terça-feira, 9 de outubro de 2012

A minha primeira bicicleta




Por Carlos Scarllaty

Vivi a minha infância e juventude, entre as Avenidas Novas de Lisboa e o Campo Grande, que era um lugar maravilhoso, um verdadeiro campo, muito grande e muito verde, às portas da cidade. O espaço era interrompido, apenas, pelos caminhos de terra batida para se chegar ao lago dos patos, ou mais acima, a um outro lago ainda maior, onde se podia andar de barco a remos. As casas eram confortáveis, espaçosas e os terrenos eram enormes, divididos por muros baixos. Mesmo defronte da casa da minha avó, havia uma quinta enorme, cheia de árvores de fruto, flores, plantas, hortas... E um moinho de vento que fazia sair a água do grande poço para as regas. Nesse tempo, as ruas de Lisboa ainda não eram todas asfaltadas, mas sim calçadas com paralelepípedos de granito. Longe do centro, por exemplo no Lumiar, Lisboa parecia um cidade da província. Um ótimo lugar para a infância.

Diante da casa da minha avó, na rua de Malpique, onde eu ficava durante o dia, passava o homem do “gelado fresquinho” que me fazia correr mal ouvia tocar a sua buzina de fole de borracha. Recordo também o amolador, com a sua gaita-de-beiços, anunciar que afiava facas e tesoiras, e o homem dos barquilhos e das bolachas de baunilha. Na mercearia defronte, havia rebuçados e guloseimas que faziam a alegria da miudagem.

E nós, as crianças, atravessávamos a infância numa animação de tantas brincadeiras. Os quintais enormes das casas, com quintas que rodeavam a “nossa” rua de árvores frondosas, criavam um ambiente de felicidade. A minha avó Maria (paterna) era o meu Anjo da Guarda. Não me dizia que não a nada, e deixava-me brincar à vontade até a minha mãe chegar para me levar para casa. Parecia que o dia terminava mais depressa. Foi desta forma feliz que vivi a minha prolongada infância até os 7 anos, época que jamais vou esquecer.

Não vou dizer que foi por aqui que nasceu o meu desejo por andar de bicicleta. Seria romântico se fosse assim. Não, foi na aldeia onde nasceu a minha mãe, na Beira Alta, onde íamos de férias todos anos, que um primo, mais velho, me ensinou andar de bicicleta. Nunca tive muito equilíbrio, mas andava bem nas descidas... e o facto é que depois destas experiências voltei para a cidade com vontade de ter a minha própria bicicleta. Com os meus pais entenderam que ainda não era altura de a ter, comecei a dar as primeiras pedaladas nas bicicletas dos amigos.

Mais tarde tive então uma só minha, e com ela vivi uma série de acidentes sem gravidade, e alguns bem engraçados, que marcaram a minha infância. Quando tinha seis anos, alto e magrinho, esbarrei de frente com uma "bicicletona" que uma senhora bem encorpada conduzia pelos caminhos que circundavam as quintas do hipódromo, onde hoje fica a Cidade Universitária. Foi um desastre! Caí no chão, cheio das pedrinhas soltas do cascalho, e esfolei um braço junto do cotovelo. Estava eu a falar com a mulher, ainda meio assustado sob o efeito da queda, quando percebi que a roda da frente da minha bicicleta se tinha entortado. Perante o sangue e a pele esfolada entrei em pânico, e fui a correr para casa da minha avó, a quem me queixei do acontecido num discurso revoltado, referindo-me à pobre senhora em tom furioso:
- Olha vó, o que aquela mulher gorda me fez? Aquela baleia que costuma passar aqui à nossa porta?”,
E choramingava. Estava sentado na cozinha, com a minha avó a prestar-me os "primeiros socorros", quando a dita senhora apareceu a pedir desculpas. Eu estava muito nervoso, e dizia:
- Foi essa mesmo! Foi essa baleia gorda que bateu na minha bicicleta nova!

Eu nem queria saber do ferimento que tinha no braço, de onde escorria sangue a valer. Importava-me sim, a bicicleta nova, que tinha pouco mais de uma semana nas minhas mãos. Coisas de criança nervosa, mimada, e de pelo na venta. Enquanto isso, a minha avó pedia desculpas pelo meu descontrole linguístico. Por fim, fui para o hospital, onde acabei por levar uns seis pontos no braço. O que não me fazia esquecer a roda torta da minha bicicleta. Essa recordação nunca terá fim. É eterna. Como eterna é a recordação dos beijos que recebi de minha avó e de minha mãe.

Lisboa, 08.10.2012

créditos da imagem: Pitux, em A bicicleta que ia atrás