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quinta-feira, 15 de maio de 2014

A graça de ser Maria

A Ana, ou a Maria Ana, passou rapidamente a «Anita» durante as oficinas. Mas a sua esplêndida juventude não lhe retira um átimo à força das suas narrativas. Foi lindo ver como os seus textos cresciam, encantando-nos pela intensidade, emoção e frescura. Aqui fica uma amostra. MG



A graça de ser Maria

O meu pai conta em jeito de brincadeira que sou tão teimosa que troquei as voltas a toda a gente. Diz que fez as contas de forma a eu nascer no seu dia de aniversário e queria muito que fosse um «Zé». Eu não fiz a vontade a ninguém, nascendo Maria e quinze dias antes, sendo a rainha da teimosia desde que fui gerada.

A escolha do meu nome não foi um processo linear. À medida que a gravidez ia avançado, as incertezas não davam lugar às decisões e não havia maneira de ter um nome. Primeiro pensaram em Ana Luísa, nome com tradição familiar, mas depois diziam que fazia lembrar a tia chata e que não podia ser. Depois Anísabel, um rasgo de criatividade dos meus pais que agradeço por não ter sido levado avante. Joana também foi opção, mas a semelhança com o nome do meu irmão eram demasiado evidente e não queriam que carregasse esse peso.

Mas no meio de tantas dúvidas, o meu nome foi escolhido da forma mais engraçada que poderia haver. Após terminar a escritura de uma sociedade, a minha mãe e a sua sócia caminhavam lado a lado e esta pergunta-lhe:

Já têm nome para a bebé?

Não… disse a minha mãe, revelando que a escolha não estava a ser fácil.

Gostava muito de ser a madrinha.

A minha mãe sorriu e disse:

Mas eu não vou batizar a menina. O pai quer muito que esta possa escolher a sua orientação religiosa quando for mais crescida.

Não faz mal, serei uma madrinha de Registo – respondeu a sócia, continuando – Maria Ana é um nome lindo, não acha?

Com 20 anos pergunto-me: imaginar-me-ia com outro nome? De todo! Adoro-o e acho que nenhum seria tão perfeito para mim. Dá-me o privilégio de me adaptar às circunstâncias. Como costumo dizer, tenho quatro nomes: Maria para a maioria das pessoas que me conhecem; Ana para quando a minha mãe me chama à atenção; Maria Ana para situações mais formais e nome sonante numa vida profissional e por último mas não menos importante Anita, diminutivo criado pelo meu pai quando ainda era muito pequena, pelas semelhanças com a menina das histórias.
O nome é aquilo que nos distingue e nos caracteriza. Maria Ana não é um nome muito comum e isso faz-me gostar dele. Sempre o associei às princesas e rainhas, lembrando-me da Maria Ana da Áustria, casada com D. João V, Rei de Portugal. A minha mãe reforça a ideia que o nome me encaixa na perfeição porque sou um «narizinho empinado» que nasceu para dar ordens e não para obedecer!
Muita gente me pergunta: porque não Mariana ou Ana Maria? Não era mais fácil de lembrar ou pronunciar? Possivelmente até seria. Mas a graça das coisas da vida está na irreverência, na ausência de comparação e na singularidade e é sempre tão bom quando achamos que nosso nome tem graça.
 

 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O incandescente mantra

Texto arrebatador, de um erotismo poético, assinado por Eugénia Sales que insiste em escrever «não consigo!». Mas nós, que a lemos, percebemos perfeitamente que consegue. MG.

Gustav Klimt (1862-1918), Le Baiser
 
Não consigo! Não consigo escrever! Dizes para “sentir” que “as coisas acabam por fluir”. E o pensamento voa de imediato para o sentir. Só que é para o sentir dos teus beijos na minha cara, nos meus ombros, no meu pescoço, nos meus lábios, nas voltas das nossas línguas.
Tento, juro que tento. Mas por mais que o faça, é para lá que volto sempre. Para o teu olhar. O teu olhar em mim. Esse olhar que me percorre o corpo todo e que me penetra a alma. Esse olhar, presente e inabalável, que espelha, seguro, este amor antigo, que te enraíza e te eleva. E volto para os teus lábios que sussurram, naquele murmúrio cantado que nos embala nesta nossa viagem. As mãos entrelaçam-se e os corpos estremecem.
Não consigo escrever. Só lembrar!

E as imagens sucedem-se e a perplexidade e o maravilhamento vão tomando conta de mim... Como é que o fogo pode ser brando e refrescante; como é que a candura pode ser tão pujante e viril; como é que a intensidade pode ser leve e o mantra incandescente? Como pode um peito tão cheio e arrebatado, deixar um sorriso indizível escapar dos teus lábios e fixar-se no teu olhar? Como podem as tuas mãos, tão ágeis e vorazes, tecerem este manto de seda que me envolve a pele e de que os teus dedos são hábeis artesãos? Como pode o ferro ser veludo? Como pode o Céu estar na Terra e a Terra toda em mim?
Meu amor! Serena essa alma ávida e aflita. Porque o meu corpo reclama a tua boca e a minha alma aspira ao nó que nos une e se vai entrelaçando nesta valsa lenta mas eterna.

E não consigo, não consigo escrever.

Eugénia Sales, Lisboa, Fevereiro 2014

domingo, 20 de abril de 2014

Uma menina chamada Alda

Extracto de um dos textos de Alda Rosa, que se junta às outras narrativas que compõem o 2º livro das nossas Oficinas de Escrita. Delicioso! MG



[...]
 
Sete anos. Vamos fazer uma luta de índios e cowboys. Dividimo-nos em dois grupos. Cada um de nós tem vários bonecos de plástico que escondemos nos canteiros e vasos dos quintais das redondezas, para grande fúria das porteiras, pois deixamos sempre algumas flores destruídas. Ganha o grupo que encontrar mais bonecos do inimigo. É sempre muito divertido.

Oito anos. Encontrámos um novo divertimento. Subir um candeeiro de electricidade junto a um muro que tem cerca de três metros de altura, depois fazemos uma corrida ao longo do muro, que tem um rebordo com alguns centímetros e depois descemos pelo candeeiro que se encontra na outra ponta. É uma brincadeira um pouco arriscada, mas nós divertimo-nos imenso. Eu sou a única menina, mas fico sempre entre os primeiros.
[...]
 
Alda Rosa, Lisboa, Março, 2014

terça-feira, 15 de abril de 2014

Lembras-te, Pai?

Da coletânea de textos de Alda Rosa, ficção e autobiografia, que vão figurar no próximo livro das nossas oficinas, destacamos este testemunho pungente. Uma muito bela e muito tocante homenagem ao seu pai. MG
 

Lembras-te paizinho, do triciclo que me compraste quando eu tinha dois anos e que eu parti naquela aventura de querer andar de marcha atrás? Tu, habilmente, reconstruíste a minha máquina e eu pude continuar a brincar com ela. E recordas-te de quando íamos de férias para a aldeia e corrias comigo pelo campo, ensinando-me a conhecer, pelo nome, todas as árvores e arbustos? Transmitias-me tanta confiança, que aprendi contigo a não ter medo de alguns animais, como cobras, ratos e lagartos... Depois, quando dei as primeiras braçadas na água gélida das piscinas naturais do Agroal, tão pequenina que perdia facilmente o pé, não sentia receio, porque estavas sempre ao meu lado.
 
À noite, chegavas a casa com o Diário de Notícias e eu pegava nele, acocorava-me a um canto da cozinha, e colocava-o no chão para o ler de trás para diante. Este é um hábito que mantenho até aos dias de hoje, com jornais e revistas.
 
Como eu gostava do escritório onde trabalhavas, na rua da Glória! Desde os dez anos, sempre que não tinha aulas, levavas-me para lá, contigo. Recordo aquela casa enorme, com uma sala que era o centro da minha fantasia. Nesse espaço, colocavas as colecções de roupa feminina que recebias da fábrica do Porto e separavas as peças que posteriormente eram distribuídas pelas boutiques de Lisboa. Em cada mudança de estação, lá estava eu a experimentar vestidos, saias, blusas. Tu até deixavas que eu usasse alfinetes para os ajustar ao meu corpo. Depois, fazia um desfile. Eras o único espectador, e eu a única modelo, mas divertíamo-nos muito. Um dia, ensinaste-me a dactilografar, e eu sentia-me tão orgulhosa por escrever as minhas redacções naquela máquina preta, que produzia música de cada vez que se teclava numa letra.
 
Continuas tão presente na minha vida… Recordas-te das nossas idas à Ervanária Rosil, na rua da Madalena, plena de uma enorme variedade de perfumes que vinham de todas as ervas medicinais lá existentes, que serviam para as mais variadas mezinhas? Eras um grande apologista da utilização de infusões ou pomadas para tratar algumas das nossas maleitas. Só me faziam impressão as sanguessugas, (que também tínhamos em casa), porque receava que um pedaço do meu corpo fosse sugado para dentro daqueles frascos.
 
Sabes?, as nossas conversas ainda hoje me alimentam. Apesar de só teres concluído o curso comercial, sempre foste um homem ávido pelo conhecimento. Quanto tempo passámos a falar de livros! Foi contigo que conheci autores como Miguel Torga, Soeiro Pereira Gomes, Eça de Queiroz, Júlio Verne, Vítor Hugo e tantos outros. Então, foi aquela noite de 29 de Novembro de 1978, em que eu estava muito feliz, pois tinha acabado de saber que tinha vaga no curso de Medicina. Mostraste-te satisfeito, mas também preocupado, referindo que não sabias se ias ter força para me ajudar a alcançar este meu desejo. Fiquei desapontada e incrédula. Porque não havias de ter força? Tu eras o meu super-homem, nada de mal te poderia acontecer! Como poderias estar a adivinhar a catástrofe que caiu sobre nós, três dias depois?
 
Lembras-te, Pai?

 
Alda Rosa, Lisboa, 30 de Março de 2014

 
 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

E isso é que é sedutor

Na última aula, pedi: «apresentem-se de uma forma sedutora», no arranque da escrita de uma pequena história de vida para «a minha vida dá um livro». A M. Eugénia manifestou a sua perplexidade e fundamentou-a. Estava cheia, coberta de razão.


Charles Dickens, Oliver Twist (1837)

Mas em escrita, quando falo de 'sedução' invoco outros patamares. Não são os nossos pseudo-triunfos, as nossas medalhas de bom comportamento social, ou forma mais ou menos adequada como nos inserimos, desde muito pequenos, no espaço emocional e afectivo que nos coube em destino: nada disso, se for só isso,suscitará empatias, mas sim as nossas perplexidades, falhas, medos, anseios e sonhos, e quedas. Tudo, o que nos torna realmente humanos e que é tudo o que todos temos em comum.

Isso é que é sedutor.

Não se trata de fazer o apelo à «desgraça», hoje em dia tão banalizada ao serviço da comunicação de entretenimento fácil. É o modo com enfrentamos o caminho, as pedras em que tropeçamos e os montes que subimos, e o que vamos fazendo até conseguir ir ver o Mar. É o caminho e a forma como caminhamos, corremos, caímos, levantando-nos uma vez e outra, voando por vezes, que importa. E o caminho é sempre irregular e assombroso, no segredo das nossas vivências. Conseguirmos partilhá-lo, em primeiro lugar, é arranjarmos muita iluminação extra para nós próprios. Inevitavelmente, a luz espalha-se.

E isso é que é sedutor. 

 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A vida dele e delas já é um livro!!

Uma maravilhosa celebração. Com duas ausências de peso: o nosso querido José Saraiva, que está noutro continente na vizinhança dos trópicos, e a nossa querida Sónia Alves que está noutro país nas proximidades do Pólo Norte.
Foram recordados com todo o carinho. E estiveram assim connosco à distância, porque como dizia alguém 'não é preciso estar-se junto para ser-se perto'.
Quem terá sido?
Aqui ficam imagens da festa!! E da sala cheia!!!  
 















para ver o álbum completo no facebook : Oficinas de Escrita/A minha vida dá um livro

sábado, 7 de dezembro de 2013

A vida deles já deu um livro

Um punhado de novos autores revelou-se ao longo das nossas últimas oficinas de escrita. Muito empenho, alegria e generosidade, algum sobressalto, um pouco de receio mas.. o trabalho sério e apaixonado de todos deu frutos. O livro A minha vida dá um livro. A capa e a introdução desta obra antológica são testemunho. O lançamento da obra, na presença de amigos e familiares vai ser anunciado nos próximos dias e irá decorrer nas instalações da livraria Alêtheia, à rua do Século. Muito a propósito, uma antiga padaria pois... nem só de pão vive o homem.

 
 
 
 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O fantasma de Laika

Há uns tempos um artista plástico resolveu usar o meu rosto numa das suas composições. Fê-lo em segredo e depois enviou-me a fotografia do quadro
- Reconheces? – perguntou.
Fiquei perplexa, não tanto por ver o meu rosto naquela obra sua, mas pelo significado que ela me transmitia. «Como pode ele saber?» pensei. No meio daquela composição e talvez imperceptível a muita gente, eu não conseguia tirar os olhos de um olho que me fitava. Ei-lo! Só me aparecia em sonhos, ou melhor, em pesadelos, mas agora estava ali, acusatório e perdido. Aquele olhar que me perseguia desde sempre e fazia tão parte do meu ser que já não imaginava a minha vida sem ele.

Não sei bem como veio ali parar, possivelmente alguém a abandonou, ou então, perdeu-se de casa. Rondava a rua para baixo e para cima, e dormia à entrada das portas dos prédios. Era preta e branca, ou branca e preta, pois tinha umas manchas pretas que lhe adornavam o corpo. Tinha também os olhos mais meigos que alguma vez me tinham olhado. Um dia fiz-lhe uma festa, e aquele ser aninhou se aos meus pés de criança. Já não devia ser muito nova mas também duvido que fosse muito velha, devia portanto estar na meia-idade dos cães. Segundo a minha avó, notava-se que tinha sido mãe, o peito saliente e descaído era sinal disso mesmo, e, pobrezinha, estava sozinha.
– Oh pudemos ficar com ela? Perguntei eu ansiosa.-
– Não! – responderam me. – Está fora de questão, vamos mudar de casa e os novos senhorios não querem animais.
Não ficaram com ela, mas baptizaram-na de Laika.
– Laika! – chamava o meu pai quando a noite saia.

Alimentava-a e depois ela seguia-o até ao café. Ficava cá fora, à espera, enquanto ele lia o jornal e depois seguia-o até casa. Ele subia a escada e ela ficava em baixo aninhada, a dormir. Ele achava-lhe piada creio. Dizia:
– Parece uma pessoa, de tão esperta!
Mas nada fez para lhe procurar dono, ou pelo menos foi essa a ideia com que fiquei.
Estávamos de mudança. Eu, da varanda de um segundo andar, observava os homens que faziam todo aquele ritual de ir e vir carregando caixas e móveis. Carregavam as nossas coisas para a carrinha que me parecia enorme e estava estacionada à porta de casa. Não me apetecia nada mudar de casa e de cidade, mas lá teria de ser. Laika também observava.
Já era noite quando entramos todos no carro. E o animal também queria vir.
– Oh não! Ela vai correr atrás do carro – disse o meu pai.
Então, Laika entrou e aninhou-se aos meus pés, no banco de trás.
– Por que a deixas-te entrar se não a vamos levar? – perguntou a mãe.

Eu devia de ter uns cinco anos, pois sei que foi com essa idade que mudamos daquela casa, e o meu coração batia muito forte de nervosismo e antecipação, como se houvesse uma luz de esperança que Laika ficasse connosco. Não me lembro o que o meu pai respondeu, só me recordo que uns metros a frente o carro parou e ele convidou-a a sair.
– Porquê, papá? Onde é que ela vai?
– Está ali um amigo meu que vai ficar com ela. Nós não pudemos, ela é muito querida e tal e eu também queria muito... mas a vida... ahh a vida nem sempre é como queremos, tu não entendes ainda, mas um dia vais entender.
Laika saiu então do carro e eu olhei em redor aflita.
– Mas eu não estou a ver ninguém a chamá-la, as pessoas passam e ninguém a chama! Papá! Oh não! Laika! Laika! – e desatei a chorar!
O carro começou a andar e Laika ficou para traz.
– Sónia, não chores, assim como eu gostei dela alguém mais irá gostar, esta cadela parece uma pessoa de tão esperta... mas nós... nós não podemos ficar com ela.
Laika ficou para trás, os seus olhos meigos e perdidos olhando o carro. Eu olhava-a a chorar enquanto o carro se afastava. Sentia-me mal, muito mal. Como podia eu admitir uma coisa daquelas?

 


– Chama se Laika em memória da primeira cadela que foi à Lua! – explicou-me.
– Foi à Lua papá? Sozinha? Deixaram a cadelinha sozinha ir à lua?
– Deixaram claro, em nome da ciência! Era a primeira vez, não podiam ainda enviar um homem ou uma mulher, pois não havia garantias que regressassem a Terra!
– E a Laika voltou? – perguntei ansiosa.
Fez-se um silêncio, como se ele estivesse talvez a ponderar se havia ou não de poupar a criança àquela verdade.
– Não! – respondeu o meu pai. – A Laika ficou em órbitra no espaço, nunca mais voltou!
Tal e qual a da minha infância. Que nome tão maldito fora escolhido para o animal. Eu ansiava que alguém mais tarde lhe tivesse dado outro nome que não Laika, algum com melhor presságio. Ainda hoje, quando conheço um animal com esse nome sinto um misto de arrepio e ternura, mas na verdade esta recordação perdeu-se e só há uns quatro anos irrompeu pelas brumas, qual D Sebastião numa eternidade de nevoeiro que um dia reaparece, trazendo as Laikas da minha infância à deriva no espaço da minha memória

Sónia Alves, Estocolmo, Setembro/Outubro 2013


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Chamo-me Clara mas queria ter sido Teresa

O 'Bilhete de identidade' da Clara, num registo encantador. Continuamos assim a publicar textos da anterior oficina, e a preparar o livro antológico dos participantes.
 

Nasci no dia 24 de abril há muitos anos atrás, no seio de uma família que sempre acreditei não ser a minha. Chamo-me Clara, mas sempre achei que o meu nome deveria ser Teresa, motivo pelo qual, nas minhas brincadeiras de faz de conta com as minhas amiguinhas, as obrigava a chamarem-me como tal. Sou a mais nova de três irmãos e sou a única rapariga. Os meus pais, pessoas maravilhosas, nunca foram dados a grandes manifestações de afectos. O seu amor por nós, de que não tenho dúvidas, era assim ocultado por uma teia de gestos convencionais e muita secura.  

O meu irmão mais velho era um rapaz muito acertadinho, excelente aluno, sempre no quadro de honra, o que fazia o meu pai, professor catedrático de agronomia, exultar de orgulho. Cresceu assim, sempre muito estudioso, tímido e bem comportado. O meu outro irmão, também era muito bem comportado, e, apesar de não ser tão dotado para os estudos como o meu irmão mais velho, teve o mérito de se esforçar homericamente para estar à altura dos elogios do meu pai. Nunca gostou de ficar em segundo lugar e fazia de tudo para poder sobressair.

Tínhamos uma relação muito cúmplice, devido à proximidade de idades, (14 meses de diferença), mas a realidade é que eu era de facto o rapaz da casa e queria sempre mandar nos meus irmãos, principalmente neste. E como sentia um enorme desgosto por não ter uma irmã, cheguei a obrigá-lo a vestir as minhas roupas para o fazer passar por menina. É óbvio que só o consegui fazer enquanto éramos muito pequenos. Depois ele começou a insurgir-se violentamente contra as minhas tentativas, recusando vestidos, folhos, e outros adornos indignos do rapazinho que ele era, pelo que a partir de certa altura já não consegui mais transformá-lo na irmã com que tanto sonhava.

Mas apesar da nossa cumplicidade, ele irritava-me pois era muito mariquinhas e queixinhas. Nunca queria alinhar comigo nas propostas de fazer malandrices e chegava mesmo a ir ter com os pais, para denunciar os meus planos, ficando eu de castigo vezes sem fim. É que, e ao contrário dos meus irmãos, eu não era nenhum exemplo de filha, nem sequer uma brilhante como aluna, poi fui sempre mediana, recusando-me a ceder um segundo que fosse do meu tempo de brincadeira para o estudo. Nunca chumbei nenhum ano, mas as minhas notas raramente subiam acima de um 15. Normalmente andavam entre o 12 e o 13, para grande desgosto do meu pai.

Nesta matéria, a minha mãe era mais benevolente. Mas quando o tema era religião e quando o assunto era o catecismo, aí é que eram elas!!!! A sua benevolência desaparecia e dava lugar a uma severa vigilante da fé, cheia de tabus, onde por exemplo, falar de pernas, só por motivos de doença, e grave!!!

Sentia, naquela família, que todos me eram estranhos e não eram raras as vezes em que imaginava que a minha verdadeira família iria entrar porta dentro a reclamar-me como a filha extraviada. Isso nunca veio a acontecer e o sentimento de desadequação foi uma constante no meu percurso. É sempre difícil crescermos e movermo-nos numa realidade com a qual não nos identificamos e foi isso que me aconteceu... Tinha de seguir regras e padrões de comportamento que nada tinham a ver com a minha verdade. Vivia espartilhada por uma educação que não me fazia qualquer sentido. Os valores morais e sociais sobrepunham-se aos afectos e isso era algo que não conseguia compreender. Tive de aceitar, mas fui crescendo coxa, com um sentimento de que um dia mais tarde iria encontrar o meu verdadeiro lugar no mundo.  Como não podia fazer nada par mudar esta realidade, refugiava-me no meu próprio mundo paralelo, onde era eu que ditava as regras e podia ser quem eu de facto me sentia.


 
Os jardins onde vivemos

Os jardins tiveram um papel fundamental neste meu mundo. Em casa dos meu pais tinha um jardim relativamente pequeno, onde existia uma zona de horta e outra de jardim, mas onde eu arranjava recantos que representavam estradas, casas, lugares, espaços à minha escala. Havia uma garagem, separada da casa, onde eu trepava ao telhado, proeza homérica para uma criança de cinco, seis anos, pois sentia-me no topo do mundo, tendo desafiado o medo de cair dali abaixo. Isso dava-me poder!

Adorava fazer  papas com lama e flores, (as queridas flores dos meus pais, ambos agrónomos), o que me custou vários dias de castigo fechada à chave no meu quarto.  Mas nem assim deixei de fazer as papas com as flores dos meus pais. Em vez de arranjar alternativa para as papas, arranjei alternativa para sair do castigo; ou seja, do quarto. Não teria mais que quatro ou cinco anos, mas resolvi arriscar e descer pela janela abaixo, apoiando-me num alpendre que ficava logo em baixo da minha janela e aí então já podia de novo viver a minha liberdade. Claro que logo que era descoberta, voltava para o quarto, mas entretanto fugir passou a ser uma rotina… O importante é que eu conseguia impor a minha vontade.

Outro jardim muito importante para mim foi o jardim de casa dos meus avós em Braga. É um jardim francês muito grande, cheio de canteiros de bucho e flores. Como eu era muito pequena, os canteiros representavam para mim caminhos, recantos mágicos onde e aí, sim, eu sentia-me protegida. Aquele era o meu mundo, onde existiam fadas e gnomos e todo um imaginário que me deleitava. Ainda hoje recordo os cheiros intensos desse jardim onde, profunda e intensamente podia expressar a minha liberdade e soltar a minha imaginação porque aquele mundo era só meu! Esta sensação era tão poderosa que, desde que me lembro de ser gente, os meus desenhos reproduziam invariavelmente fadas e casas em forma de cogumelos como as dos gnomos.

Um dia, quando descobri a maravilhosa aventura dos livros, a par dos tradicionais conto de encantar, devorava avidamente os Tio Patinhas, onde as histórias que mais me fascinavam eram as da Madame Min e da Maga Patalógica. Tudo em mim me encaminhava para o mundo das fadas e das florestas nem que fosse pelo trilho das «histórias de quadradinhos».

Até a realidade mais banal me remetia para esse mundo.

Clara Ferrão, Lisboa, Outubro de 2013

[créditos da imagem: http://juliedillon.deviantart.com/art/Forest-City-38174791
 

sábado, 12 de outubro de 2013

O que dizem os participantes

Não resisto em publicar alguns comentários às anteriores Oficinas e as expectativas dos participantes e a sua vontade de prosseguir, para além do tempo e da distância. Ou como diz o Zé, não é preciso «ser-se perto para se estar junto». Obrigada, muito.

Comentários [retirados da página da Alêtheia]

Clara Ferrão:
Estou ansiosa por ir fazer este curso!!! Tendo como experiência o curso anterior de oficinas de escrita, não posso estar mais entusiasmada!
Mais do que um mero exercício para nos pôr a escrever, é um mergulho às nossas entranhas, com um efeito catártico nas nossas vidas.
Muito obrigada Manuela pelo teu maravilhoso trabalho e generosidade com que te empenhas.
October 09 2013 at 12:10 PM

Sónia Alves:
Gostei muito de ter participado do curso anterior de oficinas de escrita! Concordo com a Clara , alem de um exercício que nos convida a escrita tem tb um efeito muito terapêutico. Um abraço grande Manuela e obrigada por tudo!
October 09 2013 at 05:10 PM

José Saraiva:
De África, de olho arregalado à escrita, mas circunspecto quanto à «profundidade» que este curso exigirá. Encher as palavras com emoções e memórias, será um «intenso desafio», a subscrever, na íntegra, a última frase da Clara. Lá estarei, até porque não é preciso ser-se perto para se estar junto. Z

Comentário retirado do Face Book:
Elda Aguilar Rainho Manuela muito obrigada por tudo, pela disponibilidade, pelo carinho, pela paciência, pelas palavras de coragem, alento e persistência que teve com cada uma de nós! Consegue com que cada um se sinta especial e importante na sua história e naquilo que transmite. Adorei e espero continuar na próxima oficina. Para mim foi uma terapia da alma! Obrigada a todas as colegas de Oficina. Adorei conhecer-vos. Bjnhs

domingo, 6 de outubro de 2013

«A infância dura mais que a vida inteira»

Numa colagem de memórias, Sónia Alves evoca o passado e vai à raiz do nome, em textos corajosos, de uma grande e comovedora sensibilidade.




As partidas da memória

Tive alguma relutância em escrever sobre mim e isto por vários factores. Um deles é certamente o facto de, ao escrevermos sobre nós ou melhor acerca daquilo que se passou no decorrer das nossas vidas, envolvermos outras pessoas. Quer queiramos quer não, faz parte do processo. Uma vez, quando estava na biblioteca de Estocolmo para devolver alguns livros, assisti por mero acaso a uma entrevista com a escritora Rebecca Walker. Eu nunca tinha ouvido falar nela, mas sim na sua mãe, Alice Walker, pelo que a presença de Rebecca, que viajava a dar cursos de escrita após o lançamento do seu livro autobiográfico, despertou-me a atenção. De acordo com a escritora, a mãe tinha deixado de lhe falar por uns tempos porque ficou bastante perturbada quando a sua autobiografia foi publicada, bem como outros membros da família que acabaram por acusá-la, entre outras coisas, de injusta e mentirosa.
 
Creio que isso deve acontecer com certa regularidade.

Outro dos motivos da minha renitência prende-se com o facto de a memória nos pregar rasteiras. Nos seus recantos, as recordações assumem outros contornos e cores que, uma vez invocados e transcritos, parecem perder a forca que antes tinham aos nossos olhos.

Finalmente, e até há bem pouco tempo, julgava que não tinha quase nenhumas memórias de infância, pois só me recordava de pequenas imagens fragmentadas e incoerentes como nos sonhos. Depois, quando comecei a pegar nas poucas fotografias e objectos antigos que restaram – mudámos muitas vezes de casa e a minha mãe tinha por hábito desfazer se das coisas –, elas foram voltando de mansinho.
 

O meu nome é Sónia

O meu nome é Sónia e nasci em Lisboa. Sou filha de pais Portugueses. Foi a minha mãe que o escolheu, inspirada numa das personagens de um livro que leu quando estava gravida de mim, Crime e Castigo de Fyodor Dostoyevsky. Creio que estava mesmo destinada a ter um nome russo, pois mais tarde, ela disse-me que também se chamava Sónia a mulher de Tosltoy que deu igualmente esse nome a uma das personagens do seu Guerra e Paz. A minha mãe também me contou que, quando estava grávida de mim, teve alguns problemas políticos. Afinal, eu ainda nasci em ditadura, um ano antes da chamada Revolução dos cravos.

Uma vez, no jardim do Príncipe Real, chorou tanto que disse ao vento:

– A minha filha há-de nascer com a bandeira vermelha.

Nunca lhe fiz perguntas acerca deste episódio talvez porque soubesse qual era, na época, a sua ideologia. Mais tarde, ela própria admitiu a sua desilusão com algumas políticas soviéticas, ou pelo menos pelo modo como foram, e nas suas próprias palavras, «usadas, aplicadas, confundidas, alteradas». A ironia disto tudo é que, no decorrer da minha vida já viajei sozinha para vários destinos, mas sempre senti a maior relutância em aventurar-me sozinha pela Rússia, para não falar pelas antigas Republicas Soviéticas. Porquê? Não consigo explicar isto, racionalmente. Contudo, na minha cabeça, imagino-me com alguma frequência a viajar no comboio transiberiano, a embarcar em São Petersburgo, a parar varias vezes no decorrer do percurso, a sentar-me junto de um lago algures na Mongólia, de termo de chá na mão e a sair uns dias depois em Pequim.

 

A infância dura mais que a vida inteira

Há uns meses, aconselhada por uma amiga, fui a uma reunião dos alcoólicos anónimos para familiares e amigos de pessoas que sofrem ou sofreram de alcoolismo. «Não importa que já tenha passado», disse-me ela. «O que tu viveste, pensaste e sentiste na infância molda mais e condiciona mais o teu presente e futuro do que possas imaginar». Foi então que me lembrei também de uma frase da escritora espanhola Ana Maria Matute durante uma entrevista:

– A infância dura mais que a vida inteira.

Então, agarrei na minha vergonha, coloquei a numa gaveta imaginaria e lá fui com a minha amiga ao tal primeiro encontro. No grupo, estava uma rapariga de cabelo escuro como o meu.Senti que o rosto dela me era familiar e pensei, «talvez seja portuguesa ou espanhola»:

– Olá, o meu nome é Sónia – disse ela –, sou de São Petersburgo e estou aqui porque o meu pai é alcoólico.

Já tínhamos duas coisas em comum, além do cabelo escuro.
 

Ai Mouraria!

Nasci no bairro da Mouraria. Fui lá só para nascer, pois nunca ali vivi, mas mudei tantas vezes de casa que dei por mim a pensar, no Verão passado, que não conseguia imaginar nenhum outro bairro em Lisboa onde pudesse ter nascido. Não por pensar que viver na Mouraria é fácil. As casas são pequenas e há falta de privacidade, coisas, para mim, difíceis de suportar. Mas há algo neste bairro que tem a ver comigo, pelo que, no último Verão quando estive em Portugal, visitei demoradamente a Mouraria que eu conhecia tão mal. Numa dessas visitas, num final de tarde, sentei-me nas escadas de pedra de uma daquelas ruas tão antigas, e senti as lágrimas correrem-me pela cara abaixo. Percebi então e finalmente, que tudo na minha vida tem a ver com sobrevivência. Nao a duríssima sobrevivência que alguns sobreviventes referem, mas a minha tentativa de resistir num espaço fisico que considero agreste e bárbaro, o mundo, tentando ao mesmo tempo tentar manter uma certa dignidade, e conservar os princípios que considero essenciais, sem os quais nem eu própria me suportaria.

Sónia Alves, Setembro 2013, Estocolmo

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Entre o riso e o choro

O belo texto poético de Carla Lemos


I - DEZASSETE
 
Sou adolescente.

Adulta pelas contas da natureza humana.

Espero que alguém perceba a razão pela qual o meu corpo adoeceu em pouco tempo e rapidamente me atirou para uma cama, sem força para viver a vida que me pertence.

Um instante mudou a minha vida, e com ele a possibilidade de não sobreviver.

Aproveito esse momento de solidão para rever dezassete anos de vida.

Curiosamente parece-me uma eternidade de vida, o que me deixa feliz por perceber que foi de alguma forma bem vivida.

É impressionante a lucidez com que revejo cada dia.

E de repente sinto uma enorme necessidade de analisar a vida e todo o seu sentido, e chegam-me os “porquês”  que não tive em criança.

Começo a perder uma certa identidade física, aquela que há tão pouco julgava ter criado.

Por outro lado revela-se uma percepção de tudo o que me rodeia, da integridade do ser que sou, e do que faço parte, que brilha dentro de mim como eu nunca tinha imaginado possível.

E aqui estou, um nada de mão em mão, entregue a todas as possibilidades, à espera de mais vida.

Sobrevivo.

À última chamada, eventualmente...

Talvez sobreviva à importância da vida.

Àquela vida que não sei o que seria por não a ter vivido, restando-me a outra à qual resisto desde então, que me mostrou o plano que eu nem sequer tinha traçado.

Que plano é esse que nos pergunta a toda a hora se escolho entre o riso e o choro?

Ah que pergunta...

O riso, claro!



II - ODEMIRA

Odemira é o Alentejo para onde já muito pouca gente vai.

Terra bonita, arranjada, que me recorda aventurosas viagens de juventude, quando os transportes não eram  muitos, mas esperávamos pelo que havia e lá íamos vivendo a vida, sem grandes exigências, sem carros, nem comboios de alta velocidade, e as viagens para a Europa não tinham valores low-cost.

A vida era para ir passando e ir vivendo e ir sonhando.

Então saí de Carcavelos em bicicleta.

Com um mapa e um caderno de apontamentos, duas bolsas laterais de mantimentos e pouca roupa, parti convicta.

O caminho foi sendo percorrido à beira-mar, num esforço descomunal, apenas seduzida pela aventura e pelo entusiasmo daquela liberdade que sentia bater-me na cara em forma de brisa.

Toda aquela natureza verdejante da serra de S. Luís, e um silêncio apenas quebrado pela corrente da bicicleta e algumas pedaladas, me levavam para uma viagem interior palpitante, e deixava-me um sorriso preso na cara.

Era uma altura em que dar parte fraca era desistir, era arranjar uma cabina telefónica e chamar a pagar no destino para pedir que me viessem buscar porque não aguentava mais

E parte fraca nunca foi o meu forte, por isso seguia em direcção ao esgotamento mais gostoso do mundo.

Sentia-me perfeitamente fundida neste espaço físico e psicológico que me acompanhou por muitas milhas percorridas.

A liberdade só é boa quando conseguimos integrá-la.

Assim seja sempre.

Carla Lemos, Lisboa, Setembro 2013



Créditos de imagem: Rota Vicentina, Serra do Cercal/São Luís.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O coração de cristal

Por Maria Pinto de Araújo

«Já te viste ao espelho? Gostas do que vês?»
Estas foram as frases que me fizeram olhar para dentro de mim. E na realidade, as duas perguntas feitas com a intenção de magoar e de humilhar foram as melhores que me fizeram na vida porque me levaram a tomar decisões importantíssimas para a minha mudança de rumo.
 «Já te viste ao espelho? Gostas do que vês? Porque não é só a beleza espiritual que conta, a beleza física também!»
 
Esta pergunta e esta afirmação foram proferidas pelo homem a quem eu tinha dado três filhos, o último dos quais há um ano e meio. Aumentei vinte e um quilos, e ainda não tinha recuperado. Faltava-me perder sete.  
Picasso, Mulher que chora, 1937, Londres,Tate Modern
 
Esta pergunta e esta afirmação, estavam a ser-me dirigidas pelo meu marido de há dez anos, os dois sentados numa esplanada, a discutirmos o nosso casamento e a nossa relação.
Esta pergunta e esta afirmação, eram proferidas por alguém que estava fora de casa cerca de treze horas por dia e que chegava sempre muito cansado depois de ter ido trabalhar, jogar golfe e ir ao ginásio. E que entrava a contar que o jantar estivesse feito, as crianças de banho e refeição tomadas, de preferência na cama. Alguém que esperava que tudo girasse à sua volta e que tudo fosse feito para o satisfazer.

Qualquer falha, qualquer contrariedade, qualquer desvio nestes ‘regulamentos’, motivavam críticas mordazes, comentários sádicos, berros a despropósito e sem razão, humilhações, murros… nas coisas. E eu fazia tudo para evitar essas explosões!
 
Eu também trabalhava. Com reuniões em Bruxelas várias vezes por mês, quando estava cá, para além de trabalhar nos dossiers, ia ao supermercado, tratava dos filhos, ajudava a empregada interna que não tinha tempo para tudo, tratava dos seguros, das acções, dos bancos, dos médicos. Cumpria toda a rotina extenuante dos quotidianos de uma família. Sobrava o quê? Cansaço. Tempo e vontade para ir fazer ginásio na realidade não tinha. E assim, ele tinha razão pois na altura preocupava-me muito mais em procurar respostas para a minha infelicidade, sobretudo lendo e lendo, do que em manter-me em boa forma física. Bem sei que deveria levar a minha perfeição até aí, mas as forças faltavam-me para isso e para tanto mais... Sentia-me à beira de uma depressão. Na fronteira de um precipício de onde já não sabia como sair.

Então, ao ouvir esta pergunta tão simples mas feita com o intuito de magoar e de humilhar, senti uma facada no coração e ouvi-o estilhaçar-se em mil bocadinhos de cristal. Tão bonito, luminoso, amoroso, amigo, prestável, este coração de cristal partiu-se. Foi atirado ao chão. E depois, calcado, esmagado, reduzido a pó cintilante. Vivo, mas pó. A dor foi enorme e a tristeza imensa, pois naquele dia fez-se luz na minha alma. Aquele ser que dizia amar-me, jamais iria mudar, jamais deixaria de me ferir deliberadamente, e eu nunca conseguiria deixar de ter medo dele enquanto estivesse ao seu lado, mas luz da luz.... A libertação acompanhou a tomada de consciência. Percebi que já não o amava, apenas o temia. Já nem gostava dele como pessoa, pois o ser enamorado, sedutor, cavalheiro, atento ao meu bem-estar que eu tinha conhecido e pelo qual me tinha apaixonado e casado em cinco meses, nunca tinha existido, senão como engodo para me garantir e agarrar.
 
Decidi não discutir, o que o irritava profundamente, pois era ao conflito que ia buscar energia. Falei-lhe em separação. Pôs-me imediatamente à vontade «para fazer o que quisesse, desde que que não lhe telefonasse daí a um mês a dizer que não sabia o que fazer». Bom conselho! Fui a uma psicóloga para me preparar para o embate do divórcio, que pedi quatro meses depois, muito calmamente e  sem dúvidas nenhumas. Sabia que o prolongamento daquele casamento me ia atirar para o precipício da depressão, do consequente aumento de peso, da infindável tristeza e da escalada de violência psicológica e física que o meu marido exercia sobre mim.
 
Consegui e tenho orgulho nisso. Paguei a factura desta independência com dez processos em tribunal para diminuir a pensão de alimentos ou pelo seu não pagamento; com a diminuição de rendimentos, e, consequentemente, com uma quebra apreciável no meu nível de vida, que me levou, inclusivamente, a recorrer à ajuda dos pais. E por fim, a fatura maior. Um cancro na mama, felizmente, e até ver, curado, já lá vão doze anos.  Por tudo isto, agradeço aquela pessoa que tanto me magoou, me ensinou, e que, por fim, me libertou com a pergunta fatal:

Já te viste ao espelho? Gostas do que vês?  

Agora, já não me calo e grito com todas as minhas forças: Vejo-Me Ao Espelho todos os Dias, Adoro o Que Vejo e Sinto, e, acima de tudo, o QUE SOU!
 

Maria Pinto de Araújo, Lisboa, Setembro 2013