Mostrar mensagens com a etiqueta Blind Date ou Encontros Imediatos do 2º Grau. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Blind Date ou Encontros Imediatos do 2º Grau. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 10 de março de 2015

A Candeia


De Fátima Belling este lindíssimo conto a deixar margem para muito sonhar. Extremamente bem escrito, pede mais, ou melhor, suscita-nos a nós, leitores, muitas perguntas. É uma narrativa breve, intensa e misteriosamente comovedora. Apetece tanto vê-la crescer até ao romance. Será? MG



A Candeia

A ponte inspira-lhe medo.

Na verdade, a ponte inspirava medo a toda a gente, e dizia-se até que era assombrada.  O poderoso penhasco que a envolvia, muitas vezes fendido, projectava na sua superfície espinhos de sombra que a madeira velha arrebatava, oscilante, a cada passo. A água estagnada não produzia qualquer murmúrio tranquilizador, antes reverberava em advertência.

Os pés descalços seguindo pegadas e rastos na terra húmida, ela pousa mais uma vez o carrego. Não é o negrume, o ar gélido, que a assustam. Nem as lendas de espíritos malditos. Nem a sombra imutável do penhasco, qualquer que seja a hora do dia. É, sim, a revelação de uma dor que atravessa os séculos e que paira no ar como um lamento.

Perturbada, ajoelha sobre uma laje triangular, reza, e só então prossegue. A laje abriga, desde há muitos anos, um ninho de escorpiões.

~~~~~~~~~~~~~~~~

Ele percorre mais uma vez o caminho.

A Lua, cúmplice, esconde-se para encobrir a sua silhueta na orla da floresta, tão antiga e cerrada que, dizia-se, nem homem nem animal  lá conseguiam entrar.

Um longo manto esconde os compridos cabelos grisalhos e os últimos  vestígios daquilo que é durante o dia:  Senhor de terras e de gados, respeitado por padres e malfeitores, padrinho desejado de todas as crianças pobres.

Passo a passo, ele só conta com o reflexo das estrelas no orvalho nascente para o alumiar. Mas os arbustos esquivam-se para que não tropece, as pedras afastam-se dos seus pés, o zimbro afiado desvia-se do seu rosto. E os pinheiros rugosos, os únicos que sabem as feridas que tem nas mãos, alisam os troncos por compaixão.

O caminho finda no pequeno vale, onde o riacho o saúda e se aquieta  num sussurro. A casa de pedra cinzenta surge no meio da encosta, entre o céu e a terra, de um lado a fraga altiva, do outro os azevinhos perenes. E a cerejeira-brava. Em tempos, uma cascata jovem beijara o rochedo, unindo-se ao riacho. Mas há muito que secara.

É nesse vale que, atravessando as urzes, os escorpiões interrompem a caçada para lhe trazer notícias. Notícias dela, por cuja luz ele espera, o peito dorido e doente de remorso.

Enfim a janela abre-se, surge a candeia e o ar torna-se resplandecente. A luz flui da casa de pedra, dispersa-se em miríades de partículas que o envolvem e por um momento, um único momento, ele recorda ... recorda um tempo em que ela cheirava a musgos e madrugadas, em que acordavam entre risos e campânulas de prata.  Um tempo em que os corpos de ambos haviam desenhado sóis poentes de desejo nas águas do rio.

A candeia não se apaga, mas a lua espreita, o riacho saltita ansioso. Ao longe, o pio da coruja ecoa, urgente. O manto regressa ao buraco no tojo, e ele afasta-se, mais uma vez, da floresta inexpugnável.

Para logo regressar.

E tantas vezes percorre o caminho, que o riacho altera o curso para o acompanhar. Tantas vezes percorre o caminho, que o lobo de olhos mansos o espera nas encruzilhadas, e a cobra d’água se enrola confiante nas suas pernas. Tantas vezes percorre o caminho, que a escuridão entra na sua vontade, mistura-se com seu sangue, para não mais se distinguir o homem e a noite, sombra de sombras, cinzento o homem, negra a noite.

~~~~~~~~~~~~~~~~

Na casa de pedra cinzenta no meio da encosta, entre o céu e a terra, com a fraga fendida de um lado, e do outro os azevinhos perenes e a cerejeira brava, ela abre a janela. Escuta, serena. Não há nenhum som da cascata outrora jovem, e ela enche então a candeia de azeite, e acende-a. Acende-a para ele, todas as noites. Imagina-o na aldeia, os compridos cabelos negros, os olhos azuis como um céu sem nuvens, a cuidar das terras e dos gados.

Acende a candeia, para que Deus o proteja.

Fátima Belling

Lisboa, 23 de Fevereiro de 2015

 

sábado, 7 de março de 2015

Pior que inimigos

Da nossa oficina de Encontros Inesperados ou Blind Date, sai mais um fabuloso texto. É um conto que nos coloca no palco de uma pequena tragédia rural, mas que, mais ainda, nos remete para o arquétipo dos irmãos que se odeiam, um tema que semeia as páginas do Velho Testamento, e toda a mitologia clássica. De Ana Moita dos Santos, uma narrativa poderosa, que se lê de um folego e nos, me enche de orgulho. MG


Eduardo Carrillo (1937-1997), 'Two Brothers Fighting,' 1986, óleo sobre tela
 
PIOR QUE INIMIGOS

Como era possível dois irmãos odiarem-se tanto? Lutavam um com o outro desde pequenos e, agora, ali estavam eles, homens feitos, prestes a matarem-se.

Na praça defronte da igreja, depois da missa de domingo a que assistiram com a mãe, uma troca áspera de palavras entre os dois dera início àquela dança mortal.

De navalhas em riste, olhos fixos um no outro, os dois homens movimentavam-se, ondulando os corpos como serpentes prestes a atacar, dissimuladas mas totalmente concentradas, a medirem a presa, aguardando uma oportunidade para investir, com toda a força e energia de que eram capazes.

Podiam morrer nos dez minutos seguintes, mas pareciam não se importar. De olhos presos nos olhos do outro, não desviavam a atenção, nem mesmo quando a velha gritava:

Parem! Não quero que lutem! Parem!

Nada, mesmo nada, podia interromper aquela dança. Estavam dispostos a morrer na luta que haviam iniciado há décadas atrás, desde que se conheciam como gente.

Pior que inimigos, eram irmãos.

 

IRMÃOS

O mais novo, José, sempre fora o preferido da mãe. Manuel nunca deixara de sofrer com isso. Tinham apenas ano e meio de diferença e, desde que José nascera, Manuel nunca mais se sentira querido.

A mãe, aquela velha mal penteada e enrugada, tinha sido uma bela mulher e Manuel idolatrava-a com todas as suas forças, apesar de saber que ela não o amava. Só queria que ela lhe desse um pouco de atenção, que gostasse dele um bocadinho… mas a mãe só tinha olhos para o irmão mais pequeno. Estava sempre a rebaixá-lo, comparando-o com o irmão. Este sim, era o seu mais que tudo! Lembrava-lhe o marido adorado, Vasco, que tinha falecido pouco tempo depois do nascimento de José, deixando-a sozinha com os dois para criar e uma ferida de saudade lívida, no peito inconsolável.

Manuel só o conhecia pelas fotografias nas molduras de latão amarelo da sala de estar: alto, bonito, rosto esguio, louro, de olhos azuis, pele branca e sorriso matreiro no canto dos lábios finos. José parecia-se muito com o pai.

Manuel, pelo contrário, baixo e moreno, de cabelo castanhos e olhos pretos, saía ao lado da mãe. Não era bonito, mas atraente, à sua maneira. Rosto quadrado, feições bem marcadas, quase rudes. Estava sempre de semblante carregado. Nunca sorria, a não ser quando achava graça a alguma maldade.

Isto irritava a mãe, que tentava corrigi-lo, para que se parecesse mais com o irmão, bem-humorado e divertido. Em vão, diga-se, pois Manuel não seguia os seus conselhos. Pelo contrário, no mais íntimo de si, foram crescendo sentimentos tão destrutivos como facas de gume afiado, idêntico ao das navalhas que agora ele e o irmão empunhavam. Mágoa, ciúme e rancor, foram-se exponenciando, até se transformarem num ódio profundo e visceral contra José, que Manuel não conseguia evitar nem dominar.

Raios partam o meu irmão e o dia em que nasceu para me infernizar a vida! Por que razão a minha mãe não gosta de mim como sou?

A mãe ria-se de tudo o que José dizia, aceitava todas as suas ideias e estava a sempre a dizer-lhe:

Ainda bem que não dei ouvidos ao teu pai. Ele dizia que a vida não estava para ter mais do que um filho. Mas eu insisti em ter pelo menos mais um. Ser filho único não é bom.

Manuel ouvia isto vezes sem conta e logo arranjava um pretexto para bater no irmão. Batia-lhe e gritava:

Ser filho único é que eu gostava, malandro! Só nasceste para me prejudicar.

Como era mais forte e robusto, abusava. José encolhia-se e, sem responder, esperava que a raiva do irmão passasse. Desde os seis anos que se lembrava de apanhar dele. Ficava com o corpo cheio de nódoas negras, mas nunca fazia queixa à mãe. No fundo, achava que merecia porque o irmão só lhe batia por a mãe gostar mais dele. Por outro lado, sabia que se fizesse queixa, a mãe zangava-se com o Manuel e punha-o de castigo. Depois, apanhava mais, mal ela se fosse embora trabalhar.

José sofria com o facto de o irmão não gostar dele e dava voltas à cabeça para encontrar uma forma de serem amigos. À noite, na cama, estava muito tempo sem dormir, a pensar no que poderia fazer para que isso se tornasse realidade. Por vezes tentava falar com o irmão, mas este começava logo a bater-lhe, e José calava-se.

Não havia nada que pudesse fazer. O problema não estava em si, mas na mãe.

A MÃE

A mãe olhava desesperada para os dois filhos, prestes a matarem-se à navalhada. Há muitos anos que intuíra que uma luta fatal poderia vir a acontecer, mas nada fizera para o evitar.

Sentia-se culpada. Nunca tinha sido capaz de controlar aquela guerra surda entre os dois e agora, pela segunda vez, arriscava-se a perder a pessoa que mais amava na vida.

Recuou, duas décadas atrás. Estavam os quatro no quintal da casa, num dia quente e soalheiro de Agosto. Ela, Vasco e os dois filhos. José, com apenas oito dias de vida, dormia no berço e Manuel, de dezoito meses, brincava no jardim com uma forquilha de cabo alto, que o pai utilizava para fazer jardinagem. A mãe pedia-lhe que largasse a forquilha, pois podia magoar-se, mas a criança, traquinas, não lhe obedecia. O pai interveio e o Manuel, quando o viu a correr na sua direcção para lha tirar, largou-a de repente e pôs-se a fugir, soltando gargalhadas altas e sonoras. Estava alegre, pois pensava que o pai queria brincar com ele. O pai, sem reparar, pisou a forquilha, de tal forma, que os dentes desta se espetaram com violência no seu pescoço, apanhando-lhe a glote, não lhe dando hipótese de escapar. Rapidamente se esvaiu em sangue. Quando a ambulância chegou, já estava morto. “Foi o maior desgosto da minha vida”, recordou a mãe, destroçada por aquela memória tão trágica. Lágrimas grossas e ácidas caíram-lhe dos olhos, queimando-lhe o rosto.

E foi nesse momento que percebeu. Culpara sempre o Manuel pela morte do marido. E, só agora, que se confrontava com a possibilidade de o seu filho querido poder morrer às mãos do irmão, tomava consciência disso.

Mais uma vez, só se preocupava em salvar o José.

 

A LUTA FINAL

Haviam passado cinco minutos apenas, desde que a luta se iniciara, mas parecia terem decorrido várias horas. A tensão que se sentia no ar era sufocante. Duas serpentes ondulando na praça da igreja, uma à espera que a outra tomasse a iniciativa de atacar.

Vários populares assistiam à luta, a uma distância segura dos irmãos, não fosse aquilo acabar em sangue. Alguém informava que a Polícia já tinha sido chamada e podia chegar a qualquer instante.

Foi, então, que Manuel avançou de navalha em punho, olhos chispantes, boca aberta, num esgar aterrador. José, atento, desviou-se da navalha mas não contra-atacou. Ficou atónito, a olhar o irmão. Finalmente, dava-se conta de que ele seria mesmo capaz de o matar. Perante a atitude desconcertante de José, Manuel hesitou mas, logo em seguida, deu um salto ágil em frente, impulsionando o braço que empunhava a navalha, na direcção do irmão. Mais uma vez, José conseguiu desviar-se, tendo a navalha embatido na pedra da igreja, partindo-se em dois bocados.

Foi, então, que a mãe, desesperada, se colocou entre os dois, gritando:

Manuel, eu sou a culpada, não mates o teu irmão!.

Mãe, tu não és culpada de nada – retorquiu Manuel com um grito. – A culpa é toda dele. Sempre te quis só para ele.

Não é verdade, Manuel. Eu é que sempre te culpei pelo acidente que acabou com a vida do vosso pai confessou a mãe.

E, agarrando-lhe com força a mão direita, fê-lo largar o bocado de navalha que ele ainda segurava, e continuou:

Pensei que, se me tivesses obedecido quando te ordenei que me desses a forquilha com que brincavas, talvez ele ainda estivesse vivo. Hoje percebi o mal que tais pensamentos nos fizeram aos três. Nunca te dei amor e fiz com que odiasses o teu irmão, que não tem culpa de nada.

Manuel não conseguia deixar de pensar no que a mãe acabara de dizer. E se tivesse sido obediente, o pai ainda estaria vivo? Tudo teria sido diferente com ele cá, disso Manuel não duvidava. Lembrou-se do carinho que o pai lhe dava, de como brincava com ele tantas vezes, do cheiro da sua pele que ainda hoje conseguia sentir, memórias boas de tenra infância... As lágrimas começaram a correr-lhe cara abaixo e, olhando para o irmão, pensou: “Eu devia matá-lo, riscá-lo do mapa! Mas, e se a culpa não é dele, mas minha? Ou da mãe?”.

José, que já tinha largado a arma, ergueu os olhos para o azul límpido do Céu sem nuvens, e rezou:

Meu Deus, como foi possível dois irmãos chegarem ao ponto de quererem tirar a vida um ao outro? Ajuda-nos, que nós já não sabemos o que fazemos!

Viu que o irmão se aproximava a passos lentos e cansados, trazendo a mãe pelo braço. Tinha uma expressão dolorosa no rosto e os olhos cintilantes de lágrimas. A mãe, em estado de choque, ainda mais desgrenhada, as faces enrugadas, vermelhas, queimadas de tanto chorar, pedia aos filhos:

Perdoem-me, perdoem-me! Perdoem-se um ao outro. Eu amo os dois.

Os irmãos olharam-se, extenuados de tanto ódio, desejosos de se afastarem da luta infernal que os tinha lançado naquela dança de serpentes enlouquecidas.

Pela primeira vez, Manuel desejou ser amigo de José. Este, por sua vez, relembrou as noites de criança em que não conseguia pregar olho, pensando em como poderia ganhar a amizade do irmão. Porém, nada fizeram.

Ainda não estavam preparados.

Ana Moita dos Santos, 22.02.2015

sábado, 31 de janeiro de 2015

Dentro da sua solidão

Para Sara Pires, o encontro, completamente inesperado, aconteceu numa esplanada. Encontro literário, já se vê, que emergiu num fio de palavras desatadas pela imaginação poética e plena de sensibilidade que se adivinha neste belo conto. O primeiro de muitos, esperamos nós. MG
 
 
Dentro da sua solidão

E ali estava ele na esplanada, apreciando e olhando. Só a sua presença arrancava suspiros a qualquer mulher. Bem vestido, cabelo grisalho, encaracolado, penteado para trás, fato azul-escuro e camisa branca sem um vinco que fosse, a sua figura imponente, 1,80m, não passava despercebida.

Gostava de ficar tardes e tardes apreciando tudo e todas. Demorava-se nos pormenores de cada uma, olhava-as fixamente, e não tentava disfarçar. Sabia que o seu olhar provocava sorrisos e rubores. Eram estas sensações que o nutriam, espicaçavam e mantinham vivo. Após o “abandono” da sua mulher prometera a si mesmo que nunca mais iria ter vergonha de olhar, provocar e ceder às emoções. Sabia que já não tinha idade para estes jogos, mas era tão divertido! E aqui entre nós: será que há idade específica para estes jogos?

Com a ex-mulher nunca tomara as rédeas da relação. Pior ainda, abdicara dos sonhos e dos desejos. E agora, ali estava ele em mais um final de tarde, quando todas, apressadamente, regressavam a casa. Mas em frente daquela esplanada, o passo não era assim tão apressado. Aqui, o olhar maroto, provocador deixava-as desprevenidas e ele alimentava-lhes o ego que tão bem lhes fazia à alma.

Mas havia uma que, dentro da sua solidão, o nutria especialmente. Uma a quem todas as tardes servia o mesmo chá, à mesma hora e na mesma mesa. Esta, provocava-lhe os mesmos sentimentos que ele arrancava às mulheres que passavam pela esplanada. Dela apenas conhecia o cheiro a jasmim, os longos dedos, o cabelo ruivo apanhado de forma austera, o olhar de soslaio com que ela o vislumbrava na sua farda impecavelmente passada a ferro. E o seus passos silenciosos. Ele sabia, ou melhor, sentia, que ela que não tinha a pretensão de interromper o seu ritual de final da tarde.

Ela ainda não esquecera os maus tratos sofridos durante anos e anos às mãos do ex-marido, e não queria repetir os mesmos erros. O melhor era manter-se afastada... O seu ex-marido também era assim, bem-parecido e encantador. Não lhe batia, mas os maus tratos psicológicos podem causar danos mais profundos do que os físicos. Obcecava-o a ideia de que todos os homens olhavam para ela, e ela tivera de aprender a deslocar-se silenciosamente, como um fantasma, até ao dia em que fugiu, pondo fim aquela angústia. Mudou de cidade e conseguiu erguer-se, mas a confiança, essa nunca mais a recuperou.

Agora, tinham-se passado duas semanas que ele não aparecia na esplanada. Todos os finais de tarde as mulheres que passavam por ali abrandavam o passo e miravam as mesas, como que procurando alguém. Mas ela sabia onde ele vivia, e um dia, quase ao anoitecer, bateu-lhe à porta, uma, duas vezes. À terceira ouviu um gemido, as trancas rangeram e a porta abriu-se. O imponente 1,80m apareceu prostrado e impecavelmente desgrenhado. Sem trocarem uma palavra, ela amparou-o, aconchegou-o na cama e chamou um médico que lhe diagnosticou uma pneumonia. Teria de repousar e alimentar-se bem. Ela recebeu a receita foi aviá-la à farmácia, no regresso passou por casa fez uma canja, colocou-a num tupperware que embrulhou num jornal para manter o caldo bem quente.

Pela primeira vez ele conseguiu ver os seus olhos castanhos mel. Sempre sem falar, ela pôs a mesa, serviu-lhe a canja, olhou-o fixamente, deu-lhe o medicamento e saiu porta fora. Durante semanas, o ritual manteve-se: à hora das refeições ela chegava, servia-o, olhavam-se e, por fim, saía. Não eram necessárias palavras, o olhar dizia tudo. Ele sabia que tinha de respeitar aquele silêncio e ela não queria estabelecer qualquer outro contacto mais profunda. Era ainda muito cedo. Aquele ritual que ela cumpria diariamente desde que o encontrara doente, dizia ela a si própria, tê-lo-ia feito por qualquer outra pessoa. Na verdade, a presença constante daquele homem na sua esplanada fazia-lhe falta.

Ao fim de um mês ele recuperou completamente, olhou-a e pela primeira vez quebrou o silêncio:

– Obrigada! – disse.

Ela assentiu com a cabeça e saiu.

E tudo voltou ao que era dantes. O serviço de chá na esplanada, a romaria de final da tarde, as mulheres abrandando o passo e ele sorrindo-lhes. Mas a ela, ele respeitava-a como nunca respeitara outra mulher, e o seu silêncio era a sua bênção.

Para ela, ainda era muito cedo. A ele só lhe restava esperar.

O tempo, que tudo cura não se esquece, mas permite seguir em frente.

 

Sara Pires
Lisboa, 6 de Janeiro de 2015

 

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Encontros Inesperados


E quando um desconhecido ou uma desconhecida...
Oficina de escrita que pretende despertar a narrativa torrencial por resposta a um desafio inesperado, cujo teor não revelaremos para manter intacta a energia da surpresa e a magia do encontro.
A mente é inútil, quando a mente é cega
[cortesia de Favim]


O titulo desta proposta literária partiu de um pressuposto «Blind Date» ou, em tradução muito livre «Encontros Inesperados». Em síntese, a expressão «Fiquei sem palavras» - é provavelmente o que vai acontecer aos participantes desta oficina  nos primeiros momentos em que encontrarem o desafio apresentado.

Uma reação seguida de entusiasmo e escrita compulsiva, a avaliar pelo que tem acontecido nas outras oficinas do mesmo teor, cujos contos, magníficos, têm vindo a ser publicados neste blogue.
Como? Ao longo de três aulas propomos a construção de narrativas com base no convite ou na proposta que cada um escolher. Literalmente às cegas.

Quando? As oficinas decorrem às terças-feiras, com início pelas 18.30, nos dias 3, 10 e 24 de Fevereiro. 

Na primeira sessão será equacionada a construção da narrativa (3 de Fevereiro);
Na segunda o seu aperfeiçoamento (dia 10 de Fevereiro);
Na terceira a sua conclusão (dia 24 de Fevereiro).

Cada aula tem a duração de uma hora presencial, com uma tolerância adicional de meia hora, entre o começo e o fim, para quem quiser esclarecimentos mais personalizados.

Onde é? no lindíssimo espaço da Livraria Alêtheia, à rua do Século, nº 13 (metro Chiado).
Os contos serão, posteriormente, inseridos neste blogue e na nossa página das Oficinas de Escrita, no facebook. Como tem vindo a acontecer com todos os outros.

Contactos:
manuelagonzaga@gmail.com
Telefone (+ 351) 210939748 * Email: aletheia@aletheia.pt
Preço total da oficina: 60 euros.

Adicional: Ao longo do tempo em que durar a Oficina, os participantes podem colocar questões à orientadora, por email, ou pessoalmente. As anotações sobre a escrita serão  sempre conduzidas no sentido de orientar a eficácia do discurso. Tanto quanto possível, essas considerações serão pessoais – de orientadora a orientando/a.

 

domingo, 25 de janeiro de 2015

O Armário de Priscos

O João Miguel Teodoro é um quase residente das oficinas - mas de todas as vezes, o mínimo que e pode dizer dos seus textos é que nos surpreendem sempre ao máximo. Como este seu conto, surreal e labiríntico, no seu jogo de palavras, ideias e sonoridades de muito poderoso e sedutor apelo.  MG


 
Quando andava louca, numa caminhada pelos arcebispos em busca de uns pontos cardeais que me levassem ao Abade de Priscos, já tinha deixado o Viana para trás e puxava pelo Timóteo, que, com sofreguidão, acompanhava o meu ritmo atrás do atraso.
O Carlos no seu nulo ser, mas na sua notável instrução, deveria estar à minha espera como sempre, sem saber muito bem se estava atrasado ou adiantado. Eu, com menos instrução, sabia que estava. Seguramente pontual é que não estava.
Este seu jeito deu-me inúmeras oportunidades para treinar uns Timoteos. Continuo a treinar. Espero é que quando o Timóteo se sincronizar com o meu caminhar consiga chegar perto do Carlos e da fome que eu já pressentia nos seus arrufos. Como ainda estavamos apressados para o almoço, pensava que o Carlos no seu rosto já não tivesse restos do creme de desfazer barba, feita de manhã, e que a assimetria facial não fosse, mais uma vez, uma qualidade escondida no seu despiste. É tão despistado que muitas vezes se esquecia de mim...e que jeito tal me deu nos treinos.
Já não via o Pedro há imenso tempo. Nem mesmo quando estava combinado um encontro com o Timóteo, e a Maria era tramada.
Ah! Lá estava o Carlos previsível como apelido. Calmo, a julgar que estava adiantado e com a imagem que eu imaginava. Fiz de conta que estava com a pontualidade no auge e com o estômago a dar horas, em sintonia com o choro do Timóteo. O silêncio foi servido durante o almoço. Definitivamente, tinha dois estranhos comigo. Tudo terminou com o doce que deu nome à casa onde o nosso repasto, atrasado, não se prolongou por muito tempo. Já não me lembro muito bem, mas nas despedidas do Carlos, o meu olhar puxado pelo Timóteo, identificou a Maria. Despachei o Carlos com uma pressa cobarde. Uma saudade da Maria invadiu todo o meu corpo.
Fiquei cheia de dúvidas e o filme da vida terminou com o primeiro choro do Timóteo. Talvez fosse a minha forma de repelir o que tinha feito à minha amiga, mas estar com o Pedro foi tão bom. Ela encarou o nascimento do Timóteo como uma experiência, leia-se lição para vidas futuras. Do meu sofrimento à experiência adquirida da Maria, foi crescendo uma linda retrospectiva de uma vida a quatro e que subitamente terminou com o Timoteo a sair do meu ventre. Afinal, a cinco a história não tinha piada.
De facto não tinham passado muitos anos desde o nosso afastamento, mas aquela visita da Maria às festas da senhora da Agonia foi uma lufada de ar fresco e terminou com a minha agonia. Já me tinha esquecido do Carlos, do Pedro e até do pequeno Timóteo.
Naquele tempo a velhice podia ser “maravilhada”, mas não corrigida. Agora, de mão dada com a Maria, o Timóteo de visita à nossa casa, vai-me dizendo que sim. Dando o desconto que os filhos acham sempre as mães os seres mais lindos do mundo, agora tinha duas, esforço a dobrar. O Timóteo, que nunca teve um armário, demorou algum tempo a entender o armário destas mães: uma delas pediu emprestada o marido da outra para o ter.
A minha vida em Braga depois daquele almoço no Abade de Priscos ficou sem orientação, por uns tempos. Parece que fiquei com a minha história interrompida. Sentimentos que eu achava menores, invadiram o meu coração e quando o coração é invadido por sentimentos até respirar custa. Nada parece funcionar.
 
João Miguel Teodoro
Lisboa, 28 de Outubro 2014
 
 
 
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

QUE HORAS SERÃO, QUE DIA?

Publico com o maior prazer mais um conto saído das nossas últimas oficinas, assinado por Elizabeth Carreira. É uma narrativa pungente, apocalíptica, muito bela. Acima de tudo, é um conto credível que se materializou esplendorosamente. Blind Date foi realmente uma belíssima surpresa para todos nós, participantes e orientadora. MG

Singapore Ruins, by JonasDeRo


Lembro-me de ti, Luísa. Lembro-me sempre de ti. Tudo me traz recordações de ti, de nós, porque tu eras parte de mim e eu sem dar conta, tantas vezes. Minha mulher militante de todas as causas. Leio, escrito por ti à pressa, em letra descuidada, no bloco que deixaste aberto sobre a secretária:

Sou partidário.
Eu odeio quem não participa,
Eu odeio os indiferentes.
António Gramsci, Scritti giovanili.

Usaste-a na última intervenção, como sempre acalorada, no congresso da organização verde de que eras dirigente? Esse congresso que te levou ao norte do país, justamente quando a guerra, ou lá o que é isto, rebentou. Ainda falámos ao telemóvel, mensagens breves, tranquilizadoras... enquanto houve energia. «Estás bem?»

-- Sim. Falei com o Pedro, estão todos bem, mas confirmou que em Londres estão como nós. Temos de ter paciência, isto vai ser resolvido, mais dia, menos dia a situação vai resolver-se. Tem cuidado, não saias. Assim que puder vou para casa, hei-de arranjar maneira.

-- Não vais cruzar os braços, bem sei. Eu espero-te, não saio daqui.

Queria dizer “meu amor” mas a chamada caiu. E agora, pressinto-te em todos os ruídos e em todas as sombras e assim meço a verdade do meu amor por ti. Tento andar aprumado e manter a casa digna para quando chegares, apesar da falta de água e de luz. Aparo a barba e o cabelo com uma tesoura. Levo horas nisso. Arejo a roupa na varanda, à socapa, não vá alguém ver-me, e penduro-a em cabides.

Estou só, numa casa cheia de objetos que foram essenciais até que se tornaram inúteis. Frigorífico, televisão, computador. Fogão elétrico. Micro-ondas! Lavatórios, torneiras, banheiras... Ah, e o carro na garagem! Ao princípio, estava certo que era uma questão de um, dois dias. Uma semana... depois outra... quantas se passaram já? Perdi-lhes a conta.

Ocorreu-me isto da escrita, como um escape. Felizmente coleccionei lápis atrás de lápis ao longo da vida, quando já nem escrevíamos à mão, tudo no computador. E papel não falta. Nem tempo. Preencho os dias e esta ausência de comunicação que me enlouquece. Agora, lembro-me de Anne Frank e do seu diário. Visitei em jovem a sua casa-museu, em Amsterdão, longe de imaginar que décadas depois iria enfim compreender tudo por que passou, ela e muitos outros.

Tomo pois consciência de que corro o risco de me transformar na Anne Frank do século XXI. Tinha a sua graça. O testemunho de um homem, entre milhares, que digo eu?, milhões, dezenas, centenas de milhões, pateticamente condenados a morrer de fome, sede e solidão após uma vida de abundância, festança e consumo desenfreado. É uma grande anedota. De morrer a rir... Quantos não terão morrido já? Abro a janela e fecho-a de seguida, tão pestilento está o ar. Graças ao teu cuidado, tínhamos a despensa bem recheada, e tantos tantos garrafões de água na garagem... para uma eventualidade, uma mania tua que eu ridicularizava! Dizias que tinhas estado duas semanas sem água canalizada quando tinhas vivido em África e assim tinhas aprendido o valor do bem mais precioso do que tudo o que possamos guardar! E eu a reclamar que aquilo era uma inutilidade e ocupava muito espaço... Consumo pouco, o menos possível. Olho para os garrafões e sei exatamente o tempo que a água vai durar. O meu tempo de vida? Ao princípio ainda usava alguma para me lavar. Agora nem pensar, que morra sujo mas o mais tarde possível!


O que eu dava para poder ouvir música! Reorganizei os nossos muitos CDs. Luísa, Luísa, não tens o instinto da organização, por isso passas a vida à procura das tuas coisas. Estava tudo misturado, alguns fora da caixa, outros em caixas erradas... Se estivesses cá ouvias das boas. Quem dera, quem dera que um dia voltes a remexer tudo, a tirar tudo do lugar!

 

Tenho essa esperança, uma quase certeza de que tudo volte ao lugar. “A esperança é a última a morrer!” “Enquanto há vida há esperança!” Expressões populares que até incomodava ouvir, de tão ditas e reditas, a maior parte das vezes sem quererem dizer nada. Frases de circunstância, ocas, quase sempre hipócritas, ditas da boca para fora. Ah, mas tão verdadeiras na condição em que me encontro! Mais do que a falta de água e de luz, a tua ausência diminui-me. Resisto porque sei que virás, movida pela tua implacável determinação. A qualquer momento ouvirei o som da tua voz e ela soará imperturbável:
 
Olá, António.


Hoje, abri a penúltima lata de atum. Vai dar para três, quatro dias. Mastigo cada pedacinho. Mastigo e remastigo. O pior é que me faz sede. Olha, Luísa, afinal não precisei de ir ao ginásio, perdi a barriga por completo! As calças é que me caem, preciso de calças novas, vou fazendo furos no cinto, mas já não dá para fazer mais.

Já que isto pode ser um testemunho à la Anne Frank, devo contar como tudo aconteceu. De um dia para outro, sem qualquer previsão ou declaração de guerra -- ainda estou para saber como tudo isto escapou aos serviços secretos de todo o mundo ocidental -- operações de sabotagem concertadas deixaram todo o ocidente a morrer à míngua, sem água, comunicações, combustíveis... de que vale um exército sem pão nem comunicações? Carros, barcos, aviões sem combustível, bancos “sem sistema”- e de que nos serviria o dinheiro nestas circunstâncias?, a insegurança gerada pela fome, tudo a agravar-se dia a dia, até nos trancarmos em casa, tentando passar por invisíveis com medo de assaltos aos escassos bens que nos vão possibilitando a existência... Foram usadas bombas, armas químicas, violência? Invadiram o nosso território? Não, nada disso. Pelo menos por enquanto, que eu saiba. Devem estar à espera que, pura e simplesmente, morramos todos. É a mais sofisticada, a mais clean das guerras, esta. Toda despoletada através dos sistemas informáticos. Passámos a depender deles, facilitaram-nos a vida, entregámos-lhes as nossas vidas.

Literalmente.

O pior de tudo é ignorarmos o que realmente se passa. Limitamo-nos a esperar. E um dia destes já não queremos saber porque, estando ainda vivos, já deixámos de viver. Escurece, já não vejo o que escrevo. Que horas serão, que dia? Horas de molhar os lábios - delícia suprema dos meus dias - e de me enfiar na cama. Adormecer a reviver momentos bons da nossa vida, Luísa. A reviver as nossas noites de amor. As nossas viagens. A infância do nosso filho.Também pensas nisso? Era boa a nossa vida. Era vida.

Não foi amor à primeira vista, o nosso. Vivíamos em mundos diferentes, apesar de frequentarmos o mesmo café. Ah, a importância dos cafés na vida social dos anos 60, 70! Eram a nossa sala de visitas comum, o nosso facebook, o nosso telemóvel. Quem me queria encontrar, era passar na Roma depois de jantar. Podia dizer-se “Diz-me a que café vais, dir-te-ei quem és”. Na Roma, porém, havia grupos distintos. Em zonas distintas. À entrada, os “betinhos” da avenida de Roma, era assim que nos catalogavam, grupo a que claramente pertencia. Classe média confortável, gente conservadora,  seguindo os ditames da moda. Lá para trás ficavam os outros, muitos deles estudantes do Técnico, cabeludos, barbudos, ar contestatário de maio de 68. Não deixavam de ser burgueses, por mais que lhes custasse admitir isso, já que naquele tempo as classes trabalhadoras não estudavam na universidade. Só que não eram dali, como nós, e não viviam em casa dos pais. Vinham muitas vezes “da província” ou dos “territórios ultramarinos”. Viviam em quartos alugados ou em residências.

As miúdas, como dizíamos, também se dividiam pelos dois grupos, as mais ou menos hippies, cabelos longos, roupa étnica ou casual,  e as embonecadas, que não saíam de casa sem se mirarem dezenas de vezes ao espelho. Como a minha namorada. Melhor dizendo, quase-noiva. Não se pode negar que fosse bonita. Eu sentia algum orgulho quando ela entrava no café, fresca e elegante. Estava empenhado naquela relação, que me parecia absolutamente certa.

Um dia senti uns olhos trocistas fixados em mim. Os teus. Nunca te tinha visto, pertencias claramente ao grupo lá de trás, longos cabelos desalinhados, saia comprida colorida, camisa amarrotada. Olhos muito pintados. Davas nas vistas, mas não me passaria pela cabeça meter conversa contigo. Ao fim de poucos meses deixaste de aparecer, terás mudado de café. Curiosamente, dei por isso. E foi com um sobressalto que deparei contigo, cerca de um ano depois, na biblioteca da Gulbenkian. «Olá, António!» disseste tu naquele tom de voz que usamos nas bibliotecas. Aquele sorriso trocista enervante. Que passei a amar perdidamente. Mas isso foi mais tarde.
 

É bom ter tantas memórias para ocupar o meu tempo, devia ter começado a escrever há mais tempo, quando tinha mais energia. Agora canso-me depressa. Seria mais fácil se tivesse café. Tenho cápsulas, tenho máquina, mas falta tudo o resto. Às vezes corto uma cápsula para cheirar e lamber o café. E não é que me revigora?
 
Elisabeth Carreira, Lisboa, 28-10-2014
 
 
 
 
 

domingo, 9 de novembro de 2014

Requiem

Publico hoje o primeiro conto saído das últimas Oficinas de Escrita - Blind Date ou Encontros Imediatos de 2º Grau. O desafio foi muitíssimo estimulante, e o belíssimo texto de Alda Rosa testemunha-o. Pela minha parte, dou-lhe todas as estrelas das tabelas que as implicam. Manuela Gonzaga.

 

Deserto, Arches National Park, Utah.
[cortesia Kool Cats Photography]
 

Agora estamos a ficar surdos. Em breve tornar-nos-emos mudos. E em seguida silêncio. Que angustioso silêncio isso causa! Mas será som. Até mesmo o silêncio ficará cheio de som. Será uma espécie de música interespacial para encher o vazio das nossas almas insensíveis.

Que estranheza: silêncio, som, silêncio, angústia. Onde estaremos? Nesta escuridão não conseguimos ver-nos uns aos outros. Também estaremos a ficar cegos? Que espaço será este? Há uma música indelével no ar. Será a nossa respiração? Parece mais um gemido.

Sinto-me assustado. Cego, mudo, vazio, com uma surdez parcial, pois oiço a tal música estranha, que não consigo percepcionar. Fico arrepiado ao ouvi-la. Eu disse que me sinto arrepiado? Pelo menos ainda tenho alguma sensação neste abominável vazio.

Tento andar, mas receio pisar algum dos meus companheiros. Estendo os braços e os meus dedos tocam numa superfície rochosa. Estaremos numa gruta? Coloco um pé diante do outro, com muito cuidado. Não se ouve nada, para além daquela música intrigante. Avanço lentamente e nada. Estarei mesmo acompanhado? Ou ter-me-ão lançado para este espaço desconhecido e vazio sem os meus companheiros?

Tento recordar-me dos momentos que antecederam este vazio. Éramos um grupo de activistas pelos direitos humanos e fomos detidos pela polícia. Colocaram-nos numa cela escura. Ficámos ali, apertados uns contra os outros, a sentir a respiração angustiante de todos nós. Pouco depois, começou o interrogatório e vieram as ameaças. Alguns choraram. Uma mulher desmaiou. Talvez não se tenha magoado, pois não havia espaço para cair desamparada no chão. Não tínhamos onde urinar ou defecar, o que deixou o cubículo imundo e quase irrespirável. Após longas horas de encarceramento, algemaram-nos, vendaram os nossos olhos e colocaram-nos num carro. Percorremos uma longa distância. Provavelmente era noite. Sentíamos um frio gélido a atravessar os nossos corpos. Quando parámos, retiraram-nos as algemas e fomos levados para um espaço. Ouvimos algo a fechar-se. Imaginei que fosse uma porta. Inicialmente o silêncio mas, pouco depois gritos, choro, pedidos de ajuda. Estávamos mais uma vez aprisionados. De repente, deixámos de ouvir qualquer ruído. Já não falávamos. Estaríamos a ficar surdos? Ou mudos? Um silêncio sepulcral. Até começar a tal música indelével, estranha, que parecia trespassar o vazio dos nossos corpos.

Continuo a andar lentamente, mas o medo de pisar algum dos companheiros atormenta-me. Tento gatinhar. Talvez seja mais fácil percepcionar o que me rodeia. Acho que estou numa gruta. As paredes rochosas e o chão térreo. Pelo menos sinto um pó por entre os dedos. E nem sinais de vida. O que terá acontecido aos meus camaradas? E mais uma vez esta música cortante. De onde virá?

Prossigo o caminho. De repente paro. Sinto um vento a passar pela minha face. Estarei perto de uma saída? Continuo, palpando à volta, mas só encontrando rocha. Talvez o ar venha de alguma fresta muito acima do local onde me encontro. Aqui, a música parece ecoar pelas paredes. É um som assustador.

Um pouco mais à frente, a minha cabeça toca numa superfície dura. Levanto a mão e tacteio toda uma zona rochosa. Deito-me e rastejo. Devo estar num local estreito. A música parece menos perceptível. Prossigo e parece-me ver claridade mais adiante. Que alívio, afinal não estou cego. Olho em redor e apercebo-me que estou numa gruta, rastejando num espaço onde só cabe o meu corpo deitado. Avanço até à saída. Finalmente a luz. Levanto-me e olho o meu corpo sujo e emagrecido. À minha volta uma zona árida, sem árvores, pedregosa, pobre em vegetação. Tenho de procurar os meus companheiros ou alguém que me ajude. Percorro o caminho, sem destino. O sol escalda. Lembro-me que estamos no Verão. A fome e a sede provocam-me uma inquietação, quase um estado alucinatório. Caminho cada vez com maior dificuldade. Sinto o corpo a pesar, as forças cada vez mais reduzidas. Nenhum ruído em redor. Ainda estaremos mudos? Abro a boca e grito: Estão a ouvir-me? Pelo menos não estou mudo. Não obtenho qualquer resposta.

Continuo este caminho errante. De repente sinto um odor no ar que me provoca uma náusea intensa. De onde virá? Olho à volta. Não acredito. Uns metros adiante, um amontoado de corpos. Arrasto-me até lá. São os meus camaradas. Foram assassinados e lançados aqui. Como foi possível esta chacina? E como é que sobrevivi? Este cenário é insuportável. Sinto uma dor lancinante no meu peito. Segue-se um vómito imenso. Parece que o meu corpo se está a desfazer. Não aguento mais. A dor cada vez mais intensa. Vou morrer. Estou a ouvir um som, uma música cada vez mais próxima. É um requiem. A dor atroz. Os vómitos incoercíveis. Caio em cima dos corpos. Estão frios. O cheiro é nauseabundo. O meu corpo também está a ficar frio. Quanto tempo terá passado? Como terei conseguido salvar-me? Mas a dor esmaga-me o peito. Estou a morrer. Só resta o requiem, que aos poucos se vai tornando menos perceptível.

Alda Rosa

Lisboa, 20 de Outubro de 2014