quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Os Doze Trabalhos do escritor

As principais dificuldades com que nos deparamos na escrita de ficção, aquela que nos arranca da zona de conforto e nos confronta com realidades apenas sonhadas, é a necessidade de moldes seguros para suportar a sua estrutura narrativa. A outra, é, eventualmente, a avalanche de informações mal fundamentadas. Por exemplo, se o desafio chama das bandas da ficção cientifica, ou das profundezas dos mitos clássicos, há que arranjar alicerces, pilares e traves mestras onde a história se arrime para crescer sólida e lógica, mesmo que a sua lógica seja a do absurdo.

Não vale invocarmos figuras, sejam elas de reis, rainhas, heróis da Grécia Antiga, ou cidades do futuro se não conhecermos absolutamente nada, ou muito pouco, dos seus referenciais. Porquê? Porque muitos os conhecem e irão detectar as fragilidades e as fissuras do nosso edifício literário. Mas, e muito mais importante do que isso - por nós próprios. Pelo respeito que nos devemos.
 
Hércules e a Hidra, detalhe
Antonio del Pollaiolo (ca. 1432-1498), pintor Renascimento Italiano
      

O que fazer? Se o nosso personagem é um soberano ibérico do século XVII, ou uma rainha de contos de fadas, ou Hércules antes, depois ou durante os seus Doze Trabalhos, há que ir atrás deles para saber o que pudermos saber a seu respeito. Até à intimidade. O mesmo vale para um personagem inventado por nós.

Dá tanto trabalho!!!Pois dá. Nunca irão ouvir dizer o contrário. Aqui pelo menos. A literatura não é um pomar carregado de frutos sob o qual alguns privilegiados passeiam displicentes, enquanto das árvores lhes caiem nos braços folhas e folhas e folhas escritas com os livros que vão dar ao prelo. Pensem antes num território todo por desbravar. Cheio de potencialidades mas... tudo por fazer. Estradas, caminhos, encontros e desencontros, cidades, navios - tudo. E tudo por conhecer: que pessoas são aquelas que vêm ano nosso encontro? O que vestem, como falam, o que pensam, o que desejam para as suas próprias e ficcionadas existências?

E tudo de novo, uma vez e outra, de cada vez que se começa. Agora esqueçam o cansaço, o trabalho todo, e pensem: que maravilha!! E rejubilem. Desbravar mundos, não é para qualquer um