sábado, 31 de janeiro de 2015

Dentro da sua solidão

Para Sara Pires, o encontro, completamente inesperado, aconteceu numa esplanada. Encontro literário, já se vê, que emergiu num fio de palavras desatadas pela imaginação poética e plena de sensibilidade que se adivinha neste belo conto. O primeiro de muitos, esperamos nós. MG
 
 
Dentro da sua solidão

E ali estava ele na esplanada, apreciando e olhando. Só a sua presença arrancava suspiros a qualquer mulher. Bem vestido, cabelo grisalho, encaracolado, penteado para trás, fato azul-escuro e camisa branca sem um vinco que fosse, a sua figura imponente, 1,80m, não passava despercebida.

Gostava de ficar tardes e tardes apreciando tudo e todas. Demorava-se nos pormenores de cada uma, olhava-as fixamente, e não tentava disfarçar. Sabia que o seu olhar provocava sorrisos e rubores. Eram estas sensações que o nutriam, espicaçavam e mantinham vivo. Após o “abandono” da sua mulher prometera a si mesmo que nunca mais iria ter vergonha de olhar, provocar e ceder às emoções. Sabia que já não tinha idade para estes jogos, mas era tão divertido! E aqui entre nós: será que há idade específica para estes jogos?

Com a ex-mulher nunca tomara as rédeas da relação. Pior ainda, abdicara dos sonhos e dos desejos. E agora, ali estava ele em mais um final de tarde, quando todas, apressadamente, regressavam a casa. Mas em frente daquela esplanada, o passo não era assim tão apressado. Aqui, o olhar maroto, provocador deixava-as desprevenidas e ele alimentava-lhes o ego que tão bem lhes fazia à alma.

Mas havia uma que, dentro da sua solidão, o nutria especialmente. Uma a quem todas as tardes servia o mesmo chá, à mesma hora e na mesma mesa. Esta, provocava-lhe os mesmos sentimentos que ele arrancava às mulheres que passavam pela esplanada. Dela apenas conhecia o cheiro a jasmim, os longos dedos, o cabelo ruivo apanhado de forma austera, o olhar de soslaio com que ela o vislumbrava na sua farda impecavelmente passada a ferro. E o seus passos silenciosos. Ele sabia, ou melhor, sentia, que ela que não tinha a pretensão de interromper o seu ritual de final da tarde.

Ela ainda não esquecera os maus tratos sofridos durante anos e anos às mãos do ex-marido, e não queria repetir os mesmos erros. O melhor era manter-se afastada... O seu ex-marido também era assim, bem-parecido e encantador. Não lhe batia, mas os maus tratos psicológicos podem causar danos mais profundos do que os físicos. Obcecava-o a ideia de que todos os homens olhavam para ela, e ela tivera de aprender a deslocar-se silenciosamente, como um fantasma, até ao dia em que fugiu, pondo fim aquela angústia. Mudou de cidade e conseguiu erguer-se, mas a confiança, essa nunca mais a recuperou.

Agora, tinham-se passado duas semanas que ele não aparecia na esplanada. Todos os finais de tarde as mulheres que passavam por ali abrandavam o passo e miravam as mesas, como que procurando alguém. Mas ela sabia onde ele vivia, e um dia, quase ao anoitecer, bateu-lhe à porta, uma, duas vezes. À terceira ouviu um gemido, as trancas rangeram e a porta abriu-se. O imponente 1,80m apareceu prostrado e impecavelmente desgrenhado. Sem trocarem uma palavra, ela amparou-o, aconchegou-o na cama e chamou um médico que lhe diagnosticou uma pneumonia. Teria de repousar e alimentar-se bem. Ela recebeu a receita foi aviá-la à farmácia, no regresso passou por casa fez uma canja, colocou-a num tupperware que embrulhou num jornal para manter o caldo bem quente.

Pela primeira vez ele conseguiu ver os seus olhos castanhos mel. Sempre sem falar, ela pôs a mesa, serviu-lhe a canja, olhou-o fixamente, deu-lhe o medicamento e saiu porta fora. Durante semanas, o ritual manteve-se: à hora das refeições ela chegava, servia-o, olhavam-se e, por fim, saía. Não eram necessárias palavras, o olhar dizia tudo. Ele sabia que tinha de respeitar aquele silêncio e ela não queria estabelecer qualquer outro contacto mais profunda. Era ainda muito cedo. Aquele ritual que ela cumpria diariamente desde que o encontrara doente, dizia ela a si própria, tê-lo-ia feito por qualquer outra pessoa. Na verdade, a presença constante daquele homem na sua esplanada fazia-lhe falta.

Ao fim de um mês ele recuperou completamente, olhou-a e pela primeira vez quebrou o silêncio:

– Obrigada! – disse.

Ela assentiu com a cabeça e saiu.

E tudo voltou ao que era dantes. O serviço de chá na esplanada, a romaria de final da tarde, as mulheres abrandando o passo e ele sorrindo-lhes. Mas a ela, ele respeitava-a como nunca respeitara outra mulher, e o seu silêncio era a sua bênção.

Para ela, ainda era muito cedo. A ele só lhe restava esperar.

O tempo, que tudo cura não se esquece, mas permite seguir em frente.

 

Sara Pires
Lisboa, 6 de Janeiro de 2015

 

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Encontros Inesperados


E quando um desconhecido ou uma desconhecida...
Oficina de escrita que pretende despertar a narrativa torrencial por resposta a um desafio inesperado, cujo teor não revelaremos para manter intacta a energia da surpresa e a magia do encontro.
A mente é inútil, quando a mente é cega
[cortesia de Favim]


O titulo desta proposta literária partiu de um pressuposto «Blind Date» ou, em tradução muito livre «Encontros Inesperados». Em síntese, a expressão «Fiquei sem palavras» - é provavelmente o que vai acontecer aos participantes desta oficina  nos primeiros momentos em que encontrarem o desafio apresentado.

Uma reação seguida de entusiasmo e escrita compulsiva, a avaliar pelo que tem acontecido nas outras oficinas do mesmo teor, cujos contos, magníficos, têm vindo a ser publicados neste blogue.
Como? Ao longo de três aulas propomos a construção de narrativas com base no convite ou na proposta que cada um escolher. Literalmente às cegas.

Quando? As oficinas decorrem às terças-feiras, com início pelas 18.30, nos dias 3, 10 e 24 de Fevereiro. 

Na primeira sessão será equacionada a construção da narrativa (3 de Fevereiro);
Na segunda o seu aperfeiçoamento (dia 10 de Fevereiro);
Na terceira a sua conclusão (dia 24 de Fevereiro).

Cada aula tem a duração de uma hora presencial, com uma tolerância adicional de meia hora, entre o começo e o fim, para quem quiser esclarecimentos mais personalizados.

Onde é? no lindíssimo espaço da Livraria Alêtheia, à rua do Século, nº 13 (metro Chiado).
Os contos serão, posteriormente, inseridos neste blogue e na nossa página das Oficinas de Escrita, no facebook. Como tem vindo a acontecer com todos os outros.

Contactos:
manuelagonzaga@gmail.com
Telefone (+ 351) 210939748 * Email: aletheia@aletheia.pt
Preço total da oficina: 60 euros.

Adicional: Ao longo do tempo em que durar a Oficina, os participantes podem colocar questões à orientadora, por email, ou pessoalmente. As anotações sobre a escrita serão  sempre conduzidas no sentido de orientar a eficácia do discurso. Tanto quanto possível, essas considerações serão pessoais – de orientadora a orientando/a.

 

domingo, 25 de janeiro de 2015

O Armário de Priscos

O João Miguel Teodoro é um quase residente das oficinas - mas de todas as vezes, o mínimo que e pode dizer dos seus textos é que nos surpreendem sempre ao máximo. Como este seu conto, surreal e labiríntico, no seu jogo de palavras, ideias e sonoridades de muito poderoso e sedutor apelo.  MG


 
Quando andava louca, numa caminhada pelos arcebispos em busca de uns pontos cardeais que me levassem ao Abade de Priscos, já tinha deixado o Viana para trás e puxava pelo Timóteo, que, com sofreguidão, acompanhava o meu ritmo atrás do atraso.
O Carlos no seu nulo ser, mas na sua notável instrução, deveria estar à minha espera como sempre, sem saber muito bem se estava atrasado ou adiantado. Eu, com menos instrução, sabia que estava. Seguramente pontual é que não estava.
Este seu jeito deu-me inúmeras oportunidades para treinar uns Timoteos. Continuo a treinar. Espero é que quando o Timóteo se sincronizar com o meu caminhar consiga chegar perto do Carlos e da fome que eu já pressentia nos seus arrufos. Como ainda estavamos apressados para o almoço, pensava que o Carlos no seu rosto já não tivesse restos do creme de desfazer barba, feita de manhã, e que a assimetria facial não fosse, mais uma vez, uma qualidade escondida no seu despiste. É tão despistado que muitas vezes se esquecia de mim...e que jeito tal me deu nos treinos.
Já não via o Pedro há imenso tempo. Nem mesmo quando estava combinado um encontro com o Timóteo, e a Maria era tramada.
Ah! Lá estava o Carlos previsível como apelido. Calmo, a julgar que estava adiantado e com a imagem que eu imaginava. Fiz de conta que estava com a pontualidade no auge e com o estômago a dar horas, em sintonia com o choro do Timóteo. O silêncio foi servido durante o almoço. Definitivamente, tinha dois estranhos comigo. Tudo terminou com o doce que deu nome à casa onde o nosso repasto, atrasado, não se prolongou por muito tempo. Já não me lembro muito bem, mas nas despedidas do Carlos, o meu olhar puxado pelo Timóteo, identificou a Maria. Despachei o Carlos com uma pressa cobarde. Uma saudade da Maria invadiu todo o meu corpo.
Fiquei cheia de dúvidas e o filme da vida terminou com o primeiro choro do Timóteo. Talvez fosse a minha forma de repelir o que tinha feito à minha amiga, mas estar com o Pedro foi tão bom. Ela encarou o nascimento do Timóteo como uma experiência, leia-se lição para vidas futuras. Do meu sofrimento à experiência adquirida da Maria, foi crescendo uma linda retrospectiva de uma vida a quatro e que subitamente terminou com o Timoteo a sair do meu ventre. Afinal, a cinco a história não tinha piada.
De facto não tinham passado muitos anos desde o nosso afastamento, mas aquela visita da Maria às festas da senhora da Agonia foi uma lufada de ar fresco e terminou com a minha agonia. Já me tinha esquecido do Carlos, do Pedro e até do pequeno Timóteo.
Naquele tempo a velhice podia ser “maravilhada”, mas não corrigida. Agora, de mão dada com a Maria, o Timóteo de visita à nossa casa, vai-me dizendo que sim. Dando o desconto que os filhos acham sempre as mães os seres mais lindos do mundo, agora tinha duas, esforço a dobrar. O Timóteo, que nunca teve um armário, demorou algum tempo a entender o armário destas mães: uma delas pediu emprestada o marido da outra para o ter.
A minha vida em Braga depois daquele almoço no Abade de Priscos ficou sem orientação, por uns tempos. Parece que fiquei com a minha história interrompida. Sentimentos que eu achava menores, invadiram o meu coração e quando o coração é invadido por sentimentos até respirar custa. Nada parece funcionar.
 
João Miguel Teodoro
Lisboa, 28 de Outubro 2014
 
 
 
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

QUE HORAS SERÃO, QUE DIA?

Publico com o maior prazer mais um conto saído das nossas últimas oficinas, assinado por Elizabeth Carreira. É uma narrativa pungente, apocalíptica, muito bela. Acima de tudo, é um conto credível que se materializou esplendorosamente. Blind Date foi realmente uma belíssima surpresa para todos nós, participantes e orientadora. MG

Singapore Ruins, by JonasDeRo


Lembro-me de ti, Luísa. Lembro-me sempre de ti. Tudo me traz recordações de ti, de nós, porque tu eras parte de mim e eu sem dar conta, tantas vezes. Minha mulher militante de todas as causas. Leio, escrito por ti à pressa, em letra descuidada, no bloco que deixaste aberto sobre a secretária:

Sou partidário.
Eu odeio quem não participa,
Eu odeio os indiferentes.
António Gramsci, Scritti giovanili.

Usaste-a na última intervenção, como sempre acalorada, no congresso da organização verde de que eras dirigente? Esse congresso que te levou ao norte do país, justamente quando a guerra, ou lá o que é isto, rebentou. Ainda falámos ao telemóvel, mensagens breves, tranquilizadoras... enquanto houve energia. «Estás bem?»

-- Sim. Falei com o Pedro, estão todos bem, mas confirmou que em Londres estão como nós. Temos de ter paciência, isto vai ser resolvido, mais dia, menos dia a situação vai resolver-se. Tem cuidado, não saias. Assim que puder vou para casa, hei-de arranjar maneira.

-- Não vais cruzar os braços, bem sei. Eu espero-te, não saio daqui.

Queria dizer “meu amor” mas a chamada caiu. E agora, pressinto-te em todos os ruídos e em todas as sombras e assim meço a verdade do meu amor por ti. Tento andar aprumado e manter a casa digna para quando chegares, apesar da falta de água e de luz. Aparo a barba e o cabelo com uma tesoura. Levo horas nisso. Arejo a roupa na varanda, à socapa, não vá alguém ver-me, e penduro-a em cabides.

Estou só, numa casa cheia de objetos que foram essenciais até que se tornaram inúteis. Frigorífico, televisão, computador. Fogão elétrico. Micro-ondas! Lavatórios, torneiras, banheiras... Ah, e o carro na garagem! Ao princípio, estava certo que era uma questão de um, dois dias. Uma semana... depois outra... quantas se passaram já? Perdi-lhes a conta.

Ocorreu-me isto da escrita, como um escape. Felizmente coleccionei lápis atrás de lápis ao longo da vida, quando já nem escrevíamos à mão, tudo no computador. E papel não falta. Nem tempo. Preencho os dias e esta ausência de comunicação que me enlouquece. Agora, lembro-me de Anne Frank e do seu diário. Visitei em jovem a sua casa-museu, em Amsterdão, longe de imaginar que décadas depois iria enfim compreender tudo por que passou, ela e muitos outros.

Tomo pois consciência de que corro o risco de me transformar na Anne Frank do século XXI. Tinha a sua graça. O testemunho de um homem, entre milhares, que digo eu?, milhões, dezenas, centenas de milhões, pateticamente condenados a morrer de fome, sede e solidão após uma vida de abundância, festança e consumo desenfreado. É uma grande anedota. De morrer a rir... Quantos não terão morrido já? Abro a janela e fecho-a de seguida, tão pestilento está o ar. Graças ao teu cuidado, tínhamos a despensa bem recheada, e tantos tantos garrafões de água na garagem... para uma eventualidade, uma mania tua que eu ridicularizava! Dizias que tinhas estado duas semanas sem água canalizada quando tinhas vivido em África e assim tinhas aprendido o valor do bem mais precioso do que tudo o que possamos guardar! E eu a reclamar que aquilo era uma inutilidade e ocupava muito espaço... Consumo pouco, o menos possível. Olho para os garrafões e sei exatamente o tempo que a água vai durar. O meu tempo de vida? Ao princípio ainda usava alguma para me lavar. Agora nem pensar, que morra sujo mas o mais tarde possível!


O que eu dava para poder ouvir música! Reorganizei os nossos muitos CDs. Luísa, Luísa, não tens o instinto da organização, por isso passas a vida à procura das tuas coisas. Estava tudo misturado, alguns fora da caixa, outros em caixas erradas... Se estivesses cá ouvias das boas. Quem dera, quem dera que um dia voltes a remexer tudo, a tirar tudo do lugar!

 

Tenho essa esperança, uma quase certeza de que tudo volte ao lugar. “A esperança é a última a morrer!” “Enquanto há vida há esperança!” Expressões populares que até incomodava ouvir, de tão ditas e reditas, a maior parte das vezes sem quererem dizer nada. Frases de circunstância, ocas, quase sempre hipócritas, ditas da boca para fora. Ah, mas tão verdadeiras na condição em que me encontro! Mais do que a falta de água e de luz, a tua ausência diminui-me. Resisto porque sei que virás, movida pela tua implacável determinação. A qualquer momento ouvirei o som da tua voz e ela soará imperturbável:
 
Olá, António.


Hoje, abri a penúltima lata de atum. Vai dar para três, quatro dias. Mastigo cada pedacinho. Mastigo e remastigo. O pior é que me faz sede. Olha, Luísa, afinal não precisei de ir ao ginásio, perdi a barriga por completo! As calças é que me caem, preciso de calças novas, vou fazendo furos no cinto, mas já não dá para fazer mais.

Já que isto pode ser um testemunho à la Anne Frank, devo contar como tudo aconteceu. De um dia para outro, sem qualquer previsão ou declaração de guerra -- ainda estou para saber como tudo isto escapou aos serviços secretos de todo o mundo ocidental -- operações de sabotagem concertadas deixaram todo o ocidente a morrer à míngua, sem água, comunicações, combustíveis... de que vale um exército sem pão nem comunicações? Carros, barcos, aviões sem combustível, bancos “sem sistema”- e de que nos serviria o dinheiro nestas circunstâncias?, a insegurança gerada pela fome, tudo a agravar-se dia a dia, até nos trancarmos em casa, tentando passar por invisíveis com medo de assaltos aos escassos bens que nos vão possibilitando a existência... Foram usadas bombas, armas químicas, violência? Invadiram o nosso território? Não, nada disso. Pelo menos por enquanto, que eu saiba. Devem estar à espera que, pura e simplesmente, morramos todos. É a mais sofisticada, a mais clean das guerras, esta. Toda despoletada através dos sistemas informáticos. Passámos a depender deles, facilitaram-nos a vida, entregámos-lhes as nossas vidas.

Literalmente.

O pior de tudo é ignorarmos o que realmente se passa. Limitamo-nos a esperar. E um dia destes já não queremos saber porque, estando ainda vivos, já deixámos de viver. Escurece, já não vejo o que escrevo. Que horas serão, que dia? Horas de molhar os lábios - delícia suprema dos meus dias - e de me enfiar na cama. Adormecer a reviver momentos bons da nossa vida, Luísa. A reviver as nossas noites de amor. As nossas viagens. A infância do nosso filho.Também pensas nisso? Era boa a nossa vida. Era vida.

Não foi amor à primeira vista, o nosso. Vivíamos em mundos diferentes, apesar de frequentarmos o mesmo café. Ah, a importância dos cafés na vida social dos anos 60, 70! Eram a nossa sala de visitas comum, o nosso facebook, o nosso telemóvel. Quem me queria encontrar, era passar na Roma depois de jantar. Podia dizer-se “Diz-me a que café vais, dir-te-ei quem és”. Na Roma, porém, havia grupos distintos. Em zonas distintas. À entrada, os “betinhos” da avenida de Roma, era assim que nos catalogavam, grupo a que claramente pertencia. Classe média confortável, gente conservadora,  seguindo os ditames da moda. Lá para trás ficavam os outros, muitos deles estudantes do Técnico, cabeludos, barbudos, ar contestatário de maio de 68. Não deixavam de ser burgueses, por mais que lhes custasse admitir isso, já que naquele tempo as classes trabalhadoras não estudavam na universidade. Só que não eram dali, como nós, e não viviam em casa dos pais. Vinham muitas vezes “da província” ou dos “territórios ultramarinos”. Viviam em quartos alugados ou em residências.

As miúdas, como dizíamos, também se dividiam pelos dois grupos, as mais ou menos hippies, cabelos longos, roupa étnica ou casual,  e as embonecadas, que não saíam de casa sem se mirarem dezenas de vezes ao espelho. Como a minha namorada. Melhor dizendo, quase-noiva. Não se pode negar que fosse bonita. Eu sentia algum orgulho quando ela entrava no café, fresca e elegante. Estava empenhado naquela relação, que me parecia absolutamente certa.

Um dia senti uns olhos trocistas fixados em mim. Os teus. Nunca te tinha visto, pertencias claramente ao grupo lá de trás, longos cabelos desalinhados, saia comprida colorida, camisa amarrotada. Olhos muito pintados. Davas nas vistas, mas não me passaria pela cabeça meter conversa contigo. Ao fim de poucos meses deixaste de aparecer, terás mudado de café. Curiosamente, dei por isso. E foi com um sobressalto que deparei contigo, cerca de um ano depois, na biblioteca da Gulbenkian. «Olá, António!» disseste tu naquele tom de voz que usamos nas bibliotecas. Aquele sorriso trocista enervante. Que passei a amar perdidamente. Mas isso foi mais tarde.
 

É bom ter tantas memórias para ocupar o meu tempo, devia ter começado a escrever há mais tempo, quando tinha mais energia. Agora canso-me depressa. Seria mais fácil se tivesse café. Tenho cápsulas, tenho máquina, mas falta tudo o resto. Às vezes corto uma cápsula para cheirar e lamber o café. E não é que me revigora?
 
Elisabeth Carreira, Lisboa, 28-10-2014
 
 
 
 
 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O Homem sem nome e a Mulher sem rosto.

Sem desprimor para todos os excelentes trabalhos que têm saído das nossas oficinas de escrita,  onde se trabalha no duro!!, este conto do Ricardo Estevens está muitos furos acima da escala. Representa várias coisas notáveis, a primeira das quais o inegável talento do seu autor. Outra, a tenacidade com que Ricardo se entregou a um trabalho que lhe correu mal, e ainda bem, já que, depois de um aparentemente desmotivante resultado inicial, ele pode chegar a este resultado soberbo. Não foi à primeira. Nem à segunda. Mas foi e por mérito próprio e muito trabalho. Generosamente, ele reconhece que em dois ou três meses (duas oficinas, pelo menos)  evoluiu «alguns anos». É o poder do ofício quando a exigência é a da mestria. MG
 
Bernardo Pacheco (ilustração)

O Homem sem nome e a Mulher sem rosto.
 
Sobram poucos metros entre aquele sobreiro e uma pequena depressão na terra enxuta. O tique e o taque marcam para lá das vinte e três nas areias Cronos e a Lua já deambula no septuagésimo nono soluço de altitude quando, descuidada, uma lágrima desliza na bochecha de uma nuvem cinza, quase negra de quase luto, e com a pontaria do acaso cai na consequência de uma cova situada a milhares de decímetros daquele sobreiro a tudo alheio. De depressão a cova passa a lago e faz da lágrima, filha do pranto, fonte mãe da vida.

É aqui, sob as coordenadas geográficas de um Alentejo, onde há numa planície quase deserta uma única árvore a florescer de vida. Completamente isolada é ela o foco de tudo. Este quadro é pintado com as mesmas cores da paleta de tantos outros diferindo apenas e somente no traço que o pintor e o destino lhe deram.

Podia ter acontecido a qualquer ser em qualquer altura sem razão alguma, ou a ser algum e em nenhuma altura. Mas foi àquele corvo de poleiro naquele sobreiro que aconteceu. Aquando de se banhar e matar a sede na água fonte da vida que a sua não cessou mas perto, salva só pela lei de Lavoisier, isto é certo. Cai a pena das asas de voar, as articulações começam a partir e a formar ângulos opostos aos de antes, mais ossos nas “antes-asas”, agora ligamentos, músculos e por cima nova carne em retalhos: mãos. Lentamente o bico entra em decomposição até ficarem só dois pedaços de carne: lábios. A boca prenha de dentes enche-se com a língua inchada e em sangue de trincada. Os ossos começam a pesar. Vê com os novos olhos o velho chão distanciar-se, estranhamente agora que não voa. O negro das patas clareia até ser o moreno das pernas, excepto na esquerda onde, como se fosse tinta, o escarlate escorre na mesma direcção e forma um grosso aro abraçando o gémeo e a canela. O seu reflexo no lago é estranho, não se reconhece. É um estranho e à sua agora estranha mente, é branco. Branco de quem nasce novamente e deixa de lhe ser estranho porque se tudo é novo é de esperar que também seja nova a mente. O branco imaculado começa então a ganhar outras cores que o preenchem. Cor-de-conhecimento e tons de razão garridos. Começa a absorver as cores em seu redor e pinta numa tela igual à tela que deveria ser a de Adão antes da Eva, antes até do Criador; À de um recém-nascido antes de cometer o crime de perder a inocência; â de um Homem. Depois das cores, palavras. De alguma forma o seu pensamento é encriptado agora com símbolos que reconhece como se tivessem sido seus desde sempre. A palavra ler; escrever; palavra; raciocínio.

E se bem que tudo tem uma explicação, esta eu não a sei. Sei porém que agora o corvo é homem, e agora o homem já não é um corvo. O pobre animal, menos selvagem, mais consciente; menos asas, mais braços; nas penas menos no pêlo mais; 

Passados algum tempo numa auto-avaliação exaustiva junto ao espelho-lago sente os primeiros impulsos naturais, os mais selvagens que temos como os têm outros animais. A sede, matou-a de vez com aquela água ainda com alguma dificuldade em beber sem afundar nela também o nariz, e os olhos e a cara toda. Mas a fome ficou. Não uma fome de matéria, mas de mais “cores”, mais conhecimento, mais.

Procura saciar os porquês; quem; onde; como; enquanto isto, vislumbra o sobreiro e ao largo uma estrada de terra batida – pó. Ainda atabalhoado é por aí que se arrisca. No sentido contrário ao certo, seja ele qual for.

As altas temperaturas brincam com a sanidade deste Homem-menino perdido no caminho da casa que não sabe se tem. Neste momento as únicas certezas são: o horizonte para onde vai, e está o fim da estrada que quanto mais percorre mais chega só ao “meio”; e que o meio onde esteve lá atrás era só metade do meio onde está; de onde veio, aquele lago junto àquele sobreiro; e a própria dúvida que o atormenta e toma de assalto naquela caminhada com todas as interrogações sem respostas aparentes. Mas segue, talvez elas estejam já ali, naquele horizonte a par da estrela da manhã e da moça, que pisa de chinela e levanta o pó ao som que faz quando baila.

– Hmm? Está ali alguém? – urge em sí o impulso de lhe falar, de a conhecer, de saber se a conhece. Quer gritar, mas a voz amarrada pela sede não permite. Põe tudo o que tem, tudo o que lhe resta em força e arrasta-se numa última corrida, a mais exasperante e demorada de sempre, para ele a mais exasperante e vertiginosa, mais do que em qualquer voo. E voa até ela, estica o braço, ao toque dos seus dedos no ombro despido de Tágide desfaz-se no ar. Vê-se em Outubro no dia quinto. Da inquieta e inquietante só o pó das chinelas. Ao seu redor uma cidade inteira soerguida na direcção dos céus, em rectângulos trazidos para a terceira dimensão pela sua profundidade e num deles, separado apenas pelo frenesim do tráfego na Avenida rasgada em parelha à da República mais precisamente no nº186 sétimo piso, lá estava aquela figura feminina. No meio de tudo o que era tão novo e tão definido: os carros, as pessoas a caminho do trabalho em passo acelerado, o rugir da manhã de Lisboa. Foi ela que lhe furtou a atenção, envolta na dança da nuvem de fumo evocada a cada bafo no cigarro suspenso entre um dedo, a sensualidade e o outro. Finalmente, no tempo de um piscar de olhos, da queda de uma beata caramelo-baton lá de cima a cá abaixo a fumadora foi para dentro e do fumo tratou o vento.

– É isto! Não sei o quê senão que é ela – com esta certeza veio outra, desperta a recordação adormecida do desamor a cigarradas. A Cinco de Outubro continuou e de inerte só aquele tipo ali especado. Mas inerte só por fora, que por dentro acontecia num ritmo prestíssimo um jogo de perguntas e respostas que mais parecia de perguntas e perguntas.

– É-me familiar, a mim que não gosto de fumadoras. Não lhe sei o rosto, não o consegui perceber no meio daquela maldita nuvem de fumaça, todo o resto eu sei, mas o rosto não.

Aaarg! Aquela ali a quem não sei a cara seduziu-me com um “cigarrinho matinal”. A mim, que desprezo de fumadoras. Uma hora após a outra, enredado na memória dela, mira o 7º do nº186 e pensa na traição. A cada minuto sem a ver se junta um minuto da traição à curiosidade deste homem e ao vício de fumar daquela mulher. Provavelmente agora o viciado em fumo é ele, que não fuma. Ele que odeia fumadoras, que pensa mais nisso do que ela.

– Como é que me pôde acontecer isto? Amo-a sem sequer lhe saber a face, amo a maneira como fuma um cigarro, amo-a naquele andar naquela manhã a olhar por aquela janela sem me ver a ama-la cá em baixo.

– LOGO EU, que ABOMINO fumadoras!

Com a estrela da tarde chegou o fim do dia e já não é cinco de outubro data, é estrada de novo, e de novo incerteza. Assim como veio tudo foi, neste homem-trapo tudo míngua e crescente só o desgosto. Na velha estrada cruza com um velho escanifrado também ele errante. De barbas cor de cinza mal aparadas e cabelos recolhidos numa espécie de turbante mal-arranjado feito com as farripas de uma camisa negra. A sua pele é escura e rugosa, galvanizada pelo sol e pela poeira. Carrega às costas expostas um alforge com coisa pouca, nos pés sandálias a deixar sobrar mais pé que sola, e das canelas para cima só umas calças de um vermelho desbotado a esconder pouco mais que as vergonhas e uma marca que traz na perna esquerda.

– Quem vem lá? Sabes onde estamos? Para onde vais? Talvez te possas juntar a mim que caminho sozinho, ou deixar-me acompanhar-te se preferires –  pergunta o jovem sem obter mais do que um angustiante silêncio nos longos espaços entre as estas questões. Sem dizer o que quer que seja o velho busca o alforge de onde tira um pedaço de carne curada e um púcaro, para servir uns goles de vinho tinto ao homem sem nome. Dada a esmola, o velho numa voz rouca que segreda do fundo de um poço diz:

– Além –  apontando com o olhar para um vulto distante, deformado pelas ondas de calor que exala da terra cozida.

– Não sei que procuras, assim como vejo que não sabes tu, mas é naquela direcção que sopram os ventos. Se te tiraram algo é para lá que levam, e até que os ventos tornem a mudar de lá não volta.

Com isto o velho vidrou uma última vez os olhos no Homem Sem Nome e fez-se ao trilho oposto. Seguido de um assentir confiante o jovem parte na direcção aconselhada. Quanto mais se aproxima mais distinta se torna a figura do seu destino. Um sobreiro. Já exausto, alcança finalmente a sua sombra e ali passa o resto do dia e a noite.

Finalmente chega ao destino indicado pelo caminhante desconhecido e no entanto não há mais nada. Nem uma pista da mulher sem rosto ou do que seja. No dia que seguinte, sem força para muito, tenta subir à árvore e averiguar o espaço.  É quando um pé em falso num galho frágil, e uma fuga alvoraçada de um corvo abrigado na copa, lhe dão a deixa para amenizar a fadiga, para desistir desta busca que parece incessante por alguém vago. Tão vago como a memória do homem de perna traçada. E deixando caír o seu corpo num relaxamento completo, deixa caír também a esperança e a vontade. O chão estremece tal como estremeceu o chão onde estavam as raízes do pé de feijão de onde caiu também alguém da outra história. É então que volta à cena a lei de que já falei, regente da morte e da vida. Aquela carcaça ali jazida não é mais do que isso e serve uma ave vestida com as cores da morte. O pássaro, sedento e voraz ataca com a tenacidade e o ímpeto de encher o vazio deixado pelas presas que não conseguiu só ele sabe há quanto tempo. Depois de saciado e amansado o estômago o corvo resguarda-se novamente no sobreiro de onde surgiu, aquele que floresce de vida num sítio onde tudo é pó e tudo é só terra e eco até que alguma nuvem soprada de outras paragens torne a chorar um luto qualquer e dê de beber a um qualquer.

 

Ricardo Estevens
Lisboa 20/03/2014     


 

 

 


 

domingo, 9 de novembro de 2014

Requiem

Publico hoje o primeiro conto saído das últimas Oficinas de Escrita - Blind Date ou Encontros Imediatos de 2º Grau. O desafio foi muitíssimo estimulante, e o belíssimo texto de Alda Rosa testemunha-o. Pela minha parte, dou-lhe todas as estrelas das tabelas que as implicam. Manuela Gonzaga.

 

Deserto, Arches National Park, Utah.
[cortesia Kool Cats Photography]
 

Agora estamos a ficar surdos. Em breve tornar-nos-emos mudos. E em seguida silêncio. Que angustioso silêncio isso causa! Mas será som. Até mesmo o silêncio ficará cheio de som. Será uma espécie de música interespacial para encher o vazio das nossas almas insensíveis.

Que estranheza: silêncio, som, silêncio, angústia. Onde estaremos? Nesta escuridão não conseguimos ver-nos uns aos outros. Também estaremos a ficar cegos? Que espaço será este? Há uma música indelével no ar. Será a nossa respiração? Parece mais um gemido.

Sinto-me assustado. Cego, mudo, vazio, com uma surdez parcial, pois oiço a tal música estranha, que não consigo percepcionar. Fico arrepiado ao ouvi-la. Eu disse que me sinto arrepiado? Pelo menos ainda tenho alguma sensação neste abominável vazio.

Tento andar, mas receio pisar algum dos meus companheiros. Estendo os braços e os meus dedos tocam numa superfície rochosa. Estaremos numa gruta? Coloco um pé diante do outro, com muito cuidado. Não se ouve nada, para além daquela música intrigante. Avanço lentamente e nada. Estarei mesmo acompanhado? Ou ter-me-ão lançado para este espaço desconhecido e vazio sem os meus companheiros?

Tento recordar-me dos momentos que antecederam este vazio. Éramos um grupo de activistas pelos direitos humanos e fomos detidos pela polícia. Colocaram-nos numa cela escura. Ficámos ali, apertados uns contra os outros, a sentir a respiração angustiante de todos nós. Pouco depois, começou o interrogatório e vieram as ameaças. Alguns choraram. Uma mulher desmaiou. Talvez não se tenha magoado, pois não havia espaço para cair desamparada no chão. Não tínhamos onde urinar ou defecar, o que deixou o cubículo imundo e quase irrespirável. Após longas horas de encarceramento, algemaram-nos, vendaram os nossos olhos e colocaram-nos num carro. Percorremos uma longa distância. Provavelmente era noite. Sentíamos um frio gélido a atravessar os nossos corpos. Quando parámos, retiraram-nos as algemas e fomos levados para um espaço. Ouvimos algo a fechar-se. Imaginei que fosse uma porta. Inicialmente o silêncio mas, pouco depois gritos, choro, pedidos de ajuda. Estávamos mais uma vez aprisionados. De repente, deixámos de ouvir qualquer ruído. Já não falávamos. Estaríamos a ficar surdos? Ou mudos? Um silêncio sepulcral. Até começar a tal música indelével, estranha, que parecia trespassar o vazio dos nossos corpos.

Continuo a andar lentamente, mas o medo de pisar algum dos companheiros atormenta-me. Tento gatinhar. Talvez seja mais fácil percepcionar o que me rodeia. Acho que estou numa gruta. As paredes rochosas e o chão térreo. Pelo menos sinto um pó por entre os dedos. E nem sinais de vida. O que terá acontecido aos meus camaradas? E mais uma vez esta música cortante. De onde virá?

Prossigo o caminho. De repente paro. Sinto um vento a passar pela minha face. Estarei perto de uma saída? Continuo, palpando à volta, mas só encontrando rocha. Talvez o ar venha de alguma fresta muito acima do local onde me encontro. Aqui, a música parece ecoar pelas paredes. É um som assustador.

Um pouco mais à frente, a minha cabeça toca numa superfície dura. Levanto a mão e tacteio toda uma zona rochosa. Deito-me e rastejo. Devo estar num local estreito. A música parece menos perceptível. Prossigo e parece-me ver claridade mais adiante. Que alívio, afinal não estou cego. Olho em redor e apercebo-me que estou numa gruta, rastejando num espaço onde só cabe o meu corpo deitado. Avanço até à saída. Finalmente a luz. Levanto-me e olho o meu corpo sujo e emagrecido. À minha volta uma zona árida, sem árvores, pedregosa, pobre em vegetação. Tenho de procurar os meus companheiros ou alguém que me ajude. Percorro o caminho, sem destino. O sol escalda. Lembro-me que estamos no Verão. A fome e a sede provocam-me uma inquietação, quase um estado alucinatório. Caminho cada vez com maior dificuldade. Sinto o corpo a pesar, as forças cada vez mais reduzidas. Nenhum ruído em redor. Ainda estaremos mudos? Abro a boca e grito: Estão a ouvir-me? Pelo menos não estou mudo. Não obtenho qualquer resposta.

Continuo este caminho errante. De repente sinto um odor no ar que me provoca uma náusea intensa. De onde virá? Olho à volta. Não acredito. Uns metros adiante, um amontoado de corpos. Arrasto-me até lá. São os meus camaradas. Foram assassinados e lançados aqui. Como foi possível esta chacina? E como é que sobrevivi? Este cenário é insuportável. Sinto uma dor lancinante no meu peito. Segue-se um vómito imenso. Parece que o meu corpo se está a desfazer. Não aguento mais. A dor cada vez mais intensa. Vou morrer. Estou a ouvir um som, uma música cada vez mais próxima. É um requiem. A dor atroz. Os vómitos incoercíveis. Caio em cima dos corpos. Estão frios. O cheiro é nauseabundo. O meu corpo também está a ficar frio. Quanto tempo terá passado? Como terei conseguido salvar-me? Mas a dor esmaga-me o peito. Estou a morrer. Só resta o requiem, que aos poucos se vai tornando menos perceptível.

Alda Rosa

Lisboa, 20 de Outubro de 2014

domingo, 26 de outubro de 2014

Alma Gémea

Na recolha de textos e sua revisão final para o próximo livro das Oficinas de Escrita, tenho voltado a deliciar-me com os trabalhos das e dos alunos. Aqui fica um extrato do excelente conto de Ana Moita dos Santos. MG

 
Alma Gémea
 
«[...] É impressionante o que um simples penteado pode fazer por uma mulher! Parece futilidade mas não é. Estou a passar por uma separação e um simples gesto de atenção comigo significa muito, neste momento.

Separei-me do meu marido de quinze anos, por vontade e iniciativa própria. Foi um alívio, na altura. Discussões, falta de amor, de respeito, tudo o que meu querido espelho testemunhou em silêncio.

«Desatei a namorar. Imaginem que me encantei por um antigo namorado de juventude, que não via há séculos… e, embriagada de paixão, entrei a fundo no “paraíso”! Divertimento, saídas à noite, viagens, enfim, tudo o que já há muitos anos não fazia.

Tirei a barriguinha de misérias, lá isso tirei. Mas o pior veio depois. É que, enquanto estive no “paraíso”, deixei os meus dois filhos com o pai. Quando regressei à Terra, eles não queriam nada com a mãe, só queriam o pai.

Tem sido muito doloroso viver na Terra sem eles.
[...] »
 
Ana Moita dos Santos