quinta-feira, 1 de maio de 2014

Alma Gémea

De Ana de Sienna, o extracto de um magnifico conto, «Alma Gémea», que nos leva ao universo das escolhas que determinam as nossas vidas. Uma mulher, as suas memórias, um espelho, a solidão, o sonho e uma promessa. E uma inspiradora lição de vida, porque disso se trata. MG.


'É um espelho alto, cheio de detalhes preciosos: talha dourada, flores pequeninas enganchadas em tronquinhos retorcidos, mimosos. É uma peça do séc. XVIII, italiana.' [foto A.S.} 


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Neste quarto, e com este espelho por testemunha, vivi todos os anos do meu casamento. O que ele sabe e não conta dava um livro. Um livro que posso abrir ou não. Um dia, talvez olhe para ele e não me veja só a mim, como agora, mas consiga ver mais além, para o passado e, quem sabe, para o futuro. O que vejo agora é uma mulher de quarenta anos, bem conservada. Bonita, de feições agradáveis mas vincadas pela vida. Pelas emoções vividas, boas e más. Algumas muito más. Algumas boas e poucas muito boas.

Olho-me no espelho e vejo uns olhos. Grandes, verdes, bem desenhados, mas tristes. Tristes, porque é assim que me sinto hoje. O cabelo é preto, comprido e desgrenhado. Não tive ânimo para o arranjar e agora, para além de triste, sinto-me feia.

Não faz mal, penso, porque todos me dizem que sou bonita! Sim, mas podia estar melhor, se tivesse arranjado o cabelo, penso em seguida. Amanhã tenho uma reunião importante e não posso apresentar-me assim. Tenho de conseguir tempo e vontade para ir arranjar o cabelo.

Não me quero ver mais ao espelho, hoje. Amanhã, vou mesmo ao cabeleireiro!
[...]


 
Ana de Sienna, Lisboa, 18.03.2014