domingo, 26 de outubro de 2014

Alma Gémea

Na recolha de textos e sua revisão final para o próximo livro das Oficinas de Escrita, tenho voltado a deliciar-me com os trabalhos das e dos alunos. Aqui fica um extrato do excelente conto de Ana Moita dos Santos. MG

 
Alma Gémea
 
«[...] É impressionante o que um simples penteado pode fazer por uma mulher! Parece futilidade mas não é. Estou a passar por uma separação e um simples gesto de atenção comigo significa muito, neste momento.

Separei-me do meu marido de quinze anos, por vontade e iniciativa própria. Foi um alívio, na altura. Discussões, falta de amor, de respeito, tudo o que meu querido espelho testemunhou em silêncio.

«Desatei a namorar. Imaginem que me encantei por um antigo namorado de juventude, que não via há séculos… e, embriagada de paixão, entrei a fundo no “paraíso”! Divertimento, saídas à noite, viagens, enfim, tudo o que já há muitos anos não fazia.

Tirei a barriguinha de misérias, lá isso tirei. Mas o pior veio depois. É que, enquanto estive no “paraíso”, deixei os meus dois filhos com o pai. Quando regressei à Terra, eles não queriam nada com a mãe, só queriam o pai.

Tem sido muito doloroso viver na Terra sem eles.
[...] »
 
Ana Moita dos Santos
 

domingo, 12 de outubro de 2014

Encontros Inesperados de 2º Grau

Venham escrever connosco. As próximas Oficinas de Escrita estão a começar. Dois sábados, dias 18 e 25 de Outubro, das 16 às 18 horas.

O titulo original desta Oficina era, e continua a ser, Blind Date, que é quase uma expressão idiomática partilhada em várias línguas. Mas uma leitora chamou-me a atenção e eu considerei. Não estaria eu a subalternizar a nossa adorada língua Portuguesa? Não estava, não estou. Mas acrescentei esta alternativa - Encontros Inesperados de 2º Grau
Posto isto - de que trata este Blind Date literário? Uh uh... se dissermos tudo, estragamos o prazer da festa. Portanto, mantendo o segredo, aqui vai uma súmula:


E quando um ou uma desconhecida lhe…
Pequena oficina de escrita quase automática que pretende despertar uma narrativa torrencial, em resposta a um desafio muito inesperado, cujo teor não revelaremos para manter intacta a energia do encontro e da surpresa.


Blind Date
Encontros Inesperados de 2º Grau

 A expressão - «Fiquei sem palavras» - é provavelmente o que vai acontecer aos participantes desta oficina nos primeiros momentos em que encontrarem o desafio proposto. Em carta fechada – e diferente para cada um ou uma.
Os envelopes são colocados numa pequena caixa, sem destinatário de modo que a proposta é escolhida de forma aleatória.

– Ao longo das duas aulas desta Oficina propõe-se a construção de uma narrativa com base no convite ou na proposta, decente, indecente? Invulgar? Banal?, que cada um escolher.
Duas aulas, duas horas cada. Na primeira a construção da narrativa. Na segunda o seu aperfeiçoamento e conclusão.

Informações - local, preços, inscrição através do email: manuelagonzaga@gmail.com

Adicional: Ao longo do tempo em que durar a Oficina, os participantes podem colocar questões à orientadora, por email, ou pessoalmente. As anotações sobre a escrita, não tendo qualquer intuito «crítico» serão conduzidas no sentido de orientar a eficácia do discurso. Tanto quanto possível, essas considerações serão pessoais – de orientadora a orientando/a.



 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A graça de ser Maria

A Ana, ou a Maria Ana, passou rapidamente a «Anita» durante as oficinas. Mas a sua esplêndida juventude não lhe retira um átimo à força das suas narrativas. Foi lindo ver como os seus textos cresciam, encantando-nos pela intensidade, emoção e frescura. Aqui fica uma amostra. MG



A graça de ser Maria

O meu pai conta em jeito de brincadeira que sou tão teimosa que troquei as voltas a toda a gente. Diz que fez as contas de forma a eu nascer no seu dia de aniversário e queria muito que fosse um «Zé». Eu não fiz a vontade a ninguém, nascendo Maria e quinze dias antes, sendo a rainha da teimosia desde que fui gerada.

A escolha do meu nome não foi um processo linear. À medida que a gravidez ia avançado, as incertezas não davam lugar às decisões e não havia maneira de ter um nome. Primeiro pensaram em Ana Luísa, nome com tradição familiar, mas depois diziam que fazia lembrar a tia chata e que não podia ser. Depois Anísabel, um rasgo de criatividade dos meus pais que agradeço por não ter sido levado avante. Joana também foi opção, mas a semelhança com o nome do meu irmão eram demasiado evidente e não queriam que carregasse esse peso.

Mas no meio de tantas dúvidas, o meu nome foi escolhido da forma mais engraçada que poderia haver. Após terminar a escritura de uma sociedade, a minha mãe e a sua sócia caminhavam lado a lado e esta pergunta-lhe:

Já têm nome para a bebé?

Não… disse a minha mãe, revelando que a escolha não estava a ser fácil.

Gostava muito de ser a madrinha.

A minha mãe sorriu e disse:

Mas eu não vou batizar a menina. O pai quer muito que esta possa escolher a sua orientação religiosa quando for mais crescida.

Não faz mal, serei uma madrinha de Registo – respondeu a sócia, continuando – Maria Ana é um nome lindo, não acha?

Com 20 anos pergunto-me: imaginar-me-ia com outro nome? De todo! Adoro-o e acho que nenhum seria tão perfeito para mim. Dá-me o privilégio de me adaptar às circunstâncias. Como costumo dizer, tenho quatro nomes: Maria para a maioria das pessoas que me conhecem; Ana para quando a minha mãe me chama à atenção; Maria Ana para situações mais formais e nome sonante numa vida profissional e por último mas não menos importante Anita, diminutivo criado pelo meu pai quando ainda era muito pequena, pelas semelhanças com a menina das histórias.
O nome é aquilo que nos distingue e nos caracteriza. Maria Ana não é um nome muito comum e isso faz-me gostar dele. Sempre o associei às princesas e rainhas, lembrando-me da Maria Ana da Áustria, casada com D. João V, Rei de Portugal. A minha mãe reforça a ideia que o nome me encaixa na perfeição porque sou um «narizinho empinado» que nasceu para dar ordens e não para obedecer!
Muita gente me pergunta: porque não Mariana ou Ana Maria? Não era mais fácil de lembrar ou pronunciar? Possivelmente até seria. Mas a graça das coisas da vida está na irreverência, na ausência de comparação e na singularidade e é sempre tão bom quando achamos que nosso nome tem graça.
 

 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Espelho meu, há alguém com mais sorte do que eu?

Do excelente conto de Ana de Sienna, mais um extracto - enquanto aguardamos pelo livro antológico onde o texto constará na integra. MG
 
 
 
[...]
 
Claro que vou ficar neste mundo eternamente. Se isto for um sonho, por favor, não me acordem! E quando chegará até mim esse alguém, meu cantor?

Quando for a hora é a resposta.

Espero com muita calma e, enquanto espero, vejo uma figura envolta em neblina a andar na minha direcção. Caminha decidida e eu sinto que é importante o que tem para me dizer. Quando chega junto de mim, vejo que é um homem. Beija-me ao de leve nos lábios, sem uma palavra. Instintivamente, retribuo o beijo e percebo que o conheço há muito tempo. Há tanto tempo, que nem sei precisar quanto. Vários anos, talvez até séculos ou milénios… Que sensação tão maravilhosa e, ao mesmo tempo, tão estranha. É um reencontro? Já nos conhecíamos e só agora nos voltamos a encontrar? Tudo nele me é familiar: os lábios, o beijo, o cheiro, o toque, o que vejo no fundo dos seus olhos claros. O prazer do seu toque é imenso, o seu olhar é reconfortante… Tudo e nada me diz que é com ele que a felicidade pode chegar. Que vale a pena tentar. Não sinto medo, não sinto hesitação, sinto vontade de arriscar.

E ele diz-me:

Sou a tua alma gémea. Tenho-te visto sofrer e, finalmente, venho ao teu encontro. Confia em mim. Não te vou deixar. Quero ficar contigo para sempre.

Dou por mim a pensar: Isto só pode ser um folhetim ou uma novela daquelas bem pimba… Acorda e regressa à realidade. Tento abrir os olhos, belisco-me, mas nada acontece. Tudo se mantém igual.

Entretanto, ele já me envolveu nos seus braços e acaricia-me de uma forma nunca antes sentida, enfim, um descalabro! Rendo-me ou resisto? Se resistir, não me vou arrepender para o resto da vida? Mas será isto realmente a minha vida ou trata-se apenas um sonho, um delírio dos quarenta, uma maluqueira repentina, eu sei lá!?

Olho-me novamente no espelho e falo com ele: «espelho meu, diz-me se há alguém com mais sorte que eu?»
[...]

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Alma Gémea

De Ana de Sienna, o extracto de um magnifico conto, «Alma Gémea», que nos leva ao universo das escolhas que determinam as nossas vidas. Uma mulher, as suas memórias, um espelho, a solidão, o sonho e uma promessa. E uma inspiradora lição de vida, porque disso se trata. MG.


'É um espelho alto, cheio de detalhes preciosos: talha dourada, flores pequeninas enganchadas em tronquinhos retorcidos, mimosos. É uma peça do séc. XVIII, italiana.' [foto A.S.} 


[...]
Neste quarto, e com este espelho por testemunha, vivi todos os anos do meu casamento. O que ele sabe e não conta dava um livro. Um livro que posso abrir ou não. Um dia, talvez olhe para ele e não me veja só a mim, como agora, mas consiga ver mais além, para o passado e, quem sabe, para o futuro. O que vejo agora é uma mulher de quarenta anos, bem conservada. Bonita, de feições agradáveis mas vincadas pela vida. Pelas emoções vividas, boas e más. Algumas muito más. Algumas boas e poucas muito boas.

Olho-me no espelho e vejo uns olhos. Grandes, verdes, bem desenhados, mas tristes. Tristes, porque é assim que me sinto hoje. O cabelo é preto, comprido e desgrenhado. Não tive ânimo para o arranjar e agora, para além de triste, sinto-me feia.

Não faz mal, penso, porque todos me dizem que sou bonita! Sim, mas podia estar melhor, se tivesse arranjado o cabelo, penso em seguida. Amanhã tenho uma reunião importante e não posso apresentar-me assim. Tenho de conseguir tempo e vontade para ir arranjar o cabelo.

Não me quero ver mais ao espelho, hoje. Amanhã, vou mesmo ao cabeleireiro!
[...]


 
Ana de Sienna, Lisboa, 18.03.2014




 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O incandescente mantra

Texto arrebatador, de um erotismo poético, assinado por Eugénia Sales que insiste em escrever «não consigo!». Mas nós, que a lemos, percebemos perfeitamente que consegue. MG.

Gustav Klimt (1862-1918), Le Baiser
 
Não consigo! Não consigo escrever! Dizes para “sentir” que “as coisas acabam por fluir”. E o pensamento voa de imediato para o sentir. Só que é para o sentir dos teus beijos na minha cara, nos meus ombros, no meu pescoço, nos meus lábios, nas voltas das nossas línguas.
Tento, juro que tento. Mas por mais que o faça, é para lá que volto sempre. Para o teu olhar. O teu olhar em mim. Esse olhar que me percorre o corpo todo e que me penetra a alma. Esse olhar, presente e inabalável, que espelha, seguro, este amor antigo, que te enraíza e te eleva. E volto para os teus lábios que sussurram, naquele murmúrio cantado que nos embala nesta nossa viagem. As mãos entrelaçam-se e os corpos estremecem.
Não consigo escrever. Só lembrar!

E as imagens sucedem-se e a perplexidade e o maravilhamento vão tomando conta de mim... Como é que o fogo pode ser brando e refrescante; como é que a candura pode ser tão pujante e viril; como é que a intensidade pode ser leve e o mantra incandescente? Como pode um peito tão cheio e arrebatado, deixar um sorriso indizível escapar dos teus lábios e fixar-se no teu olhar? Como podem as tuas mãos, tão ágeis e vorazes, tecerem este manto de seda que me envolve a pele e de que os teus dedos são hábeis artesãos? Como pode o ferro ser veludo? Como pode o Céu estar na Terra e a Terra toda em mim?
Meu amor! Serena essa alma ávida e aflita. Porque o meu corpo reclama a tua boca e a minha alma aspira ao nó que nos une e se vai entrelaçando nesta valsa lenta mas eterna.

E não consigo, não consigo escrever.

Eugénia Sales, Lisboa, Fevereiro 2014

domingo, 20 de abril de 2014

Uma menina chamada Alda

Extracto de um dos textos de Alda Rosa, que se junta às outras narrativas que compõem o 2º livro das nossas Oficinas de Escrita. Delicioso! MG



[...]
 
Sete anos. Vamos fazer uma luta de índios e cowboys. Dividimo-nos em dois grupos. Cada um de nós tem vários bonecos de plástico que escondemos nos canteiros e vasos dos quintais das redondezas, para grande fúria das porteiras, pois deixamos sempre algumas flores destruídas. Ganha o grupo que encontrar mais bonecos do inimigo. É sempre muito divertido.

Oito anos. Encontrámos um novo divertimento. Subir um candeeiro de electricidade junto a um muro que tem cerca de três metros de altura, depois fazemos uma corrida ao longo do muro, que tem um rebordo com alguns centímetros e depois descemos pelo candeeiro que se encontra na outra ponta. É uma brincadeira um pouco arriscada, mas nós divertimo-nos imenso. Eu sou a única menina, mas fico sempre entre os primeiros.
[...]
 
Alda Rosa, Lisboa, Março, 2014