sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Eu não sei escrever e pronto!!!!

Disse ela. E repetiu, com uma convicção inamovível:
- É que não sei mesmo e acabou-se.
A reação, nas Oficinas, foi mais ou menos esta:
- Como pode dizer que não sabe escrever se lê e comunica? Verbalmente é uma óptima comunicadora.
Mas estes e outros argumentos, a que todos os participantes emprestaram a sua lógica, esbarraram no muro de betão das certezas dela que acha que «falar», «ler» e «escrever» são coisas diferentes. Não são. Na raiz, não são. É tudo comunicar. O que separa uma coisa da outra? Barreiras de medo ou desinteresse. As mais das vezes, insegurança pura e simples. E, evidentemente, ausência de «Oficina», seja ela qual for, onde talentos que nos abençoarão, a uns mais do que a outros, se desenvolvem até à mestria. Nesse capítulo ou nesse destino, trabalho de vida inteira e mais que fosse.

Acontece porém que os primeiros passos são garantidamente deliciosos e estimulantes. Manusear a Palavra é algo de mágico e, simultâneamente, de muito infantil. É brincadeira no sentido mais transcendente da palavra, pois é a brincar - coisa por demais séria - que a criança aprende tudo o que importa. E há conquistas deslumbrantes que recordamos para sempre. Como quando aprendemos a nadar ou a andar de bicicleta ou a vencer o medo do cavalo nos primeiros trotes do volteio.

A não ser assim, porque se teria ela dado ao trabalho de se inscrever e frequentar uma Oficina de escrita? É que ela querer... até queria. Mas sabia que «não sou capaz e pronto». Por fim, depois de outras coisas que falámos e pusemos em prática e que seria fastidioso enunciar, ela agarrou numa folha de papel, numa caneta, e, praticamente deitada sobre a mesa grande, desatou a escrever. Escreveu, escreveu e escreveu. No fim disse:
- Pronto, já está. Mas não vou mostrar a ninguém!

Ninguém lho pediu. A Oficina continuou a decorrer, num cruzamento de palavras soltas, caçadas em suporte ou lançadas pelo ar da conversa até que ela estendeu o papel coberto de palavras, dizendo que não se importava de partilhar connosco aquele texto que foi lido em voz alta.

Da memória da sua infância, ela acabara de resgatar uma história que nos conquistou a todos. A minha vida dá um livro espera colocar muito brevemente aqui esse delicioso registo.