domingo, 26 de janeiro de 2014

Do outro lado do espelho

De Eugénia Sales, três textos poéticos e intensos, produzidos no contexto da nossa oficina de ficção, Universos Paralelos, que remetem para  uma viagem de alma, um cruzar de destinos, um voo. MG.


Espelho da Purificação


 

Sou cega. Olho-me. E o espelho vê-me.
Sou grande. Do tamanho das pessoas grandes que de mim se aproximam à procura da ajuda ou do descanso para desembaraçar os nós de suas vidas.

Sou pequena. Como as pessoas pequeninas que cirandam constantemente em meu redor, gritando “Mestra, mestra!”.

Sou leve e sobrevoo. Pelos canteiros desenhados do jardim, frente à nossa velha casa. Quando poiso, os dedos vagueiam agilmente pelos caules, pelas folhas, pelas flores e pela terra, exorcizando as ameaçadoras ervas daninhas. “Tem o jardim mais bonito da aldeia!” – dizem. Vaidade? Não a sinto e o espelho não a vê. Gratidão e um profundo bem-estar transpiram de mim. “Dá trabalho, este jardim”, respondo.
Sou melodia, que a vida compõe com os anos – ora sino de igreja, ora riso e palmas - mas sempre em tons de aguarela. Sou o aroma que exala das pequenas tigelas de compota acabada de fazer, que arrefecem na janela, e o cheiro que o frio traz, misturado com o fumo da caruma. Sou a carícia firme, dos que de mim precisem. E a aliança com a Vida, trago-a no dedo.

E sou a trança! Comprida e, dizem, há muito branca, que se solta de manhã para entrançar, fresca de novo, num bailado singelo mas confiante.

A minha alma está cheia. E o espelho devolve-me os olhos, repletos de vida.

 Dez/2013


 

Do outro lado do espelho


Os altos portões deste convento abrem-se e solta-se um soluço companheiro. Sou livre e viajo. Vou!

E vou e vou…

Vou longe, vou perto, vou ao norte e vou para sul, vou à Índia e vou ao fim do meu quintal.

Caminho, e no meu caminhar passo para lá da grande figueira, que alcanço e ultrapasso para escapar aos prazeres que me perseguem.

Procuro Prazer Maior, busco algo que está para além do horizonte daquilo que se vê ou daquilo que se sabe.

Vou. Abro os braços, seco as lágrimas, limpo feridas, dou meu colo e enxoto os vendilhões.

Vou e das ruas faço casa, das praças meu regaço e dos jardins oração. E vou de novo. Não tem fim esta viagem… Levo apenas esta trança, cordão umbilical que sempre me traz de volta.
E a Índia, fica lá, no fim do meu quintal.
Lisboa, Dezembro 2013




Para cá e para lá do Espelho

Aqui me encontro, trespassada mas inteira. Sinto-me, penso-me e… vejo-me!
Não há luz, não há escuro; não há espelhos ou janelas; não há sol nem fim de tarde.
Há risos e lágrimas, há soluços e abraços. E sempre, sempre, um calor dentro do peito.
Sou grata. Sou feliz.
E ganho a eternidade!

Eugénia Sales, Janeiro, 2014