhos ribombavam na vizinhança e «chegava gente de todo o lado» para, ou com deleite, ou com inveja, os ver e apreciar. A par do seu estatuto de glória e celebridade públicas, foram fisicamente colocados, com largueza de espaço e de movimentos, imprescindíveis às veementes e entusiásticas manifestações de júbilo dos vencedores, sob o grande telheiro do vestíbulo existente defronte da porta das traseiras, por onde se arribava directamente à cozinha. Abrigados, os matraquilhos e os jogadores, do vento, da chuva, do sol e dos excrementos de alguns pássaros costumeiros, a localização escolhida, continha também a vantagem, não despicienda, do fácil acesso aos sumos de fruta, aos bolos secos, às sandes de fiambre e aos folhados de salsicha, sempre muito apreciados pelos participantes. Presumo, também, ter sido a partir dessa altura, que a magnificência, a imensa luminosidade e o esplendoroso fulgor, do horizontal listrado verde e branco das camisolas leoninas, conquistou a minha profunda e eterna simpatia pelo clube: Sporting, for ever

Porém, avultou logo de início uma questão funcional da maior relevância: partindo-se do princípio de que o meu tamanho não se podia alterar, a mesa era relativamente alta – ficava-me com o nariz ao postigo. Assim, para que pudesse desfrutar de toda a emoção do pleito, que acontecia no pequeno rectângulo de madeira verde escuro, colocavam-se três opções possíveis: serrar as pernas da mesa de jogo, para que baixasse, improvisar um estrado, que me subisse, ou guardar os matraquilhos e esperar que eu crescesse. Venceu, por unanimidade, a 2.ª hipótese e, portanto, obteve-se o adequado escabelo, que me permitia, agora, ter uma visão perfeita do «relvado».

Ora, este pormenor, aparentemente insignificante, do ajustamento da cota, entre mim e os matraquilhos, foi, todavia, peremptório na minha longa, sucessiva e continuada conquista de títulos «aos matrecos». Para o efeito, bastou que, concomitantemente, tivessem sido implementadas três regras básicas. Primeira: só o dono do jogo tinha direito ao uso do supedâneo. Segunda: o Gustavo estava proibido de jogar. Terceira: quem protestasse, acompanharia o Gustavo. Na sequência, muitos dos meus adversários benfiquistas, tinham, assim, de permanecer em bicos de pés, para lograrem vislumbrar o que quer que fosse. Contudo, no prolongar do esforço, quando o cansaço lhes começava a retesar os músculos das pernas, obrigando-os a «pousar», para alívio dos gémeos macerados, eu, empoleirado na base, entretinha-me a aboná-los com expressivas derrotas, limitadas numericamente ao número de bolas existentes: 12-0. Estarei inclinado em concordar que a minha posição visual dominante e mais confortável, me conferiam nítida vantagem competitiva, mas eram, definitivamente, muito aprazíveis estas arrasadoras vitórias sobre os «lampiões». De facto, ainda hoje, já sem precisão da peanha, tenho jeito para os matraquilhos, preferindo, naturalmente, vencer nos que contêm o derby Sporting-Benfica. 

Cerca de dois meses após a entrada triunfal dos matraquilhos em cena, o meu irmão completou o seu segundo aniversário. Terminava, então, o mês de Novembro de 1970 e o «mano» tinha conseguido bons avanços na sua coordenação motora, progredia significativamente nas primeiras construções frásicas e alardeava já algum vocabulário erudito, tal como «padabéns», «tator» e «pipoca». Muito provavelmente em sintonia com o seu estádio de desenvolvimento psicomotor, o meu pai resolveu aplicar-lhe uma ferramenta viva: ofereceu-lhe, da sub-espécie psittacus erithacus, um psitacídeo, de anilha no pé. Um papagaio, como facilmente se adivinhou. Esta estirpe é uma das que aprende com mais facilidade e a que consegue desenvolver um vocabulário mais vasto.  

Passado o primeiro impacto de contentamento familiar generalizado, que durou cerca de dois dias, notou-se que a completa integração do bicho carecia de adequado baptismo. Assim, resultando de um brilhante e extenuado exercício de brainstorming doméstico, soçobrou-lhe, exangue e de língua de fora, um nome de fulgurosa originalidade – «Jacó». Viveu connosco cerca de 17 anos, contando-se por muitos os episódios burlescos em que interveio. 

«Jacó» apresentava-se invariavelmente em público de plumagem cinza e cauda curta e vermelha, revelando-se, logo de início, simpático, sociável e falador, com uma inegável habilidade para repetir o som do toque do telefone, da sirene dos bombeiros, do despertador e, por entre assobios múltiplos, dizer uma palavra irreproduzível, que a minha mãe desconfiava que, muito provavelmente, tivesse sido eu a ensinar-lhe. Tinha pouso próprio, cinzento a condizer, com cerca de um metro e meio de altura, onde coabitavam, na plataforma redonda que lhe encimava a haste vertical, a água, o girassol, o dendém e o poleiro. Devido ao facto de lhe cortarmos regularmente as asas, não possuía corrente que o castrasse à liberdade, gozando, assim, de total independência de movimentos. Caminhava, então, ordeira e tranquilamente, durante horas, pelo pátio e pelo chão da casa e, com a força do bico e o auxílio das patas, trepava por onde entendia, tendo uma predilecção natural pela palmeira do quintal. Em casa, revelava-se cuidadoso nas suas escaladas, mesmo quando o fazia pelos cortinados.

De bico temivelmente forte e tenaz, gostava de ser borrifado com água fresca nos dias de maior calor e, apesar de ser eu quem lhe actualizava o léxico, o «escolhido» foi, desde o início, o meu irmão, tendo, eventualmente, adoptado, para estabelecer a sua preferência afectiva, o critério da altura mínima. 

Dentre todas as suas numerosíssimas habilidades linguísticas, recordo uma que se lhe sobressaía admiravelmente: imitava, de forma irrepreensível, a voz da minha mãe. Lembro-me, aliás, que, várias vezes, estando o meu pai sentado no sofá castanho-escuro da sala, de óculos ligeiramente descaídos sobre o nariz e candidamente absorto nas suas leituras e congeminações, se levantava para ir ao quarto, julgando, de lá, ter sido chamado pela minha mãe. Ali chegado, deparava-se com o bicho, displicentemente, a subir pelo ferro forjado da cabeceira da cama, sem mais vivalma por perto – o papagaio pregara-lhe uma peça. Irritado, por ter sido iludido por 30 cm de penas cinzentas, no caminho de volta ao conforto do sofá, costumava remoer, de si para consigo, «O culpado sou eu, que o trouxe!» 

No entanto, passou a prevenir-se, entrincheirando-se para resistir ao ardil matreiro da semelhança entre a voz da minha mãe e o som emitido pelo papagaio. Assim, ao chamamento passou a exigir confirmação, – Luísa, és tu? Diz o que queres. 
Na ausência de resposta, deixava-se estar – tinha sido novamente o atrevido do bicho, mas, desta vez, falharam-lhe o gracejo e o embuste – o homem prevalecia sobre a ave. Acontecia, contudo, que, por vezes, a minha mãe, acto contínuo, na azáfama dos seus afazeres, saía por breves instantes de casa para o quintal, não lhe replicando de volta, pelo facto de não o ter ouvido, assomando-se à sala, poucos minutos depois 
– Olha lá, tu não me ouves chamar-te. Vem ajudar-me, se faz favor! 
Uma balbúrdia. 
À noite, para pernoitar, o «Jacó» recolhia-se cedo ao poleiro que, na circunstância, era colocado debaixo do alpendre onde se encontravam os matraquilhos, dormindo o papagaio, sem tombar, como o faz, dividindo o número de membros por dois, a estátua do cavalo de D. José ao Terreiro do Paço – com uma pata no ar.
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