quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O meu ‘Bilhete de Identidade’ fui eu que o criei


Por Carlos Scarllaty

É único. Intransmissível. Ou não será? Poderemos ter mais do que um ‘bilhete de identidade’? Assumo a provocação: é "proibido", mas podemos. Aquele que nos é atribuído, e aquele ‘outro’ que construímos. E um pode não ter nada a ver com o outro. Poderemos ter duas identidades? Podemos. E sem sermos loucos. A oficial, atribuída pela lei. E a real, fruto da aprendizagem e vivência de cada um de nós.

O meu BI, em papel plastificado, não tem nada a ver com o meu BI, formato genético e expressão da minha singularidade. Tenho um nome que não foi escolhido por mim; uma altura enorme nada a condizer com a realidade; uma cor de olhos que entretanto desbotou; e uma idade errada que não reflete a minha realidade emocional e mental. O meu BI de papel, no seu laconismo redutor, só está certo juridicamente. Pessoalmente acho que é um “bluf”! Não é eu.

Do latim identĭtas, a identidade é o conjunto de características e traços próprios de um indivíduo (ou de uma comunidade). Esses traços caracterizam o sujeito ou a coletividade perante os outros. Por exemplo: “a Francesinha faz parte da identidade portuense”; “os carapaus alimados têm a ver com a cultura gastronómica algarvia”; “os figos secos com a Costa Mediterrânica”. E por aí fora. Identidades genuínas, gastronómicas, culturais, verídicas.

Uma pessoa tem de primeiro conhecer o seu passado para defender a sua identidade. Que criou e aperfeiçoou. Com que se realizou. Embora muitos dos traços que constituem a “nossa” identidade possam ser hereditários ou inatos, esta é também a consciência que cada um tem de si próprio, e que nos torna diferentes uns dos outros. Porém, o meio envolvente exerce sempre influência sobre a especificidade de cada indivíduo. Por isso, se costuma dizer que uma tal pessoa “anda em busca da sua identidade”, ou expressões semelhantes.

Neste sentido, a ideia de identidade está associada a uma realidade interior que pode ficar oculta atrás de atitudes ou comportamentos que não são próprios da “nossa” pessoa: “Coloquei de parte a minha identidade, e comecei a aceitar trabalhos que não me agradavam, e que não têm nada a ver comigo”. Em suma: luto pela sobrevivência trabalhando, e prostituo-me psicologicamente. E finalmente temos o conceito de identidade de género, que se prende com o autoconceito sobre a sua sexualidade, e o género para que deseje desenvolver a sua vida social. A noção vincula a dimensão biológica do ser humano, tal como o aspeto cultural e a liberdade de escolha. 

O meu BI oficial atribui-me um nome. Mas devia ser eu próprio a escolher o meu nome. Por exemplo, Joachim Bonaparte de Mediccis! Sentia-me muito melhor. A minha altura é acima da média, mas grandes, grandes foram Mandela, Gandhi, Martin Luther King, Bob Marley, Brechet, Pessoa, Confúcio, Galileu, Camões... e tantos, tantos outros. Enormes. Comparados com estes, não passo de um pigmeu. E na idade? Bem, nisso então é melhor nem referir o que penso. Tenho somente 30 anos. No papel plastificado estão 30 anos a mais que o meu cérebro recusa. Uma injustiça este 'Bilhete de Identidade' que me foi atribuído! 

E os meus sonhos e fantasias, onde estão eles no BI oficial? E a minha história de vida? E a consciência de mim próprio que me torna, que nos torna únicos? 

Partindo do pressuposto que a obra de arte se consagra graças ao princípio da nossa identidade, o meu ‘Bilhete de Identidade’ fui eu que o criei. O ‘outro’, esse só serve para pagar multas!
 
Guida Scarllaty em grande plano, 2012
Lisboa, 2012, 25/Set.