quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Bilhete de identidade [ATÉ AOS 2 ANOS]


Por José Saraiva Augusto

Nasci, inesperado, quando começou o Outono no hemisfério norte.
No meio de uma azáfama esbaforida de suores, gemidos e palpitações, o Elemento cumpriu os Seus desígnios e foi pela serenidade de um entardecer dos fins de Setembro, com os últimos raios de sol a espreitar pelo vidro das janelas e languidamente espreguiçados sobre o chão, que terminou a primeira gravidez da minha mãe e o mundo acolheu os meus primeiros sinais de vida: sexo masculino, três quilos e seiscentos, cinquenta e um centímetros, pouco cabelo, virgem pelo Zodíaco e dragão pelo horóscopo chinês.

Nessa terça-feira, visado pela Censura, o Diário de Lisboa dava os parabéns ao Diário Popular, na pessoa do seu «ilustre director», Sr. Prof. Martinho Nobre de Melo, pelo facto de, casando os anos, completar 22 primaveras de existência. Nesse mesmo dia, a Declaração de Diário da República 223/64, primeira série, publicava, na página 1380, a aprovação do regime de preços e comércio de adubos a vigorar na campanha agrícola subsequente. Faltavam 100 dias para terminar o ano de 1964.
À altura do parto, o meu pai, o tio Hermínio e o Sr. Libório, incontactáveis e desconhecedores do afã da acção natalícia, calcorreavam, madrugadores e sequiosos, os montes e vales da Serra de Sintra, empenhados noutra actividade não menos apaixo-nada e extenuante – atiravam às rolas. O trio, na ausência dos voos da passarada, proporcionava descanso ao corpo e repouso à alma, chegando umas dentadas ao toucinho e uns goles ao tinto carrascão, ambos cuidadosamente transportados nos alforges.

Estranhamente, foi apenas depois de eu ter nascido, que os meus pais se decidiram preocupar com o meu nome. Aparentemente, a questão administrativa do recenseamento dos nascimentos nas Conservatórias do Registo Civil, afigurava-se-lhes de somenos importância, quase se equivalendo à previsão do tempo para o dia seguinte – «amanhã logo se vê». Porém, o amanhã chegou e resolveram chamar-me «José», nome de origem hebraica [Yosef] que, biblicamente, significa «aquele que acrescenta». E, ao que parece, «acrescentei» com propriedade – choro abundante ao lar, preocupações à cerviz da minha mãe, olheiras delatoras ao rosto do meu pai e noites pequenas para todos.

O meu nome, não obstante a sua responsabilidade bíblica, é, na sua génese, pequeno e desinteressante. Com efeito, atente-se, por exemplo, na galhardia e airosidade ufanas dos «Albuquerques», «Bartolomeus», «Cristóvãos», «Damascenos» e «Estanislaus», e isto só para falar das cinco primeiras letras do alfabeto. Já no «jota» que se lhe associa, os «Jerónimos», os «Joscelinos» e até os «Justinianos», arrasam-no de cima a baixo. Um desastre completo. Quanto aos apelidos de família, também não fui especialmente acarinhado pela condescendência do Éter, tendo sido liminarmente excluído dos «Abranches», dos «Albernazes», dos «Alcoforados», dos «Alvarengas» e dos «Aragãos», não me atrevendo sequer a passar à letra B. De qualquer forma, nem que seja por cortesia ao parentesco, não fica bem desconsiderar as opções dos denodados progenitores e, portanto, quanto ao meu primeiro nome, «José» foste, «José» és e, provavelmente, «José» continuarás a ser.

Passei, então, os meus três primeiros dias de vida no edifício do antigo Colégio de Santo Antão, mais tarde convertido no Hospital Real de São José e, em Maio de 1932, inaugurado como a Maternidade Alfredo da Costa, cunhando-me, no Bilhete de Identidade, a naturalidade em Lisboa, na freguesia de São Sebastião da Pedreira. No dia 25 de Setembro, ainda antes da hora do almoço, cruzei pela primeira vez a ombreira da porta e entrei na casa onde viria a viver até aos 4 anos de idade.

O apartamento onde os meus pais habitavam era amplo e arejado. Um rés-do-chão esquerdo na Pontinha, num prédio verde de três andares, com escadas em mármore malhado, quase contíguo a um velho barracão, ocupado por uma associação de moradores que já ninguém se lembra do nome. À nossa frente, morava, sozinho, o Sr. Luís, homem bonacheirão, calvo e de perfil farto, a quem a vizinhança teimava em apelidar de sovina e mentiroso. Por cima de nós, no 1.º esquerdo, vivia a D. Chica, viúva, consumida e muito pouco conversadora, estando, no 1.º direito, o Sr. Mendonça e a D. Alzira, um casal sem filhos. Ele, funcionário público, mediano, franzino e ligeiramente encurvado, com o cabelo já grisalho nas têmporas; ela, alta e robusta, gozando da reputação de servidora de Deus e de excelente doceira. Os 4 apartamentos, correspondentes, aos segundo e terceiro andares, estavam vagos, pertencendo alegadamente a «um senhor que vivia em França». Eu era, portanto, a única criança no prédio, para o desafortunado desassossego dos vizinhos.

Apesar de conseguir, desde cedo, ficar sentado com muito aprumo, comecei a gatinhar relativamente tarde e foi apenas por volta dos 14 meses que aconteceu o que a minha mãe temia – comecei a andar. A partir daí, o caos e aleatoriedade das minhas «caminhadas», implicaram severas medidas de limitação dos meus movimentos e de «protecção física» em geral: as esquinas dos móveis foram forradas, as tomadas de electricidade tapadas, a proximidade do fogão e das grades espaçadas da varanda, proibidas, as facas, os talheres em geral, copos, pratos e outros vidros, escondidos e colocados um metro acima da minha cabeça, num esforço hercúleo para conter a minha irrequieta curiosidade infantil e a rapidez com que conseguir alcançar as coisas às distâncias mais improváveis. Crescia e rabiscava, com alegria e despreocupação, partilhando com os meus pais apenas a primeira das duas.

Com cerca de um ano e meio, já combinava palavras e gestos, esvaziava recipientes com água, imitava as pessoas, andava para trás e comia com as mãos. Aos 2 anos, para descanso da minha mãe, e dos vizinhos em geral, entretinha-me longamente, sentado na sala, a palrar e a desfolhar livros coloridos e a brincar com o abecedário de cubos de madeira, que o meu pai me tinha oferecido. Tinha muitos brinquedos e a morna calidez do dia pressagiava mais uma tarde calma e tranquila, não fora chegada ruidosa e imprevista de um funcionário dos Correios com um telegrama urgente. Corria o dia 2 de Dezembro de 1966, sexta-feira